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Brasil
Publicado em 21/07/2022 12:00 -
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Enquanto monopoliza a agenda nacional com ameaças de golpe de Estado, o presidente da República foge de falar sobre o alto preço dos alimentos – que não deve dar um alívio mesmo com a deflação trazida pela queda nos combustíveis.
De acordo com o último informe da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), "a demanda por carne bovina segue fraca, com preços bem elevados frente à queda no poder aquisitivo dos consumidores". Mesmo com uma recente redução no produto, ele segue tão caro que afasta os brasileiros.
A Conab avalia que houve uma demanda acentuada pelo frango "em virtude dos altos preços da concorrente bovina". Mas o aumento na demanda interna e externa pelo produto encareceu o valor cobrado pelo quilo. O que ajudou a espanar parte dos que consumiam a ave devido à baixa em seu poder aquisitivo.
O refúgio natural seria o ovo. O problema é que um levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento de Tributação (IBPT) apontou que a dúzia de ovos registrou alta de 202,13% durante a pandemia, de março de 2020 a maio deste ano. Isso afeta a população de mais baixa renda, que encontrava no produto uma fonte de proteína.
No mesmo período, levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontou que o aumento da carne bovina (42,6%) foi mais que o dobro da inflação geral (19,4%).
Sobrou para quem não consegue comprar carne, frango e ovo ser criativo para alimentar os filhos. No ano passado, tivemos cenas que ficaram tristemente célebres, como as de famílias revirando uma caçamba de um caminhão de lixo em Fortaleza e de pessoas disputando uma doação de ossos de boi no Rio de Janeiro.
Isso, infelizmente, não ficou para trás, tanto que no último dia 11, família remexiam a caçamba de um caminhão de lixo atrás de restos comestíveis.
Não são as únicas em situação de penúria. Em menos de dois anos, o número de famintos subiu de 19 milhões para 33,1 milhões, segundo dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar.
Depois da carne, o leite se tornou produto de luxo na mesa e na cozinha. De acordo com o levantamento mensal de preços do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), divulgado no dia 6, o litro de leite subiu em todas as 17 capitais avaliadas pelo instituto. Em alguns lugares, já há marcas vendidas a R$ 10.
Em Belo Horizonte, o litro de leite integral UHT aumentou 23,09% entre maio e junho, seguida por Porto Alegre (14,67%), Campo Grande (12,95%) e Rio de Janeiro (11,09%). Em São Paulo, a subida foi de 9,3%. No acumulado de 12 meses, BH teve alta de 48,89%, Florianópolis, 46,7%, Porto Alegre, 44,55% e São Paulo, 29,66%. Há fatores sazonais e climáticos, mas também há o impacto da inflação.
Comprava-se um quilo de frango com R$ 1 em 1994. Não é de se estranhar, portanto, que a ave se tornou um dos símbolos do Plano Real, tendo ajudado a eleger Fernando Henrique Cardoso duas vezes. Entre aquele ano e 1997, o consumo subiu 40%.
Já a aquisição de carne bovina foi adotada por Luiz Inácio Lula da Silva como referência de seu governo. Tanto que, hoje, a memória do churrasco de "picanha" é frequentemente resgatada por ele para lembrar aos eleitores da "fartura" durante sua gestão e pedir votos.
O governo Jair Bolsonaro, que negou propostas do Congresso para garantir R$ 600 aos brasileiros mais vulneráveis no ano passado, quando a fome estava escalando, agora corre para pagar esse valor como Auxílio Brasil a fim de conseguir votos na eleição de outubro.
Esse alento para as famílias que estão vivendo de restos e água só dura até o final das eleições. Em 2023, o auxílio desaparece.
A questão é se vai dar tempo para que o acréscimo de R$ 200 se faça sentir entre o eleitorado mais pobre – que, hoje, vota em sua maioria em Lula. Não à toa, portanto, que, no Congresso Nacional, a ideia golpista de postergar as eleições presidenciais caso a violência política escale esteja circulando.
