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Campo Grande
Campo Grande registra 106 mortes por doenças respiratórias
Publicado em 12/05/2025 10:21 - Semana On
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Campo Grande vive uma emergência sanitária silenciosa, mas devastadora. Em menos de uma semana, o número de mortes por doenças respiratórias saltou de 94 para 106, forçando o maior hospital do estado, a Santa Casa, a suspender atendimentos por falta de insumos e colocando em xeque a capacidade de resposta do SUS. Enquanto crianças e idosos são as principais vítimas, uma audiência pública tenta, com atraso, encontrar soluções para uma crise que é mais estrutural do que sazonal.
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O avanço vertiginoso das doenças respiratórias em Campo Grande escancarou a vulnerabilidade do sistema de saúde pública de Mato Grosso do Sul. Apenas nos primeiros meses de 2025, a capital já acumula 106 mortes, sendo 10 de crianças e 63 de idosos — os grupos mais frágeis diante de um colapso hospitalar que se desenrola em plena luz do dia.
Com 1.219 internações confirmadas por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), das quais 721 são de crianças, a cidade enfrenta não apenas um surto de gripe, mas um colapso da capacidade hospitalar. A superlotação da Santa Casa, o maior hospital do estado, levou à suspensão temporária dos atendimentos no Pronto Atendimento Adulto e Infantil. A decisão, segundo a administração, foi inevitável: desabastecimento grave de insumos, risco iminente de desassistência e potencial para agravamento clínico e óbito.
O impacto foi imediato: mais de 260 pacientes — entre adultos e crianças — aguardam vaga para internação, com 41 crianças esperando em unidades básicas de saúde, à margem do atendimento hospitalar adequado. A secretária municipal de Saúde, Rosana Leite, garantiu que todos recebem atenção nas UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), mas a afirmação contrasta com a realidade de unidades superlotadas e déficit histórico de leitos.
A abertura emergencial de 62 novos leitos em hospitais como Alfredo Abrão, São Julião e Adventista do Pênfigo depende da resposta do Governo do Estado, revelando a lentidão do pacto federativo em momentos de crise.
O diagnóstico de uma crise anunciada
Não se trata de uma tragédia súbita. Há quase um ano, em abril de 2024, Campo Grande já havia decretado situação de emergência na saúde pela mesma razão: a escassez de leitos pediátricos. Desde então, pouco ou nada foi feito para reverter a precariedade estrutural do atendimento público no estado. Em 2025, a situação apenas se agravou.
A crise não é exclusividade de Mato Grosso do Sul. O SUS, orgulho nacional pela sua concepção universalista, vive sob estresse crônico, sobretudo em regiões onde a expansão demográfica e a carência de investimentos estruturais andam juntas. Segundo dados do IBGE (2023), Mato Grosso do Sul tem uma das mais baixas relações de leitos hospitalares por mil habitantes da região Centro-Oeste, agravando a vulnerabilidade em surtos sazonais.
O problema financeiro da Santa Casa exemplifica essa precarização: os repasses públicos não acompanham os custos dos atendimentos, gerando um déficit operacional que se reflete na interrupção de serviços essenciais. A campanha “Juntos Pela Vida – Sua Contribuição Salva!”, lançada pelo hospital para arrecadar fundos para reformas, soa como um apelo desesperado em meio à falência do financiamento público da saúde.
Quando a emergência se torna política
Diante do colapso, a Câmara Municipal convocou uma audiência pública para o dia 14 de maio, com o objetivo de debater soluções para a crise da Santa Casa. O vereador André Salineiro, presidente da Comissão Permanente de Controle de Eficácia Legislativa, lidera a iniciativa, que deve reunir representantes da prefeitura, governo estadual, sindicatos e profissionais da saúde.
A audiência, contudo, ocorre sob a sombra de uma percepção de inércia institucional. Para o sociólogo e ex-presidente do Ipea, Jessé Souza, a precarização dos serviços públicos no Brasil é consequência direta de um projeto de desmonte do Estado: “O desfinanciamento das políticas sociais é uma forma sofisticada de manter privilégios. É uma violência simbólica que atinge sempre os mais vulneráveis”.
O quadro de Campo Grande, portanto, não é apenas uma crise sanitária, mas um sintoma de um modelo de gestão pública que naturalizou a precariedade como destino.
Lições históricas e riscos democráticos
A filosofia política nos ensina que o colapso das instituições de proteção social mina as bases da democracia. O historiador britânico Tony Judt alertava, em “Pós-Guerra”, que “sociedades desiguais são, por definição, sociedades instáveis”. O que acontece em Campo Grande não é apenas uma falha administrativa: é um atentado contra o princípio constitucional da dignidade humana.
Enquanto isso, a ausência de articulação federativa efetiva coloca em xeque a capacidade de resposta a emergências. A dependência de leitos privados, sem contrapartida de ampliação de infraestrutura, é uma bomba-relógio. Em um contexto onde as UPAs viram “hospitais improvisados”, como reconheceu a própria secretária Rosana Leite, a pergunta que se impõe é: até quando o improviso substituirá a política pública de fato?
O papel da sociedade civil
Em um momento em que o descrédito das instituições cresce, a mobilização da sociedade civil torna-se crucial. A participação na audiência pública, ainda que simbólica, é um primeiro passo para reconectar a política à realidade concreta dos cidadãos.
Como dizia Hannah Arendt, “o espaço público é onde a liberdade se realiza”. Garantir o direito à saúde é, antes de tudo, garantir o direito à vida e à cidadania plena.
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