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Campo Grande
Com 52 mortes registradas até setembro, capital enfrenta escalada de violência viária
Publicado em 18/09/2025 10:18 - Semana On
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Entre 1º de janeiro e 17 de setembro de 2025, 52 pessoas morreram em acidentes de trânsito na capital sul-mato-grossense, segundo dados da Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública). O número, que representa uma média de uma morte a cada cinco dias, escancara a gravidade da violência viária em Campo Grande. Só nas duas últimas semanas, três mortes violentas e de natureza distinta reforçaram a urgência de políticas mais efetivas de segurança no trânsito.
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A vítima mais recente foi Cipriano Pereira Quinhones, de 60 anos, atropelado enquanto trabalhava na tarde de quarta-feira (17), na Avenida Duque de Caxias, em frente ao CMO (Comando Militar do Oeste). Cipriano era funcionário da CG Solurb, empresa responsável pela coleta de resíduos na cidade. Inicialmente, colegas apontaram a fuga de um carro após o atropelamento, mas a perícia descartou a versão. O delegado Sam Ricardo Aranha Suzumura, da 6ª Delegacia de Polícia, informou que vestígios no corpo da vítima indicam que ele pode ter sido atropelado por um caminhão de grande porte, possivelmente um aro 22 — compatível com o tipo de veículo usado pela empresa. Amostras foram recolhidas e testemunhas serão ouvidas.
Em nota oficial, a Solurb manifestou pesar pelo ocorrido e informou que acompanha a apuração do caso. “Neste momento de dor, manifestamos nossa solidariedade e condolências à família, amigos e colegas de trabalho, reiterando nosso compromisso de acompanhar de perto as apurações e prestar todo o apoio necessário”, declarou a empresa.
Outro caso emblemático ocorreu na madrugada do dia 14 de setembro. Gabriel Vieira Santos, 29 anos, perdeu a vida após o carro que conduzia cair no Córrego Segredo, no Bairro Amambaí. Segundo a polícia, Gabriel teria avançado um sinal vermelho na Avenida Ernesto Geisel e colidido com um Volkswagen Polo, dirigido por uma motorista de aplicativo. Com o impacto, o veículo capotou e caiu no córrego. O corpo de Gabriel foi encontrado a três quadras do ponto da colisão. Ele morreu antes de receber atendimento médico. A condutora do outro veículo sofreu uma luxação no dedo e recebeu alta no mesmo dia.
No dia 6 de setembro, no Parque do Lageado, Sandro Roberto foi atropelado por um motociclista enquanto atravessava a rua próximo à própria residência. A vítima foi internada em estado grave na Santa Casa e permaneceu hospitalizada por nove dias, mas não resistiu. A morte foi registrada oficialmente no dia 15 de setembro, às 21h19, na Depac Cepol.
As três ocorrências, em menos de duas semanas, expõem com contundência o padrão de letalidade do trânsito em Campo Grande, que, apesar de estar longe dos grandes centros urbanos em termos populacionais, ostenta índices alarmantes. Para fins de comparação, o relatório “Retrato da Segurança Viária”, publicado pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), aponta que em 2023, o Brasil registrou uma morte no trânsito a cada 13 minutos. Mato Grosso do Sul aparece entre os estados com maior taxa de mortes por grupo de 100 mil habitantes.
Especialistas alertam que o problema vai além da imprudência individual. “Estamos falando de uma estrutura urbana que prioriza o automóvel e negligencia o pedestre, o ciclista e o transporte coletivo. É uma lógica mortal”, afirma a urbanista e pesquisadora da mobilidade urbana Rafaella Basile, da Universidade de Brasília (UnB). Em suas pesquisas sobre violência viária no Centro-Oeste, Basile destaca a combinação de fatores como má sinalização, fiscalização ineficiente, ausência de campanhas educativas contínuas e impunidade nos casos de infração grave.
De fato, o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) prevê punições severas para crimes de trânsito com resultado de morte, mas na prática, poucos casos chegam a condenações exemplares. A letargia do sistema de justiça alimenta um ciclo de desresponsabilização e reforça a sensação de que mortes no trânsito são tragédias inevitáveis, quando na verdade são evitáveis e previsíveis.
A urbanização acelerada de Campo Grande nas últimas décadas, sem o devido planejamento para modais sustentáveis, contribuiu para o cenário atual. De acordo com o último censo do IBGE, a frota da cidade cresceu 54% em dez anos, ultrapassando os 580 mil veículos registrados em 2024. A malha viária, no entanto, não acompanhou esse ritmo — tampouco as políticas públicas.
Enquanto isso, vidas seguem sendo perdidas em vias mal projetadas e fiscalizadas de forma precária. A morte de Cipriano, trabalhador em serviço, evidencia também um ponto sensível: a precarização da segurança no ambiente de trabalho, especialmente em funções externas e operacionais.
Ao final, a estatística se resume a isso: uma pessoa morta a cada cinco dias. E por trás de cada número, há famílias devastadas, histórias interrompidas e uma cidade que segue ignorando o grito silencioso das sirenes e o sangue que escorre sobre o asfalto.
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