Bolsonaro precisa atrair toda a atenção possível da sociedade até que o efeito da PEC da Compra dos Votos seja sentido pelo povão. Os shows de horror golpistas, como aquele voltado a seus seguidores e que teve embaixadores como figurantes, nesta segunda (18), são úteis para isso.
E se a tática da compra votos não funcionar, daí coitada de nossa democracia.
Bolsonaro celebra Brasil discutir golpe de Estado e esquecer leite a R$ 10
Há um efeito colateral da palestra que o presidente Jair Bolsonaro deu a embaixadores explicando como e porque dará um golpe de Estado. Desde o último dia 18, a pauta política nacional está sequestrada pelo assunto, dando menos espaço a outros problemas. Como a alta no preço do leite.
É simplista achar que Bolsonaro e seu núcleo de comunicação, que dá um banho em analistas, jornalistas e políticos desde 2018, não previam a repercussão negativa do show de horrores perpetrado por ele. O presidente e seu entorno podem ser toscos, mas burros não são.
A queda nos preços dos combustíveis, seja pelo impacto da limitação do ICMS, seja pela redução do barril do petróleo em todo o mundo, já se faz sentir, aliviando a barra principalmente da classe média. Mas os alimentos continuam caros, pressionando a fome que, na última contagem, já atingia 33,1 milhões.
Símbolo disso é o litro de leite, que chega a R$ 10 em alguns lugares, e a venda de pelancas e ossos para quem não pode comprar carne, frango e ovo.
Um pequeno alívio virá com o pagamento dos R$ 200 extras e do aumento no valor do vale-gás a partir de agosto, resultado da PEC da Compra dos Votos.
Até lá, o presidente da República tenta evitar que sua imagem seja cristalizada como a do candidato dos preços altos e da inflação, principal problema nacional apontado pelos institutos de pesquisa. Até porque, para vencer, precisa retirar votos de Lula entre os mais pobres, para quem os alimentos são o principal componente do orçamento.
De acordo com o último Datafolha, Lula vence Bolsonaro por 56% a 22% entre quem ganha até dois salários mínimos. Esse grupo representa 52% da população, segundo o instituto.
Óbvio que a consumação de um golpe de Estado por Jair Bolsonaro enfiará o Brasil num buraco escuro e fedorento por muitos anos, afetando principalmente os trabalhadores – que terão direitos e proteções reduzidas, como seu governo vem tentando fazer desde o início.
Mas o debate sobre o golpismo escancarado, que tem preenchido os debates da classe média, seja ela contra ou a favor do presidente, não tem a mesma tração entre os mais pobres – que estão mais preocupados com a sobrevivência imediata. Para muita gente, discutir golpe é "privilégio" de quem não está passando fome.
Não à toa, o presidente prefere muito mais ser chamado de "golpista" ou "genocida" (por conta dos 675 mil mortos por covid-19) do que de "Bolsocaro".
Outro efeito colateral é que assim que começaram as críticas ao presidente por conta de seu stand up de horror no Palácio do Planalto, a máquina de guerra digital do bolsonarismo nas redes sociais, no Telegram e no WhatsApp passaram a usar o episódio para bombar a micareta golpista de 7 de setembro, mas também o esquenta de 31 de julho.
Vale lembrar que o principal público-alvo do evento não eram as representações diplomáticas estrangeiras, mas o eleitorado de Bolsonaro – que recebeu a mensagem de que o "mito" estava avisando o mundo de que um golpe estava em curso. Ironicamente, eles acham que o golpe é contra Jair e não do Jair.
O evento de segunda-feira cumpriu diferentes funções. Engajou seguidores, aumentou a tensão com o TSE e o STF, mostrou apoio político ao presidente (muito se fala do silêncio de Arthur Lira e Augusto Aras, mas não daquele dos líderes do PL, PP, PTB e Republicanos), sequestrou a agenda nacional e, claro, jogou as conhecidas cortinas de fumaça sobre problemas que ele não consegue resolver.
