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Ágora Digital

A seletividade da indignação

A morte que mobiliza e as vidas que esquecemos

Publicado em 21/11/2024 2:09 - Victor Barone

Divulgação

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A morte de Marco Aurélio Cardenas Acosta, estudante de Medicina de 22 anos, vítima de um tiro disparado por um policial militar na Vila Mariana, zona sul de São Paulo, é um episódio que expõe uma ferida antiga da sociedade brasileira: a seletividade da indignação. O clamor provocado pelo caso, que ganhou amplo destaque na mídia e mobilizou as redes sociais, contrasta de maneira gritante com o silêncio que envolve centenas de mortes nas periferias do país, onde as vítimas, majoritariamente negras e pobres, são estatísticas invisíveis.

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A dor da família do jovem Marco Aurélio é legítima, incontestável e absolutamente devastadora. Seu pai, o cardiologista e professor da USP, Júlio César Acosta Navarro, expressou publicamente sua indignação, classificando o episódio como assassinato e cobrando respostas do governo do estado. Contudo, essa reação social ampla e solidária raramente é observada quando a violência estatal se abate sobre jovens periféricos. Para essas famílias, muitas vezes aterrorizadas e sem voz, resta apenas o luto solitário, o medo e a sensação de que a justiça não as alcança.

O contraste entre as reações é alarmante, mas não surpreendente. Dados do Instituto Sou da Paz mostram um aumento de 78,5% nas mortes cometidas por policiais paulistas em serviço nos primeiros oito meses de 2024, em comparação com o mesmo período de 2023. Das 441 vítimas desse período, 64% eram negras, enquanto essa população representa 40,94% da população do Estado, segundo o Censo de 2022. Esse dado não apenas revela uma disparidade racial e social brutal, mas também evidencia o racismo estrutural que permeia a atuação policial e, em última instância, as respostas da sociedade.

A indignação seletiva revela uma hierarquia implícita sobre quais vidas são dignas de atenção e solidariedade. Enquanto a morte de um jovem de classe média alta provoca comoção e gera cobranças públicas, as tragédias nas periferias são muitas vezes justificadas pelo discurso de combate ao crime ou simplesmente ignoradas. Essa seletividade tem raízes profundas no racismo e na desigualdade social. Como destacou a socióloga Jacqueline Sinhoretto, em estudo sobre desigualdade racial e segurança pública, “a vigilância policial privilegia as pessoas negras e as reconhece como suspeitas criminais”. Esse padrão é parte de um sistema que, ao naturalizar a violência contra os mais vulneráveis, perpetua a exclusão social e racial.

A seletividade da indignação não é apenas moralmente condenável; é também politicamente perigosa. Ela legitima um modelo de segurança pública baseado na força e na exclusão, ignorando o impacto devastador que essa abordagem tem sobre as comunidades mais vulneráveis. Quando nos comovemos apenas com a dor que atinge “os nossos”, reforçamos o ciclo de desigualdade e violência que corrói os princípios democráticos.

A comoção pela morte de Marco Aurélio deve ser um alerta. Não podemos continuar ignorando as vidas ceifadas diariamente nas periferias. É preciso romper com a lógica que separa as mortes entre as que merecem atenção e as que são esquecidas. A dor das famílias é universal, e a justiça deve ser igualmente acessível a todos, independentemente de classe social, cor ou endereço.

A letalidade policial não é uma exclusividade de São Paulo; trata-se de um fenômeno que assombra todo o Brasil. Na Bahia, por exemplo, a situação é igualmente alarmante. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em 2022, o estado registrou a maior taxa de mortes por intervenção policial do país: foram 5,8 óbitos por 100 mil habitantes, mais que o dobro da média nacional, que é de 2,4. Assim como em São Paulo, as vítimas na Bahia são predominantemente jovens negros das periferias, evidenciando que a combinação entre racismo estrutural e desigualdade social atravessa as fronteiras estaduais e se manifesta como uma prática endêmica.

O filósofo Achille Mbembe, ao refletir sobre o conceito de necropolítica, apontou que o poder de decidir quem vive e quem morre é o mais perverso instrumento de controle social. No Brasil, esse poder é exercido diariamente contra as populações mais vulneráveis, enquanto uma parcela da sociedade escolhe quem merece sua solidariedade. É urgente que todos, como cidadãos, repensemos nosso papel nessa lógica perversa.

Indignar-se pela morte de Marco Aurélio é o mínimo. Mas é também o momento de ampliar essa indignação para incluir todas as vidas perdidas em circunstâncias similares. Porque, no final, enquanto persistirmos na seletividade, estaremos todos reféns de um sistema que escolhe quem vive e quem morre. E isso, em uma sociedade que se quer justa, não pode ser aceitável.

VICTOR BARONE

É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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