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Campo Grande

Secretário acusa servidores da Saúde sem provas e Câmara “passa pano”

Ilação sobre suposto “boicote” na entrega de medicamentos provoca reação de entidades e silêncio da base de Adriane Lopes

Publicado em 13/05/2026 12:41 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O secretário municipal de Governo e Relações Institucionais de Campo Grande, Ulisses Rocha, passou a enfrentar forte pressão política e institucional após acusar servidores da rede municipal de saúde de sabotarem a distribuição de medicamentos à população. A declaração, feita durante entrevista à Rádio FM Cidade 97, desencadeou reações de entidades representativas, parlamentares e juristas, que cobram provas concretas para sustentar uma denúncia considerada grave por envolver diretamente o funcionamento do serviço público de saúde.

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A crise ganhou novo capítulo na terça-feira (12), quando a Câmara Municipal rejeitou o requerimento apresentado pela vereadora Luiza Ribeiro para convocar o secretário a prestar esclarecimentos oficiais no Legislativo. A proposta recebeu apenas quatro votos favoráveis — dos vereadores Luiza Ribeiro, Jean Ferreira, Landmark Rios e Maicon Nogueira — e acabou barrada pela maioria da Casa.

O requerimento tinha como objetivo exigir que Ulisses Rocha apresentasse os elementos que embasaram a acusação pública de que servidores estariam dificultando o acesso da população a medicamentos por motivação política, em suposto boicote à gestão da prefeita Adriane Lopes. A vereadora também solicitava informações sobre eventuais processos administrativos instaurados, identificação dos casos mencionados e quais providências teriam sido tomadas pela administração municipal.

A negativa da Câmara em convocar o secretário ampliou as críticas sobre a postura do Legislativo diante de um episódio que envolve acusações potencialmente criminosas contra servidores públicos. Para oposicionistas e entidades da área da saúde, a rejeição do pedido impediu que a sociedade tivesse acesso a explicações formais sobre declarações que atingem diretamente profissionais da rede pública e colocam sob suspeita o atendimento prestado à população.

As declarações de Ulisses Rocha também motivaram reação imediata do Sindicato dos Médicos de Mato Grosso do Sul, que divulgou nota de repúdio classificando como inadmissível a exposição generalizada dos trabalhadores da saúde sem apresentação de provas. A entidade destacou que os profissionais atuam em um cenário marcado por sobrecarga, falta de estrutura e dificuldades históricas no sistema público, afirmando que acusações sem comprovação agravam ainda mais o ambiente já deteriorado da saúde municipal.

O posicionamento do sindicato reforçou manifestação anterior do Conselho Municipal de Saúde, que encaminhou ofício à prefeitura cobrando explicações sobre as declarações do secretário e pedindo esclarecimentos sobre eventuais procedimentos administrativos que sustentassem as denúncias. O conselho também chamou atenção para a necessidade de uma apuração objetiva, formal e transparente, especialmente diante da crise recorrente no abastecimento de medicamentos da rede pública.

A repercussão ultrapassou o ambiente institucional e alcançou o campo jurídico. O ex-deputado federal e advogado Fábio Trad publicou vídeo cobrando explicações tanto do secretário quanto da prefeita Adriane Lopes. Para ele, a gravidade da acusação exige identificação imediata dos supostos envolvidos, dos locais onde teriam ocorrido os casos e dos medicamentos que estariam sendo negados à população.

Segundo Fábio Trad, a fala de Ulisses Rocha não pode ser tratada como mera manifestação política, justamente porque partiu de uma autoridade pública. O advogado afirmou que, caso existam servidores omitindo deliberadamente medicamentos à população, a situação poderia configurar crimes graves. Por outro lado, destacou que acusações dessa magnitude, feitas sem provas e de forma genérica, também representam extrema irresponsabilidade institucional por atingirem toda uma categoria de servidores sem individualização de condutas.

 

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Na tribuna da Câmara, Luiza Ribeiro sustentou que a população merece respostas concretas diante do colapso frequente no fornecimento de medicamentos, especialmente os de uso contínuo e psicotrópicos. A parlamentar ressaltou que os profissionais da saúde trabalham em meio à falta de pessoal, ausência de insumos, escassez de materiais hospitalares e odontológicos, deficiência no transporte de pacientes, carência de exames e insuficiência de vagas hospitalares.

A vereadora argumentou que, diante desse cenário estrutural, atribuir aos servidores a responsabilidade pela falta de medicamentos sem apresentar provas desvia o foco dos problemas históricos enfrentados pela rede pública municipal. O requerimento rejeitado também apontava preocupação com a preservação da integridade e da imagem dos trabalhadores da saúde, atingidos diretamente pelas declarações do secretário.

A controvérsia ocorre em um contexto de recorrentes denúncias sobre desabastecimento na rede municipal. Em audiência pública realizada em outubro de 2025, foi apresentado levantamento indicando a falta de 63 tipos de medicamentos nas unidades de saúde da Capital. O problema, segundo parlamentares e entidades do setor, se arrasta há anos e antecede a atual crise política envolvendo as declarações de Ulisses Rocha.

As acusações feitas pelo secretário também remetem a episódios anteriores da própria gestão municipal. Durante a campanha pela reeleição, em outubro de 2024, a prefeita Adriane Lopes já havia atribuído a servidores da saúde a responsabilidade por problemas na distribuição de medicamentos. Na ocasião, afirmou que um servidor estaria promovendo boicote e atuando politicamente em favor da candidatura adversária de Rose Modesto.

A repetição do discurso dentro da administração municipal reforçou críticas de opositores, que apontam uma tentativa recorrente de transferir aos servidores a responsabilidade por falhas estruturais da gestão pública. Com a rejeição da convocação de Ulisses Rocha pela Câmara Municipal, entretanto, o secretário deixa de ser obrigado a detalhar oficialmente as acusações feitas contra trabalhadores da saúde, enquanto permanecem sem resposta os questionamentos sobre provas, procedimentos administrativos e eventual responsabilização dos envolvidos.

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