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Campo Grande

VER-SUS qualifica estudantes em meio a pressão por privatização da saúde

Evento reforçou o valor da saúde pública e do SUS em Campo Grande

Publicado em 15/04/2026 2:07 - Semana On

Divulgação Divulgação

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Campo Grande vive, simultaneamente, dois movimentos que sintetizam tensões históricas da saúde pública brasileira: de um lado, a capacitação de novos profissionais comprometidos com o Sistema Único de Saúde (SUS); de outro, o avanço de propostas que podem alterar sua forma de gestão.

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Entre os dias 6 e 11 de abril, a capital sul-mato-grossense recebeu mais uma edição do Programa Nacional de Vivência do SUS (VER-SUS), reunindo estudantes e residentes de diversas regiões do país em uma imersão prática no sistema público. Ao mesmo tempo, o município discute a possível adoção de Organizações Sociais (OSs) na gestão de unidades de saúde — medida amplamente criticada por profissionais, usuários e entidades da área.

A vivência promovida pelo VER-SUS – uma iniciativa do Governo Federal e da Rede Unida – levou 33 participantes a percorrer mais de 20 pontos da rede de atenção à saúde, incluindo unidades básicas, hospitais, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e serviços especializados. Mais do que visitas técnicas, a proposta envolveu convivência integral com a rotina do sistema, com momentos diários de reflexão coletiva.

Segundo o diretor da Escola de Saúde Pública da Secretaria Municipal de Saúde, Júlio Ricardo França, a iniciativa fortalece tanto a formação dos estudantes quanto o próprio sistema. “Eles estão muito motivados. Todos ganham. A sociedade também”, afirmou.

O diretor da Escola de Saúde Pública da Secretaria Municipal de Saúde, Júlio Ricardo França, e os “viventes”

Formação para além da técnica

Os relatos dos chamados “viventes” revelam que a experiência vai além do aprendizado técnico. O contato direto com usuários e profissionais permite compreender o SUS em sua complexidade — com desafios estruturais, mas também com forte capacidade de resposta e cuidado.

Para o residente de Psicologia José Henrique Pinto de Oliveira, vindo de Manaus, a vivência representa um marco na trajetória profissional. Ao observar o atendimento, destacou a dimensão humana do cuidado: “O paciente é o amor de alguém, o filho de alguém, o pai de alguém”.

A estudante Kallynca Vargas, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, ressaltou o caráter interdisciplinar da experiência, que amplia horizontes e prepara melhor para o exercício profissional. Já a estudante de Medicina Beatriz Bentos enfatizou a importância de compreender o trabalho em equipe dentro do SUS, destacando que o cuidado não se resume à atuação médica, mas envolve uma rede articulada de profissionais.

Entre os depoimentos, o da estudante de Enfermagem Laisa Brajato ganha centralidade ao evidenciar o impacto profundo da vivência: “Participar do VER-SUS foi uma experiência que marcou profundamente minha trajetória pessoal e profissional, transformando completamente a minha forma de enxergar o Sistema Único de Saúde.”

Ela relata que o programa não apenas ampliou conhecimentos, mas redefiniu seu compromisso com a saúde pública: “Me ajudou a me encontrar enquanto futura profissional, me reconhecer na saúde pública e me apaixonar ainda mais pelo SUS.”

Na mesma linha, a estudante técnica Alana Abdilla sintetiza o impacto formativo ao afirmar que a vivência “fortaleceu [seu] compromisso com um cuidado mais humano e integral”.

Para Maria Eduarda Miranda de Oliveira, estudante de Fisioterapia da UFMS, o VER-SUS foi mais do que uma atividade acadêmica: tornou-se uma experiência transformadora. Ao percorrer serviços como unidades básicas, CAPS, Vigilância em Saúde e territórios vulneráveis — incluindo população em situação de rua e aldeia indígena urbana —, ela afirma que a vivência ampliou o olhar sobre os desafios e as potencialidades do SUS, reforçando a importância do cuidado humanizado, da atuação multiprofissional e do compromisso com a equidade. Segundo ela, a experiência fortaleceu uma formação crítica e consolidou o compromisso com a defesa de um sistema público, universal e de qualidade.

SUS: conquista histórica sob disputa

A importância do SUS, constantemente reafirmada pelos participantes, não é apenas prática, mas também histórica e política. Criado a partir das lutas sociais da década de 1980 e consolidado na Constituição de 1988, o sistema é resultado de mobilização popular e de um pacto social que reconhece a saúde como direito universal.

