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Campo Grande

Tapa-buraco: solução emergencial ou maquiagem urbana em Campo Grande?

Prefeitura celebra mais de 6 mil buracos tapados em quatro dias, mas especialistas alertam para ineficácia paliativa

Publicado em 25/11/2025 11:50 - Semana On

Divulgação PMCG

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Em apenas quatro dias de trabalho, incluindo o feriado da Consciência Negra, a Prefeitura de Campo Grande anunciou a recuperação de 6.068 buracos em ruas e avenidas da cidade — uma média de 1.517 buracos tapados por dia. A operação de tapa-buracos, conduzida pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), tem mobilizado equipes das sete regiões urbanas da capital sul-mato-grossense, com jornadas iniciadas às 6h e estendidas até o fim da tarde.

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Apesar da mobilização intensa, o esforço levanta uma questão incômoda, porém necessária: essa é, de fato, a solução ideal para o crônico problema da malha asfáltica em Campo Grande? Ou trata-se, mais uma vez, de uma resposta emergencial que ignora a necessidade de investimentos estruturantes em infraestrutura urbana?

Segundo o secretário Marcelo Miglioli, a prioridade tem sido as vias de maior fluxo, como as avenidas Thyrson de Almeida, Manoel da Costa Lima, Júlio de Castilho, Mascarenhas de Moraes, Tamandaré, Fábio Zahran, Duque de Caxias e Eduardo Elias Zahran. Só no feriado de 20 de novembro, foram reparados 1.559 pontos. Nos dias anteriores, os números também impressionam: 1.775 no dia 18; 1.069 no dia 19; e 1.665 na sexta-feira, 22.

Contudo, a quantidade de buracos tapados em tão pouco tempo também evidencia o grau de deterioração do pavimento urbano. Boa parte da malha asfáltica de Campo Grande tem mais de 20 anos, período muito superior à sua vida útil média estimada. O que temos é uma política de remendo, não de solução. Tapa-buraco pode ser necessário, mas não substitui a requalificação completa da via, com base, sub-base e drenagem adequada.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 90% das vias urbanas em Campo Grande são asfaltadas, mas uma parcela significativa delas apresenta desgaste acentuado causado por infiltrações, má compactação do solo e ausência de drenagem — fatores que reduzem drasticamente a durabilidade das intervenções superficiais como o tapa-buracos.

Em relatório de 2022, o Tribunal de Contas de Mato Grosso do Sul (TCE-MS) já havia apontado inconsistências nos contratos de manutenção da malha viária de Campo Grande, com falta de critérios técnicos uniformes e falhas na fiscalização da qualidade dos serviços prestados. Além disso, obras emergenciais são, em geral, mais caras no longo prazo. Dados da Associação Nacional das Empresas de Obras Rodoviárias (Aneor) indicam que o custo por metro quadrado de um tapa-buraco pode ser até 30% maior do que o de uma requalificação planejada, considerando o retrabalho constante.

A recorrência da mesma solução também suscita críticas da sociedade civil. “É como enxugar gelo. O buraco volta no mesmo lugar semanas depois, porque o serviço não tem profundidade nem estrutura para resistir à chuva e ao tráfego pesado”, relata o comerciante José Carlos Martins, morador do bairro Aero Rancho, uma das regiões que mais sofrem com a precariedade do asfalto.

Mesmo com os avanços tecnológicos na pavimentação urbana, como o uso de asfalto com polímeros ou pavimento intertravado em áreas críticas, essas soluções ainda são pouco adotadas em Campo Grande. Segundo especialistas, a insistência no tapa-buracos como política central revela uma limitação orçamentária aliada a uma lógica de gestão de curto prazo, voltada mais para o impacto imediato do que para a durabilidade da infraestrutura.

A Prefeitura não divulgou o custo total da operação emergencial realizada neste feriadão, nem quais contratos estão sendo utilizados para executar os serviços. Transparência sobre valores e critérios de execução seria fundamental para que a população pudesse avaliar não apenas o volume de buracos tapados, mas a real eficácia e sustentabilidade das ações empreendidas.

Enquanto isso, a cidade segue em um ciclo que se repete: chuva, buraco, reclamação, tapa-buraco, e novamente buraco. Um modelo que, embora eficiente para gerar manchetes positivas no curto prazo, tem se mostrado incapaz de enfrentar o problema estrutural da pavimentação urbana com a seriedade e profundidade necessárias.

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