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Ágora Digital
A prática do “viralatismo” no discurso de Bolsonaro
Publicado em 07/11/2024 2:33 - Victor Barone
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Há um traço em nossa sociedade que Nelson Rodrigues chamou de “complexo de vira-lata”. Em sua visão, esse é o comportamento de um povo que se sente permanentemente aquém, olhando para fora com subserviência, como se esperasse sempre por aprovação. Ao observar as recentes declarações de Jair Bolsonaro, publicadas pela Folha de S.Paulo, não é difícil identificar essa síndrome no discurso de um ex-presidente que, embora tenha governado o maior país da América Latina, parece deslumbrado por um suposto “poder maior” que ele associa aos Estados Unidos, personificado em Donald Trump.
Entre as frases constrangedoras proferidas por Bolsonaro durante a entrevista concedida à Folha, destaca-se: “Eu sei o meu lugar. Estou para ele (Trump) como o Paraguai está para o Brasil.” Essa afirmação é carregada de uma pequenez alarmante. Ela revela uma mentalidade que não só se vê como subserviente, mas que se orgulha disso, num elogio ao poderio americano e numa subestimação flagrante do próprio país. Ao colocar-se em uma posição subalterna — e, curiosamente, ao relegar o Paraguai ao papel de subalterno do Brasil — Bolsonaro expressa um prazer em ser “inferior”.
Esse “complexo de vira-lata” assume aqui um aspecto mais sombrio, pois Bolsonaro não é apenas um cidadão comum fazendo elogios deslumbrados a uma potência estrangeira. Trata-se de um ex-presidente que tenta, mais uma vez, conquistar a simpatia de uma parte do eleitorado ao exaltar sua proximidade com Trump, mas o faz com uma linguagem que beira a auto-humilhação. Ao afirmar que Trump “não esqueceu” que ele foi “o último chefe de estado a reconhecer Biden” e que isso lhes rendeu “amizade”, Bolsonaro soa como um personagem patético, que vê na submissão um tipo de honra. Em outro momento, ele até se vangloria de uma suposta simpatia de Trump a ele (Trump “gosta de mim”) e sugere que Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, deveria “pensar duas vezes” antes de “comprar uma briga com o homem mais poderoso do mundo”, numa clara alusão a uma suposta obrigação de subordinação do Judiciário brasileiro aos caprichos de um líder estrangeiro.
É lamentável e perigoso que um ex-presidente não só tenha essa percepção, mas a divulgue sem qualquer constrangimento. A fala de Bolsonaro é uma demonstração clara de “viralatismo” não apenas em termos de inferioridade pessoal, mas de um tipo de culto à submissão que, se elevado à esfera das decisões políticas, coloca em risco a própria soberania nacional. O pensamento de que figuras estrangeiras, por sua força, devam guiar o caminho do Brasil sugere uma visão de país sem autonomia, incapaz de decidir o próprio destino. Em outras palavras, é uma posição que enfraquece a nação, relegando-a à posição de satélite. A verdadeira independência não está em palavras de ordem, mas na construção de uma sociedade que reconheça seu próprio valor e que se posicione no mundo com dignidade e autonomia.
Outro aspecto alarmante do discurso de Bolsonaro é sua insistência em agradar Trump como estratégia política. Não estou falando de uma parceria diplomática ou de alinhamento estratégico pontual, mas de uma espécie de devoção pessoal, com frases do tipo “é como se apaixonar por uma pessoa de graça”, na qual ele busca quase desesperadamente o reconhecimento do ex-presidente americano. Elogiar publicamente alguém que despreza valores democráticos fundamentais, como Trump, não só revela uma falha de caráter, mas também demonstra a fragilidade de suas próprias convicções democráticas. Bolsonaro vê na força bruta, e não na lei, o caminho para a resolução de conflitos. Isso é evidenciado pelo fato de que ele implicitamente ameaça a independência do Judiciário brasileiro, numa tentativa de impor uma ordem onde Trump, de fora, é a autoridade que deve ser respeitada.
Essa mentalidade de dependência reflete um problema estrutural que permeia parte da elite política brasileira. O vira-latismo não é apenas a falta de confiança, mas o desejo de se colocar em uma posição de eterno coadjuvante no palco mundial. Ao invés de erguer o Brasil a uma posição de destaque, líderes como Bolsonaro o mantêm à margem, sempre à espera de um olhar de aprovação externa que nunca virá — e que, no fundo, sequer deveria importar.
As declarações de Bolsonaro expõem uma visão pequena e submissa do Brasil.
O Brasil não pode — e não deve — contentar-se com um papel secundário no mundo, muito menos sob o comando de figuras que têm orgulho de se colocar nessa posição apequenada. Se queremos um Brasil altivo, capaz de enfrentar seus desafios e de se impor internacionalmente com respeito e soberania, é fundamental deixarmos de lado, definitivamente, essa mentalidade de inferioridade.
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VICTOR BARONE
É jornalista, poeta, professor e Mestre em Comunicação pela UFMS. É editor da Semana On desde a sua fundação.
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