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Campo Grande
Campo Grande atingiu nível "péssimo" de qualidade do ar em 2024, evidenciando falta de regulação
Publicado em 10/03/2025 11:03 - Semana On
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O avanço desenfreado da poluição atmosférica expõe, mais uma vez, a negligência histórica do poder público no controle das emissões de gases poluentes. Em 2024, Campo Grande atingiu seu pior nível de qualidade do ar desde o início do monitoramento, conforme revelou um estudo conduzido pelo Laboratório de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A pesquisa constatou que a capital sul-mato-grossense registrou um índice de qualidade do ar classificado como “péssimo”, resultado do acúmulo de poluentes como monóxido de carbono, dióxido de enxofre e material particulado fino (MP2,5 e MP10).
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O fenômeno, segundo os especialistas, não ocorre isoladamente. A degradação da qualidade do ar é reflexo de um modelo econômico baseado no consumo intensivo de combustíveis fósseis e na destruição sistemática das florestas, sem que haja políticas ambientais efetivas para conter a emissão descontrolada de poluentes. “A poluição do ar é uma emergência de saúde pública global. Não estamos falando apenas de números, mas de impactos diretos na saúde das pessoas, com aumento de doenças respiratórias, cardiovasculares e até mesmo câncer”, alerta o epidemiologista Paulo Saldiva, professor da USP e especialista em poluição atmosférica.
O peso da omissão
O caso de Campo Grande não é uma exceção, mas um retrato de um problema estrutural que se estende por todo o Brasil. O descontrole sobre a emissão de poluentes é, na prática, uma política permissiva que beneficia setores industriais e agrícolas em detrimento da saúde pública. As queimadas no Pantanal e na Amazônia, somadas à intensa atividade veicular e industrial, são fatores determinantes para o quadro alarmante registrado na capital sul-mato-grossense.
Os dados da UFMS/Inpe apontam que o mês de setembro foi o mais crítico, com o maior número de dias de risco para a saúde. O dia 8 de outubro entrou para a história como um dos piores em termos de qualidade do ar. No total, foram 12 dias com ar classificado como “ruim”, 10 como “muito ruim” e pelo menos um considerado “péssimo”. Esses números são um sintoma evidente de que os atuais mecanismos de controle ambiental são insuficientes e carecem de fiscalização efetiva.
No Brasil, a legislação ambiental estabelece padrões de qualidade do ar por meio do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente). No entanto, os limites fixados pelo órgão estão defasados em relação aos parâmetros da Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomenda níveis ainda mais rígidos para a concentração de poluentes. A falta de atualização das normas e a ausência de monitoramento contínuo e de sanções efetivas às fontes poluidoras perpetuam a degradação ambiental e seus impactos sobre a população.
Poluição e saúde
A poluição do ar é um inimigo silencioso. Segundo a OMS, cerca de 7 milhões de pessoas morrem anualmente no mundo devido à exposição prolongada a poluentes atmosféricos. Doenças respiratórias como asma, bronquite e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) estão diretamente ligadas à inalação de partículas finas suspensas no ar, que penetram profundamente nos pulmões e atingem a corrente sanguínea.
O problema é ainda mais grave para crianças, idosos e pessoas com doenças preexistentes. “A exposição crônica à poluição atmosférica aumenta significativamente o risco de infarto e AVC, além de contribuir para o desenvolvimento de câncer de pulmão”, destaca Dr. Christodoulos Stefanadis, cardiologista e pesquisador da Universidade de Atenas. No Brasil, dados do Instituto Saúde e Sustentabilidade apontam que a poluição atmosférica causa cerca de 50 mil mortes prematuras por ano.
O impacto econômico também é significativo. Um estudo do Banco Mundial estima que os custos associados à poluição do ar, incluindo despesas médicas e perda de produtividade, ultrapassam os US$ 8 trilhões por ano em nível global – um valor equivalente a 6% do PIB mundial.
O Brasil hesita
O Brasil ainda patina na implementação de políticas eficazes. Em 2019, o governo federal enfraqueceu o Plano Nacional de Qualidade do Ar (Pronar), reduzindo a obrigatoriedade de monitoramento da poluição. No mesmo período, retrocessos ambientais facilitaram o avanço do desmatamento, comprometendo ainda mais a capacidade dos ecossistemas de absorver os poluentes.
O combate à poluição exige compromisso político, investimentos em mobilidade sustentável e transição energética. A cidade de Londres, por exemplo, implementou uma “zona de emissões ultrabaixas”, restringindo a circulação de veículos altamente poluentes e promovendo incentivos para transporte limpo. Na China, o governo investiu pesadamente na redução da dependência do carvão e na eletrificação do transporte público.
O Brasil, por sua vez, mantém um modelo de desenvolvimento dependente de combustíveis fósseis e da expansão da agropecuária, setores que exercem forte influência sobre a formulação de políticas ambientais.
Sem uma mudança estrutural e a adoção de medidas concretas, cidades como Campo Grande continuarão a enfrentar crises sucessivas de poluição, com impactos diretos sobre a qualidade de vida da população.
A urgência de políticas ambientais eficazes
Os dados apresentados pelo estudo da UFMS/Inpe são um alerta vermelho para a sociedade e os governantes. A degradação da qualidade do ar não é um fenômeno isolado, mas uma consequência direta da inércia política diante da emergência ambiental. Sem regulamentação rigorosa, fiscalização eficiente e um compromisso real com a transição energética, a poluição continuará avançando, com impactos devastadores para a saúde pública e o meio ambiente.
A questão central é: por quanto tempo ainda aceitaremos respirar um ar que nos adoece?
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