Essa dimensão é destacada pela representante da Rede Unida no Centro Oeste, Vera Lucia Kodjaoglanian, cuja fala sintetiza o papel do VER-SUS na formação cidadã: “A experiência coloca os estudantes em contato direto com o SUS real, com suas fragilidades e também com suas potências.”

Vera Lucia reforça que a vivência não se encerra na semana de atividades, mas inaugura uma nova perspectiva profissional e política: “A experiência não se encerra em si, na verdade ela inicia uma nova vida para os estudantes.”

Ao contextualizar historicamente o sistema, ela lembra que o SUS existe há 35 anos graças à mobilização social que culminou na Constituição Federal, onde se estabelece que a saúde é “direito de todos e dever do Estado”.

Audiência pública na câmara Municipal debateu a proposta de privatização da saúde em Campo Grande.

Abertura institucional e contradições políticas

Paradoxalmente, enquanto a prefeitura abre as portas da rede pública para iniciativas como o VER-SUS, enfrenta críticas por defender mudanças estruturais na gestão da saúde. Durante a semana da vivência, estudantes tiveram contato direto com o debate político ao participarem de audiência pública sobre a possível privatização de unidades de saúde — ainda que, segundo relatos, a Prefeitura tenha tentado impedir a presença dos participantes no debate promovido pela câmara Municipal de Campo Grande.

A proposta da administração municipal prevê a implantação de Organizações Sociais nos centros de saúde dos bairros Tiradentes e Aero Rancho. O argumento central da gestão é a busca por maior eficiência administrativa diante de limitações orçamentárias e burocráticas.

No entanto, a reação de profissionais e entidades é majoritariamente contrária. Durante audiência pública, representantes de diversas categorias apontaram riscos relacionados à falta de transparência, dificuldades de fiscalização e possível precarização dos serviços.

A vice-presidente do Fórum de Usuários do SUS, Maria Auxiliadora Ribeiro Fortunato, sintetizou uma das principais críticas: a transformação do cuidado em metas gerenciais. “Vai deixar de ser cuidado para ser meta, número de empresa privada”, afirmou.

O presidente do Conselho Municipal de Saúde, Jader Vasconcelos, alertou para o enfraquecimento do controle social, princípio fundamental do SUS, e criticou a possibilidade de adoção do modelo sem amplo debate institucional.

Já o superintendente do Ministério da Saúde em Mato Grosso do Sul, Ronaldo de Souza Costa, reforçou um dos pilares do sistema: “O SUS é um sistema que não comporta lucro”.

Entre a experiência e o futuro

O contraste entre a vivência transformadora proporcionada pelo VER-SUS e o debate sobre a privatização da saúde em Campo Grande expõe uma encruzilhada. De um lado, forma-se uma geração de profissionais comprometida com os princípios de universalidade, integralidade e equidade. De outro, discute-se um modelo de gestão que pode tensionar esses mesmos princípios.

Como aponta Vera Lucia, o SUS não é apenas um sistema de saúde, mas uma construção coletiva sustentada por décadas de participação social. Nesse sentido, iniciativas como o VER-SUS não apenas formam profissionais — formam sujeitos políticos capazes de compreender e intervir nos rumos do sistema.

Em Campo Grande, essa disputa deixa de ser abstrata: ela se materializa tanto nos corredores das unidades de saúde quanto nas audiências públicas. E, como mostram os relatos dos viventes, entender o SUS por dentro é também entender que seu futuro está em constante disputa.

O que é o 0 VER-SUS

O projeto VER-SUS (Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde) é uma iniciativa que proporciona a estudantes de graduação, de pós-graduaçã e do ensino técnico de diversas áreas – em especial relacionados à saúde – uma imersão de 15 dias no cotidiano do SUS. O objetivo é vivenciar a prática da saúde pública, conhecendo a gestão, serviços e a comunidade.

Principais aspectos:

Imersão Real: Estudantes acompanham o trabalho em unidades de saúde (UBS, hospitais) para compreender a realidade local, superando o aprendizado apenas teórico.

Parcerias: É realizado pelo Ministério da Saúde, Rede Unida, UNE (União Nacional dos Estudantes) e Organização Panamericana de Saúde (OPAS).

Formação Multiprofissional: Voltado para estudantes da saúde e áreas afins, promovendo troca de experiências.

Foco no SUS: O projeto visa fortalecer o Sistema Único de Saúde, valorizando os princípios de universalidade e integralidade.

O VER-SUS atua como uma ferramenta de educação permanente, transformando os estudantes em profissionais mais experientes e conectados com as necessidades da população. Mais informações podem ser encontradas na página da Rede Unida.

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