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Campo Grande
Mesmo com economia gerada por inovações tecnológicas, usuários enfrentam problemas recorrentes como atrasos, lotação e falta de transparência
Publicado em 09/01/2025 9:48 - Semana On
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O Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo em Campo Grande, implementou diversas inovações tecnológicas para reduzir custos operacionais. Entre as medidas, destacam-se o uso de telemetria, pneus com monitoramento via bluetooth e otimização logística. Apesar das economias geradas, a redução de despesas não impacta o valor da tarifa paga pelos usuários, e o consórcio busca judicialmente um aumento significativo da tarifa técnica.
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Atualmente, o consórcio consome cerca de 750 mil litros de diesel por mês, com um custo médio de R$ 5,94 por litro, segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo). Isso representa um gasto mensal de R$ 4,5 milhões apenas em combustível. Para enfrentar tais despesas, o consórcio adotou estratégias como a substituição de ônibus maiores por modelos compactos em horários de menor movimento e a redistribuição das linhas para otimizar o uso das garagens.
Segundo João Rezende, ex-presidente e atual diretor institucional do consórcio, a economia gerada pelas inovações é significativa, mas difícil de ser mensurada com exatidão. “O transporte é isso: são muitos números […] poderia ser um gasto maior”, afirmou.
A tecnologia como aliada da eficiência
Entre as iniciativas que impulsionaram a eficiência operacional, destacam-se:
Telemetria: Tecnologia que monitora em tempo real a condução do motorista, apontando acelerações bruscas ou excessivas. Além de reduzir o consumo de combustível, melhora a segurança das viagens.
Monitoramento de pneus via bluetooth: Em parceria com fabricantes, a tecnologia permite verificar pressão e temperatura dos pneus, reduzindo o desgaste e prolongando sua vida útil.
Projeto Despoluir: Parceria com a CNT (Confederação Nacional do Transporte) para medir e controlar as emissões de gases dos veículos, contribuindo para a sustentabilidade ambiental.
Além disso, a substituição de ônibus por modelos mais compactos em horários ociosos tem diminuído o consumo de combustível.
Problemas recorrentes no transporte público
Apesar do discurso de modernização, os usuários do transporte público de Campo Grande continuam enfrentando problemas que prejudicam a experiência e colocam em xeque a qualidade do serviço. Entre as reclamações mais comuns estão:
Atrasos e imprevisibilidade: Linhas frequentemente não cumprem os horários previstos, obrigando usuários a esperar longos períodos nos pontos de ônibus.
Lotação: Mesmo fora dos horários de pico, muitos veículos operam acima da capacidade, gerando desconforto e insegurança.
Infraestrutura precária: Pontos de ônibus sem cobertura e falta de acessibilidade em veículos e terminais são queixas frequentes.
Falta de transparência: A ausência de comunicação clara sobre a aplicação de recursos e as justificativas para os aumentos tarifários gera desconfiança.
Esses problemas revelam uma desconexão entre as promessas de eficiência e a realidade enfrentada diariamente pela população. Segundo dados da Associação Brasileira de Transporte Público (ABTP), mais de 70% dos usuários de transporte coletivo em grandes cidades brasileiras apontam atrasos e superlotação como os principais fatores de insatisfação.
A luta judicial pelo aumento das tarifas
Mesmo com essas dificuldades, o Consórcio Guaicurus busca judicialmente elevar a tarifa técnica de R$ 5,95 para R$ 7,79, alegando necessidade de reequilíbrio econômico-financeiro. Com os subsídios públicos, o valor pago pelos usuários é atualmente de R$ 4,75.
Entretanto, um laudo pericial de 2023, apresentado no processo de reequilíbrio econômico, questiona a legitimidade desse aumento. Segundo o documento, o consórcio teve uma taxa de retorno de 21,75% entre 2012 e 2019, indicando lucro no período, mesmo com receita inferior à projetada.
Para reforçar seu argumento, o consórcio contratou uma nova perícia em dezembro de 2023, cujos resultados ainda são aguardados.
O novo desafio: inteligência artificial
O novo diretor-presidente do consórcio, Themis de Oliveira, assumiu o cargo com a promessa de expandir o uso de tecnologias de ponta para aumentar a eficiência. “Inteligência artificial está conseguindo fazer roteirização, escalas […] tem muita coisa nova acontecendo que nós vamos buscar”, afirmou.
Enquanto isso, o aumento da tarifa permanece uma questão sensível. Em um cenário de dificuldades econômicas para a população, a falta de transparência sobre os ganhos obtidos com as inovações tecnológicas gera questionamentos.
O transporte como direito social
A realidade enfrentada pelos usuários de Campo Grande reflete uma contradição presente em diversas cidades brasileiras: o transporte público, essencial para a mobilidade urbana, sofre com precarização ao mesmo tempo em que é encarecido. Para muitos cidadãos, que dependem exclusivamente do transporte coletivo, o aumento das tarifas é um peso adicional em orçamentos já comprometidos.
Como apontado pelo sociólogo Manuel Castells, “a mobilidade é um elemento central na inclusão social e no acesso a direitos básicos”. Sem um transporte público acessível e eficiente, há um reforço das desigualdades urbanas, especialmente em regiões periféricas.
Portanto, a modernização tecnológica, por si só, não basta. Ela deve estar alinhada a uma gestão transparente e orientada à melhoria do serviço prestado. No caso de Campo Grande, a pergunta que permanece é: quem realmente se beneficia dos avanços tecnológicos — o cidadão ou o lucro corporativo?
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