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Campo Grande

Surto respiratório provoca 118 mortes em Campo Grande

Crise exige reestruturação da rede de saúde e amplia vacinação contra a gripe em MS

Publicado em 20/05/2025 1:17 - Semana On

Divulgação Tony Winston - Agência Brasília

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Campo Grande enfrenta uma das maiores crises sanitárias dos últimos anos, com mais de 1,3 mil internações por doenças respiratórias graves e 118 mortes em apenas cinco meses de 2025. Em paralelo, o município reestrutura unidades de saúde e atendimento social na tentativa de conter o avanço da epidemia e qualificar os serviços. A sobrecarga hospitalar e a emergência decretada revelam não apenas os efeitos de vírus como influenza A, Covid-19 e o sincicial respiratório, mas também as falhas e potências de um sistema de saúde pública que, entre a precariedade e o esforço, tenta reagir à altura dos desafios impostos.

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Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, vive uma explosão de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) desde o início do outono. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), 1.312 pessoas foram internadas por complicações respiratórias em 2025. Desse total, quase 70% (791 pacientes) são crianças de até nove anos, o que confirma o impacto desproporcional da crise sobre a infância. Os idosos, tradicionalmente mais vulneráveis a infecções respiratórias, representam 268 internações.

A gravidade da situação se expressa, sobretudo, no número de mortos: 118 vidas perdidas, entre elas 11 crianças e 73 idosos. A análise genômica aponta 42 óbitos causados por Influenza A, 10 por Covid-19 e nove por vírus sincicial respiratório — todos agentes virais para os quais existem vacinas ou protocolos de prevenção já consolidados. No entanto, a realidade dos números revela que o acesso e a efetividade dessas medidas ainda estão longe de ser universais.

Frente ao colapso da rede hospitalar, com UTIs pediátricas e neonatais operando acima da capacidade, a Prefeitura de Campo Grande declarou emergência em saúde pública. A decisão, além de facilitar repasses e contratações, é uma tentativa de dar resposta rápida a um quadro que afeta diretamente a população mais vulnerável — crianças, idosos e pessoas com comorbidades.

Em paralelo, o Governo do Estado ampliou a campanha de vacinação contra a gripe para toda a população acima dos seis meses de idade. Mais de 410 mil doses já foram aplicadas em Mato Grosso do Sul, utilizando a vacina trivalente fornecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que protege contra as cepas Influenza A H1N1, A H3N2 e Influenza B.

Uma reorganização que é também resposta política

Enquanto os números da epidemia assustam, a prefeitura tenta reorganizar os serviços de saúde e assistência social. Três unidades passam a funcionar em novos endereços nesta semana, com a promessa de melhorar o atendimento e integrar áreas complementares de cuidado.

A Unidade Especializada em Reabilitação e Diagnóstico (UERD), por exemplo, agora funcionará no mesmo complexo do Centro de Especialidades Médicas, no bairro São Francisco. A medida busca centralizar os serviços e oferecer melhor estrutura aos pacientes.

O Ambulatório de Saúde Mental também será transferido — agora ficará ao lado do CAPS III Vila Almeida, na Vila Palmira. A mudança, ainda que temporariamente suspenda os atendimentos entre os dias 19 e 23 de maio, visa promover sinergia entre os dispositivos de atenção psicossocial, em um momento em que a saúde mental da população, especialmente de crianças e adolescentes, é tão pressionada por contextos de crise sanitária e social.

O Programa de Atendimento Especializado em Crianças e Adolescentes (PAESCA), voltado ao cuidado de vítimas de violência e tentativa de suicídio, passará a funcionar no CAPS Infantil, fortalecendo a articulação entre saúde mental e proteção social.

Uma crise que reflete desigualdades estruturais

A confluência entre o surto de SRAG e a necessidade de reorganização da rede de saúde municipal escancara uma realidade muitas vezes ignorada: as epidemias não são fenômenos meramente biológicos. Como bem afirmou o médico e historiador Charles Rosenberg em Explaining Epidemics (1992), “as epidemias funcionam como reveladoras de falhas sociais, econômicas e políticas profundamente enraizadas”. No caso brasileiro — e particularmente em Campo Grande —, essas falhas passam pela insuficiência crônica de financiamento da saúde pública, pela desigualdade de acesso aos serviços e pela sobrecarga de profissionais que atuam na linha de frente.

A concentração de mortes entre idosos e crianças mostra o quanto o cuidado com esses grupos permanece frágil. A presença do vírus influenza A, responsável por mais de um terço das mortes, poderia ser mitigada por campanhas de vacinação mais efetivas e estratégias robustas de vigilância em saúde. A Covid-19, mesmo após quatro anos de pandemia, ainda ceifa vidas — reflexo direto da persistência da desinformação e da queda na cobertura vacinal.

Para o filósofo e sociólogo Michel Foucault, a forma como uma sociedade organiza a saúde revela suas estruturas de poder e de controle. Em Vigiar e Punir (1975), ele analisa como instituições disciplinares moldam corpos e comportamentos. Aplicada à atual crise, essa perspectiva ajuda a entender por que certos grupos seguem mais expostos e menos assistidos: a distribuição desigual do cuidado segue uma lógica histórica de exclusão, ainda não superada.

O SUS e o fio tênue entre colapso e resistência

Apesar das limitações, o Sistema Único de Saúde tem demonstrado, mais uma vez, sua importância estratégica. A rápida resposta com ampliação da vacinação e a articulação entre diferentes níveis de gestão pública mostram que, mesmo sob pressão, o SUS continua sendo o principal pilar de proteção à vida no Brasil.

Como destaca a pesquisadora Ligia Bahia, professora da UFRJ e especialista em saúde pública: “O SUS é um projeto civilizatório. Ele não é apenas um sistema de atendimento, mas uma proposta de justiça social”.

A crise de Campo Grande não é um episódio isolado. É, antes, um retrato ampliado de como as condições de vida, o acesso à informação, à vacina e aos cuidados básicos de saúde ainda são distribuídos de forma desigual no Brasil. Mas é também a prova de que há caminhos possíveis quando o poder público se mobiliza, mesmo que tardiamente, para enfrentar esses desafios.

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