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Campo Grande

População em situação de rua triplica em Campo Grande

País ultrapassa 358 mil pessoas vivendo nas ruas; MS figura entre os estados com maior crescimento

Publicado em 03/11/2025 9:31 - Semana On

Divulgação Agência Brasil

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A face mais cruel da desigualdade brasileira tem crescido silenciosamente nas calçadas de Campo Grande. Em apenas sete anos, a população em situação de rua na capital sul-mato-grossense triplicou, passando de 503 pessoas em 2018 para 1.611 em 2025, segundo dados do Cadastro Único compilados pelo Observatório Nacional da População em Situação de Rua (OBPopRua), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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O fenômeno não é isolado: em todo o Brasil, já são mais de 358 mil brasileiros vivendo nas ruas, 60% deles concentrados na região Sudeste. Trata-se de um retrato nítido de um país que fracassa, sistematicamente, em proteger os seus mais vulneráveis — e que ainda falha em cumprir promessas constitucionais básicas de dignidade e cidadania.

A explosão dos números: realidade à margem

Os dados mostram um crescimento vertiginoso. Em Campo Grande, entre março e outubro de 2025, o número de pessoas vivendo nas ruas saltou 47%, de 1.091 para 1.611. No mesmo intervalo, o estado de Mato Grosso do Sul registrou um aumento de 36%, saindo de 2.000 para 2.716 pessoas em situação de rua. Desde 2018, o aumento foi de 168% no estado.

Embora o estado ocupe a 20ª posição no ranking nacional de moradores de rua entre os 27 estados, chama atenção por estar entre os 12 estados com maior crescimento proporcional. Isso evidencia que, mesmo fora dos grandes centros urbanos do país, o fenômeno avança com força, revelando uma crise nacional que extrapola as fronteiras das capitais e desafia políticas públicas locais, muitas vezes precárias e desarticuladas.

A prefeitura de Campo Grande informou em setembro que está realizando um censo inédito da população de rua. A ação envolverá 32 equipes que percorrerão cerca de 100 pontos de concentração desse público. No entanto, em face ao crescimento tão acelerado, a medida soa mais como uma tentativa tardia de entender o problema do que uma resposta efetiva para enfrentá-lo.

Um país à deriva: 358 mil brasileiros sem teto

O cenário nacional é ainda mais alarmante. De acordo com o OBPopRua, o Brasil contava em outubro de 2025 com 358.553 pessoas em situação de rua. Desses, quase 100 mil estão apenas na cidade de São Paulo, uma cifra que praticamente triplicou em relação a 2018. O estado de São Paulo, sozinho, concentra 148.730 pessoas sem moradia, seguido por Rio de Janeiro (33.081) e Minas Gerais (32.685).

Mais do que números, esses dados revelam a falência das políticas públicas de assistência social, habitação, saúde mental e trabalho. O crescimento generalizado dessa população também é reflexo direto das desigualdades raciais e estruturais históricas do Brasil. Conforme destaca o Observatório, a população em situação de rua é majoritariamente negra, pobre, e vítima de sucessivas exclusões ao longo da vida.

“A Constituição de 1988 continua sendo descumprida com relação a essas pessoas”, afirma nota oficial do OBPopRua. “Com pouquíssimos avanços na garantia de direitos dessa população, historicamente vulnerabilizada em nosso país”, completa o documento, que também critica a falta de transparência nos dados governamentais sobre o tema.

A ausência do Estado e o colapso da proteção social

A explosão da população em situação de rua está profundamente conectada à retração do Estado na garantia de direitos básicos. O desmonte das políticas públicas de habitação, a precarização das relações de trabalho, o desemprego estrutural, a alta no custo de vida e a fragilidade dos sistemas de saúde mental e assistência social são fatores que se combinam para empurrar milhares de pessoas para as ruas.

Especialistas como o sociólogo Juliano Spyer, autor de “Povo de Classe Média” (2021), alertam que a classe trabalhadora brasileira vem sendo sistematicamente empurrada à informalidade e à vulnerabilidade extrema, muitas vezes sem redes de proteção mínimas. “Não é apenas a falta de trabalho; é a falta de um Estado presente, que acolha, proteja e ofereça alternativas”, disse em entrevista à Folha de S.Paulo.

Já a filósofa e urbanista Raquel Rolnik, ex-relatora da ONU para o Direito à Moradia, vem denunciando há anos o déficit habitacional brasileiro e o impacto direto das políticas de austeridade no agravamento da crise social. Segundo ela, “a moradia deixou de ser entendida como um direito e passou a ser tratada como mercadoria”.

A urgência da dignidade como política

O drama das ruas brasileiras é também um espelho das decisões políticas recentes. O congelamento dos gastos públicos com saúde, educação e assistência social a partir da Emenda Constitucional 95, em 2016, foi apontado por diversas entidades, como a Plataforma Desca Brasil, como um dos marcos decisivos para o agravamento da pobreza extrema no país. O resultado é um tecido social cada vez mais esgarçado.

Mais que empatia, o momento exige política pública com foco em direitos humanos e não em abordagens higienistas ou repressivas. A solução para a população em situação de rua passa por políticas de moradia popular, ampliação da assistência social, renda mínima, acesso à saúde mental e combate ao racismo estrutural. Repressão policial ou ações emergenciais pontuais, como abrigos improvisados em momentos de crise climática, são paliativos que não resolvem o problema — apenas o escondem temporariamente.

A democracia e o pacto constitucional

A existência de centenas de milhares de pessoas em situação de rua é mais do que uma tragédia social. É um rompimento direto com o pacto democrático firmado na Constituição de 1988, que estabelece a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República. Quando o Estado falha em garantir o mínimo — moradia, alimentação, saúde, proteção —, falha também em garantir a cidadania.

Como escreveu Milton Santos, geógrafo e pensador humanista brasileiro, “o território é usado como instrumento de exclusão”. Hoje, nossas cidades têm se tornado espaços de negação do direito à cidade e à vida digna. E é justamente nas esquinas, marquises e viadutos que vemos a face mais brutal da desigualdade que insiste em moldar o Brasil.

É urgente que o país retome o caminho de uma política pública pautada na justiça social, na equidade e na dignidade humana. O crescimento da população em situação de rua não é apenas um dado estatístico — é um grito coletivo de um Brasil que insiste em não ver seus próprios abandonados.

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