Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Campo Grande
Unidades enfrentam falta de médicos, escassez de medicamentos e longas esperas
Publicado em 02/04/2025 2:10 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
No último dia de março, mais de 4,7 mil pessoas buscaram atendimento nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de Campo Grande (MS), um salto de 33% em relação ao mês anterior. O caos instaurado — filas intermináveis, pacientes deitados no chão, falta de medicamentos e profissionais sobrecarregados — não é apenas um pico emergencial em tempos de doenças respiratórias: é o reflexo de um sistema de saúde cronicamente debilitado, marcado por políticas públicas desarticuladas, subfinanciamento e gestão ineficaz.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
A crise vivida hoje em Campo Grande é mais uma página no histórico de negligência à saúde pública no Brasil. Desde a Constituição de 1988, que instituiu o Sistema Único de Saúde (SUS) como um direito universal, o país avançou em cobertura, mas patina em infraestrutura e financiamento. Dados do Conselho Federal de Medicina (CFM) mostram que, em 2023, o investimento per capita em saúde pública no Brasil foi de apenas R$ 1.661 por ano — cerca de R$ 138 mensais por cidadão. Um valor insuficiente para sustentar um sistema que atende mais de 150 milhões de brasileiros.
A situação atual em Campo Grande remete a essa lógica: um SUS que resiste graças à dedicação de seus profissionais, mas que opera em constante estado de contingência. Segundo a secretária municipal de Saúde, Rosana Leite, “a média de atendimentos varia entre 2,5 mil a 3 mil diários, mas no último dia de março quase atingimos 5 mil”. Em números absolutos, foram 1,2 mil pessoas a mais do que no último dia de fevereiro — aumento de 33,71%.
Um sistema no limite: números que gritam
As dez UPAs da capital sul-mato-grossense registraram, em um único dia, filas que beiram o inaceitável. A UPA Universitária, a mais sobrecarregada, atendeu 739 pessoas no dia 31/03 — quase o triplo da capacidade ideal. No mesmo período, a unidade Leblon atendeu 652 pessoas, mesmo enfrentando a falta de pelo menos cinco medicamentos, segundo denúncia apurada pelo g1. A Guarda Civil Metropolitana foi acionada para conter a tensão.
Na última semana de março, o total de atendimentos passou de 28 mil, um crescimento de 13% em relação à semana anterior. A superlotação é acompanhada da precarização dos atendimentos: pacientes como Nathiele Dias, 22 anos, relataram esperar mais de 4 horas por atendimento. “A UPA estava extremamente lotada, com pessoas esperando até deitadas no chão”, disse ao site.
Diagnóstico de uma falência institucional
A sobrecarga de atendimento escancara um colapso que é mais estrutural do que sazonal. “A demanda é muito acima da possibilidade de se fazer um atendimento adequado”, afirmou o presidente do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul, Marcelo Santana. Os profissionais da linha de frente estão esgotados — e mal amparados.
Hoje, apenas 169 médicos atendem nos plantões da rede municipal. A Prefeitura anunciou a convocação emergencial de 56 novos médicos, além de técnicos de enfermagem e enfermeiros aprovados em concurso. Mas o socorro tardio é paliativo. A rotatividade e o não comparecimento de convocados demonstram a fragilidade dos mecanismos de reposição de pessoal, além do desinteresse crescente pela medicina pública em razão das más condições de trabalho.
Segundo a professora Ligia Bahia, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), “a crônica desvalorização da atenção primária e a aposta em modelos de privatização progressiva da saúde pública têm criado gargalos que se repetem em ciclos de caos”.
O sintoma da desigualdade: quem adoece mais, espera mais
Não se pode desconsiderar o recorte social e político desse cenário. A superlotação das UPAs atinge majoritariamente a população de baixa renda, dependente exclusivamente do SUS. É nas periferias que as arboviroses, asma, crises de ansiedade e outras condições agravadas pela pobreza encontram terreno fértil.
O caso de Gevanilson Cordeiro, 46 anos, é simbólico. Após duas tentativas frustradas de conseguir atendimento psiquiátrico na UPA Tiradentes, ouviu que “não estão marcando consulta para nenhuma especialidade”. Crises de saúde mental, que cresceram no Brasil em 40% desde a pandemia, seguem sem resposta no modelo atual de saúde pública.
Um problema de saúde, um desafio de política pública
Diante desse cenário, a Câmara Municipal convocou a secretária de Saúde para discutir soluções. Parlamentares como Fábio Rocha (União Brasil) e Beto Avelar (PP) reconheceram a gravidade da situação e pediram paciência à população — mas paciência não cura infecção nem substitui antibiótico. A falta de medicamentos e de equipes, somada à inércia burocrática, transforma a espera em uma forma cruel de exclusão.
A próxima reunião do Centro de Operações de Emergências de Saúde Pública, com participação da Defensoria, Ministério Público e Conselho Municipal de Saúde, será crucial. Mas reuniões não bastam se não forem acompanhadas de uma reforma estrutural que enfrente os gargalos históricos do SUS: financiamento insuficiente, desprestígio da atenção primária e fragilidade da gestão pública.
Democracia é também saúde pública
A filósofa norte-americana Martha Nussbaum escreveu que “a dignidade humana está diretamente ligada à capacidade de uma pessoa viver com saúde, segurança e amparo do Estado”. A crise da saúde em Campo Grande é, antes de tudo, um ataque à dignidade. E uma democracia que não garante esse direito básico caminha perigosamente rumo ao descrédito social.
A urgência, portanto, não é só médica: é política. A crise nas UPAs de Campo Grande serve como espelho para refletirmos sobre o modelo de Estado que desejamos. Um Estado mínimo não dá conta de demandas máximas. E a saúde, como determina a Constituição, não pode ser mercadoria — deve ser direito.