Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Campo Grande
Servidores investigados receberam aumentos salariais e cargos estratégicos na gestão de Adriane Lopes
Publicado em 13/05/2026 9:37 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A Operação “Buraco Sem Fim”, deflagrada na terça-feira (12), colocou no centro das investigações do Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) nomes estratégicos da estrutura de obras públicas de Campo Grande. Entre os presos está Rudi Fiorese, atual diretor-presidente da Agesul e ex-secretário municipal de Obras da capital, apontado como um dos suspeitos de integrar um esquema de corrupção ligado a contratos de manutenção viária e tapa-buracos.
SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAM, FACEBOOK, TIKTOK, X E WHATSAPP
Além de Fiorese, outras seis pessoas foram presas preventivamente sob suspeita de participação em fraudes envolvendo contratos que, segundo o MPMS, ultrapassam R$ 113 milhões em valores pagos entre 2018 e 2025. A investigação sustenta que o grupo manipulava medições técnicas para justificar pagamentos por serviços que não teriam sido executados integralmente.
Os mandados foram cumpridos em meio a uma operação conduzida pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) e pelo Grupo Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), que também apreenderam R$ 429 mil em dinheiro vivo durante buscas em endereços ligados aos investigados. Em um dos imóveis, os agentes encontraram R$ 186 mil em espécie. Outros R$ 233 mil foram localizados em um segundo endereço alvo da operação.
A ofensiva do MPMS atinge diretamente setores responsáveis pela infraestrutura urbana da capital e reacende questionamentos sobre a fiscalização dos contratos de manutenção viária em Campo Grande. Parte dos investigados já havia sido alvo de outra grande operação do Ministério Público em 2023, a “Cascalhos de Areia”, que apurava supostos desvios estimados em R$ 300 milhões em contratos relacionados à manutenção de vias não pavimentadas e à locação de máquinas e veículos.
Quem são os presos investigados pelo MPMS
Ex-secretário municipal de Obras e atual diretor-presidente da Agesul, Rudi Fiorese é considerado uma das figuras centrais da investigação. Segundo o MPMS, ele é suspeito de participação nas fraudes relacionadas aos contratos de tapa-buracos e manutenção viária. A defesa, representada pelo advogado Werther Sibut de Araújo, informou que aguarda acesso aos autos para se manifestar.
Apontado pelo Ministério Público como coordenador das ações de tapa-buracos em Campo Grande, Edvaldo Aquino também foi preso durante a operação. Após a deflagração da ofensiva policial, a prefeitura publicou sua exoneração. A defesa é conduzida pelo mesmo advogado de Rudi Fiorese, que afirmou ainda não ter acesso ao conteúdo completo da investigação.
De acordo com o Portal da Transparência de Campo Grande, Antonio Bittencourt é proprietário da Construtora Rial LTDA, empresa que acumula mais de R$ 122 milhões em contratos firmados com o município. Seus advogados, Ricardo Machado e William Macksoud, declararam que só irão se posicionar após análise dos autos.
Engenheiro vinculado à Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), Mehdi Talayeh também foi preso. Após a operação, a prefeitura publicou sua exoneração. O advogado João Vitor Comiran informou que ainda não teve acesso aos detalhes do processo investigativo.
Servidor investigado pelo MPMS, Erick Antônio Valadão de Paula teve mandado de prisão cumprido nesta terça-feira. A defesa, representada pelo advogado Fábio de Melo Ferraz, afirmou que ainda busca acesso ao caso para compreender o teor das acusações.
Outro nome ligado à Sisep, Fernando de Souza Oliveira também foi preso na operação. O advogado Fábio de Melo Ferraz declarou que ainda reúne informações antes de emitir posicionamento oficial.
Até a última atualização da reportagem, a defesa de Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa não havia sido localizada.
Fraudes teriam ocorrido durante sete anos
Segundo o Ministério Público, os contratos investigados foram firmados entre 2018 e 2025 e somam mais de R$ 113,7 milhões em pagamentos e aditivos realizados pela Prefeitura de Campo Grande. A suspeita é de que integrantes do esquema adulteravam relatórios de medição para inflar serviços executados e viabilizar pagamentos irregulares.
A Prefeitura de Campo Grande afirmou, em nota, que os contratos investigados se referem à “manutenção de vias pavimentadas firmados desde 2017, em gestão passada”. O posicionamento, no entanto, diverge parcialmente do escopo temporal citado pelo MPMS, que afirma investigar contratos e aditivos assinados até 2025.
Operação atual reencontra alvos da “Cascalhos de Areia”
A repetição de nomes em operações distintas reforça a linha investigativa do Ministério Público sobre a existência de possíveis estruturas permanentes de fraude em contratos de infraestrutura urbana da capital sul-mato-grossense.
