22/06/2024 - Edição 540

Meia Pala Bas

A maldição da empresa-seita

Publicado em 10/02/2017 12:00 - Rodrigo Amém

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Quando eu não estou escrevendo textão de Facebook, passo boa parte do meu tempo orientando empresas sobre como motivar e reter seus quadros profissionais. É o famoso endomarketing. Vai dia e vem dia, é um tal de gerente querendo que a equipe "vista a camisa" e diretor de RH tentando diminuir o "turnover" e aumentar a "entrega". Não convém aqui entregar o ouro que garante o leitinho das crianças aqui em casa. Mas podemos adiantar uma parte do processo, que consiste em identificar qual é o perfil organizacional da companhia consultante: empresa-profissional ou empresa-seita.

As empresas profissionais são aquelas que focam no valor individual das pessoas da equipe. O raciocínio é simples: bem remunerado, avaliado e orientado, o empregado vê seu trabalho valorizado e consegue visualizar seu crescimento na empresa a curto, médio e longo prazos. Percebendo o reconhecimento e as consequências tangíveis de suas ações, ele se dedica a cumprir metas e aprimorar processos. Isso faz dele um profissional motivado e, portanto, em constante evolução. Um exemplo dessa filosofia de gestão é Richard Branson, CEO da Virgin. Na sua gestão, o foco não é no cliente, mas no funcionário. "Não precisa dizer, mas a pessoa que trabalha em uma empresa da qual se orgulha e recebe todas as ferramentas necessárias para fazer um bom trabalho e é bem tratado será um funcionário feliz. Funcionário feliz atende bem e o cliente fica satisfeito", resume Branson.

Nas empresa-seita eu recomendo o que eu chamo de ‘desmilitarização de gestão’. Valorize o funcionário e deixe que ele valorizará a corporação. O contrário raramente acontece. O que eu nunca recomendo é atribuir o fracasso da empresa-seita ao público que não valoriza os funcionários que a própria companhia destrata.

E existe a empresa-seita. Numa empresa-seita, o funcionário é parte de um todo muito maior que sua mera realização pessoal. O que importa é o grupo. Seu trabalho não é visto como um talento, mas como um chamado quase místico. É, ao mesmo tempo, um privilégio e uma maldição. Seus sucessos não lhe pertencem, tampouco seus fracassos. As vitórias pertencem ao grupo e as falhas serão abafadas pelo bem do grupo. Num ambiente sem transparência, desaparece a percepção de responsabilidade pessoal. O profissional vira uma engrenagem, incapaz de evoluir por méritos próprios. A sobrevivência passa a ser uma negociação política com as lideranças e a humilhação das categorias de base é uma espécie de ritual de iniciação e purgação do amor próprio.

Para construir uma empresa profissional é preciso investimento constante. É um jogo de longo prazo. Note a palavra investimento. Custa dinheiro, mas gera retorno. Para fazer uma empresa-seita é mais barato. É preciso adotar ritos e mitos solenes em torno da corporação. Deve-se criar um clima de isolamento, medo dos líderes e repressão ao pensamento crítico. Em uma empresa-seita, não há questionamentos. Há ordens.

Como nenhuma empresa existe senão para interagir com a sociedade, esses dois modelos de gestão acabam inspirando reações da população. A primeira passa a ser vista como uma entidade de respeito, cujos produtos e serviços refletem qualidade e os novos talentos buscam fazer parte dos seus quadros. A segunda é vista com desconfiança por clientes e parceiros. O público percebe que os desvios de conduta, quando não estimulados, passam despercebidos pela gestão. A má-remuneração e os maus tratos aos funcionários acabam sendo justificados como consequência da falta de preparo e competência.  E como não há indivíduos, só há a corporação, a empresa-seita absorve o golpe e a imagem institucional se deteriora.

Sempre que eu presto consultoria a uma empresa-seita, eu recomendo o que eu chamo de "desmilitarização de gestão". Valorize o funcionário e deixe que ele valorizará a corporação. O contrário raramente acontece.

O que eu nunca recomendo é atribuir o fracasso da empresa-seita ao público que não valoriza os funcionários que a própria companhia destrata.

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Victor Barone

Jornalista, professor, mestre em Comunicação pela UFMS.


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