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Ponte Aérea
O problema do político que não é extremista é que o extremista mente e FDC
Publicado em 13/10/2024 10:46 - Raphael Tsavkko Garcia
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A extrema-direita é tosca, ela fala em enriquecer colocando 100% do peso no indivíduo. Se você tá na merda a culpa é sua. Ela tira o cu da reta. É tudo o indivíduo que pode se quiser, se se esforçar. Então se o cara não consegue, ela lava as mãos: oras, é falha do indivíduo. Pra esquerda é muito mais difícil porque ela ainda dá corretamente peso ao coletivo – e o coletivo é uma merda. E a esquerda segue sem ter se encontrado pós-89.
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Eu não perco meu tempo com a turma “revolucionária” porque é discurso – e discurso ruim. PSTU é coerente, mas é uma relíquia coerente e só. PCO é risível. Correntes “revolucionárias” do PT só existem pra fazer figuração. Mas o autoritarismo revolucionário é sempre presente, veja por exemplo a figura do Lula.
Nosso problema é a social democracia que não se achou. Ela é capaz de ceder tudo pelo poder, ela se torna a própria direita pelo poder. Porque ela não sabe o que caralhos fazer com o poder. Ela tem o cacoete anticapitalista, mas no capitalismo, pressiona em geral pra que piore porque não tem ideia do que tá fazendo, tem nojinho de entender e lidar.
Acaba perdendo o jogo – mesmo ganhando, no poder.
LIDERANÇA FORA DO BOLSONARISMO
A direita está se articulando para buscar uma liderança fora do bolsonarismo, pois a família Bolsonaro não é capaz de realizar alguns anseios da direita por ser comprometida politicamente. A Famiglia Bolsonaro é tipicamente mafiosa, logo, pensa apenas em si., não tem uma visão de grupo.
Marçal tivesse passado pro segundo turno ou pelo menos não tivesse tentao usar laudo falso, poderia se cacifar um pouco. Malafaia seria o líder natural se pendurasse a “batina” e fosse pra política, mas HOJE não tem um nome que unifique não, tem tendências.
A liderança está “up for grabs”.
Mas a tensão é óbvia Malafaia é dos mais radicais, bateu de frente com Marçal, que também tinha (e ainda deve ter) anseios de ser a nova liderança. Tem nomes jovens, mas que ainda não tem moral pra liderar, como Nikolas. Zambelli é retardada demais. Tarcisio é muito moderado. Nunes não é “do grupo”.
Mas o fato é que apesar das fraturas, os extremistas seguem crescendo. Bolsonaro AINDA é o nome mais centralizador, mas o espaço pra uma nova liderança está aberto porque Bolsonaro tem medo demais de ser preso e não é um líder nato, mas de ocasião, a liderança caiu no colo dele em momento propício e mais inércia do que estratégia o levaram adiante.
Em tempo, quem realmente venceu essa eleição – fora o óbvio que foi a vitória do Centrão e do Kassab – foi a Doutrina Lira: Emendas parlamentares a rodo, antigo orçamento secreto, que elegeram prefeitos país afora.
Eu nem sou contra as emendas, mas defendo que sejam transparentes e com base técnica – hoje são meramente escolhas políticas e até outro dia totalmente secretas. Fora que verba federal deveria ter encaminhamento para políticas macro, não é papel do parlamento federal repassar verba pra município, deveriam ser os ministérios, em diálogo com governos estaduais a fazer esse papel.
O EXTREMISMO MENTE
O problema do político que não é extremista é que o extremista mente e foda-se, o eleitor espera isso e não tá nem aí, mas o que não é extremista tem que ficar na corda bamba e qualquer deslize ou derrapada ele se fode porque a barra é MUITO mais alta. É mole ser maluco.
O maluco, o Bolsonaro, o Trump, podem babar, gritar, se recusar a responder, mentir, não importa – é esperado. A forma é irrelevante. Já uma Kamala, por exemplo, tem que demonstrar coerência – e às vezes a coerência é inimiga do ganho político.
E daí que Trump disse ontem A e hoje B? Ou que Bolsonaro almoçou falando C e jantou dizendo D? Eles podem acusar a mídia de manipular, podem inventar mil desculpas esfarrapadas porque ninguém espera deles coerência. Dos outros sim.
O apelo do extremista é exatamente bagunçar o sistema, é a incoerência pela incoerência, é o nonsense como arma de guerra.
Daí a imensa dificuldade em combater o extremismo, os discursos e políticos extremistas – porque ou a gente desce ao nível deles (o que não serve a ninguém) ou não consegue furar a bolha.
Mas a democracia tem instrumentos para conter extremistas – a questão é coragem pra usar. Desde simplesmente impedir que concorram ou que sejam imediatamente responsabilizados por suas mentiras e crimes, passando por forçar que redes sociais cumpram efetivamente seus ToS e moderem conteúdo radical, até efetivamente intervir – como fez a Suprema Corte brasileira com o X – diretamente nas redes para que se movam.
A esquerda perde muito voto por não destacar a responsabilidade individual quando aborda aspectos sociais que geram criminosos e crime.
Dá para demonstrar indignação com bandido ao mesmo tempo que se defende pautas estruturantes para diminuir a vulnerabilidade que o sistema causa sobre os mais pobres. Se tornou bandido por causa de um contexto fodido? Sim. Mesmo assim é responsável pelos seus atos e precisa ser parado para não foder os outros? Sim também.
Punição é parte do processo de aprendizagem e de convívio social – o problema é o tipo de punição, a condição e a existência (ou não) de políticas de ressocialização.
É o dilema nature versus nurture em outra forma. Enfim, é meio óbvio, a gente pode entender contexto social, mas no fim TUDO é uma escolha e se escolheu errado, assuma as consequências por seus atos. Isso não impede – na verdade deveria forçar – que a sociedade assuma também as consequências por sua inação ou ação negativa sobre indivíduos e que busque mudar.
Coloque um sistema carcerário pra realmente recuperar e a coisa funciona. Ou ao menos tem chance de funcionar. E mude fundamentalmente a estrutura que não dá garantias de uma vida digna a quem acaba escolhendo o crime.
Responsabilização individual + mudanças estruturais focadas no coletivo + programas de recuperação e reencaminhamento.
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RAPHAEL TSAVKKO GARCIA
É jornalista, editor e Ph.D em Direitos Humanos pela Universidade de Deusto.
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