Na operação “Cascalhos de Areia”, realizada em 2023, os promotores investigavam uma suposta organização criminosa suspeita de fraudar contratos de manutenção de vias não pavimentadas e locação de máquinas para a prefeitura. Na ocasião, o MPMS apontava movimentação superior a R$ 300 milhões em contratos públicos.
Entre os investigados daquela operação já figuravam Rudi Fiorese, Mehdi Talayeh, Erick Antônio Valadão de Paula e Fernando de Souza Oliveira — todos novamente alvos da “Buraco Sem Fim”. O Ministério Público apontava, à época, suspeitas de crimes como fraude em licitação, corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Governo estadual anuncia exoneração de Fiorese
Após a operação, a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística de Mato Grosso do Sul (Seilog) informou que o governo estadual não é alvo da investigação e declarou que os fatos investigados se referem ao período em que Rudi Fiorese atuava na prefeitura de Campo Grande. A pasta também anunciou a exoneração do diretor-presidente da Agesul.
Em nota, a secretaria afirmou que acompanha o desenrolar das investigações e destacou compromisso com “lisura e transparência na administração pública”.
O ex-prefeito de Campo Grande e atual vereador Marquinhos Trad, que não é investigado no caso, afirmou não ter conhecimento sobre os fatos apurados e declarou que não comentaria uma investigação da qual não participa.
Adriane manteve e promoveu servidores investigados
A nova fase das investigações sobre supostas fraudes em contratos de infraestrutura de Campo Grande também expôs decisões administrativas tomadas pela prefeita Adriane Lopes (PP) após a primeira ofensiva do Ministério Público Estadual contra servidores da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep). Alvos da Operação “Cascalhos de Areia”, em 2023, quatro servidores voltaram a ser presos ontem (12) na Operação “Buraco Sem Fim”, mas parte deles permaneceu em funções estratégicas da administração municipal até a nova intervenção judicial.
Dados do Portal da Transparência indicam que alguns dos investigados não apenas continuaram nos cargos após a primeira operação, como também receberam promoções e reajustes salariais durante a atual gestão. O caso mais emblemático envolve o engenheiro Mehdi Talayeh, apontado nas investigações como responsável por medições relacionadas aos contratos sob suspeita.
Em maio de 2023, antes da deflagração da Operação “Cascalhos de Areia”, Talayeh recebia salário de R$ 6.551,64. Mesmo após ser alvo da investigação conduzida pelo Ministério Público, ele permaneceu na estrutura da prefeitura. Depois da reeleição de Adriane Lopes, em outubro de 2024, o servidor foi promovido ao cargo de superintendente de Serviços Públicos da Sisep. A mudança veio acompanhada de aumento salarial de aproximadamente 46%, elevando os vencimentos para R$ 9.567,89.
Outro servidor investigado beneficiado por reajuste foi Erik Antônio Valadão Ferreira. Segundo os registros oficiais, ele recebia cerca de R$ 1,4 mil até dezembro de 2024. A partir de janeiro do ano seguinte, o salário passou para R$ 2.321,31 — crescimento de aproximadamente 65%.
Também preso na nova operação, Edivaldo Aquino Pereira continuou ocupando a gerência de Manutenção de Vias mesmo após a investigação de 2023. Na época da “Cascalhos de Areia”, ele recebia R$ 5.359,59 e foi mantido na função pela administração municipal.
Os três servidores tiveram prisão decretada pela juíza May Melke Penteado Amaral Siravegna, do Núcleo de Garantias de Campo Grande, após pedido apresentado pelo Ministério Público Estadual.
O quarto servidor preso na operação desta terça-feira foi Fernando de Souza Oliveira. Assim como os demais, ele já havia sido investigado na operação anterior. Servidor concursado da Sisep, estava licenciado sem remuneração para tratar de assuntos particulares desde então. Antes do afastamento, recebia salário de R$ 6.386.
Após a nova ofensiva do Ministério Público, a prefeitura publicou a exoneração de Mehdi Talayeh e Edivaldo Aquino. Erik Antônio Valadão Ferreira, porém, não havia sido exonerado até a última atualização das informações.
Em nota, Adriane Lopes atribuiu os contratos investigados à gestão do ex-prefeito Marquinhos Trad (PV). A estratégia política, entretanto, ocorre em meio a questionamentos sobre a manutenção e ascensão funcional de servidores já formalmente investigados em operações anteriores de combate à corrupção.
SE FIZER SENTIDO PRA VOCÊ, APOIE O JORNALISMO DA SEMANA ON
Operação “Buraco Sem Fim” leva à prisão ex-secretário de Obras de Campo Grande
Deixe um comentário