Ganha, com isso, tempo – que está cada vez mais curto e, por isso, precioso. Faltam 74 dias para o primeiro turno.
Brasileiros contam como trocam prato de comida por lanche para economizar
A alta dos preços dos alimentos está levando o brasileiro a trocar refeições por lanches fora de casa. De acordo com uma pesquisa feita pela consultoria Kantar, mais da metade dos entrevistados afirmou que a pandemia mudou muito seus hábitos de alimentação na rua.
O que aconteceu? O estudo aponta que as refeições fora de casa caíram 25% na comparação entre o primeiro trimestre de 2022 e o mesmo período em 2020. Além disso, aumentou o consumo de lanches (3,9%) e caiu o consumo de refeições completas (-3,3%).
O principal motivo para isso é a alta dos preços da comida fora de casa. Enquanto os brasileiros gastam em média R$ 10,43 para comer um sanduíche ou um salgado, para fazer uma refeição completa na hora do almoço é preciso desembolsar um valor médio de R$ 43,94.
O estudo da Kantar aponta que lanches fora de casa ficaram 11% mais caros. Refeições tiveram reajuste de 21%. O brasileiro tem optado por pastéis, hambúrgueres, salgados e cachorros-quentes por custarem em média um quarto do preço de um prato de comida em um restaurante.
Quais os problemas dessa troca? Para Rodrigo Kiko Afonso, diretor-executivo da Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida, a troca da refeição completa por um lanche representa uma insegurança alimentar leve, pois as pessoas passam a não comer corretamente. "Não dá para você trocar uma refeição por uma empadinha", diz.
No Brasil, pelo menos 60 milhões de pessoas estão em situação de insegurança alimentar leve, cenário em que há queda na qualidade dos alimentos consumidos e preocupação se haverá comida na mesa no futuro.
Coxinha enquanto vai tratar um câncer: É o caso das irmãs Jolivania, de 38 anos, e Jolene Souza, de 40 anos. Desempregadas, elas têm de comer lanches para economizar quando saem de casa. Moradora do extremo sul de São Paulo, Jolivania conta que faz tratamento no Centro Oncológico Bruno Covas, na Vila Santa Catarina, e é acompanhada por sua irmã.
Depois de passar a manhã no hospital, elas pegam dois ônibus para chegar em casa, no Jardim Gaivota. Entre uma condução e outra, param para comer um cachorro-quente ou pastel. Se o dinheiro está mais curto no dia, pode ser um croissant ou uma coxinha.
Pastel para economizar e ganhar tempo: O motorista Alessandro Andrade, 40, diz que prefere comer lanches na hora do almoço por ser mais rápido. Há um ano e meio, ele se alimenta na hora do almoço com pastéis, hambúrgueres ou cachorros-quentes. Além de economizar dinheiro, ele conta que tem muito pouco tempo para fazer a refeição.
Inflação e pandemia: Os dados da pesquisa da Kantar mostram que 62% dos brasileiros ainda estão preocupados com a continuação da pandemia de covid-19 e o impacto em suas vidas profissional e financeira. Além disso, a inflação alta tem corroído o poder de compra.
Os consumidores estão mais preocupados e se planejam melhor no momento de gastar o dinheiro —quase 46% estão comprando mais itens em promoção, para tentar economizar.
Os comerciantes também perdem? A inflação também pesa para os donos de barracas de lanche, que tentam economizar onde dá, para manter o preço mais baixo.
Solange Maria, de 32 anos, proprietária da barraca Bem Lanches, localizada na frente do shopping SP Market, conta que tem evitado repassar o custo dos alimentos para os clientes.
A maioria dos seus clientes é de homens, que buscam sanduíches robustos —para sustentar o dia inteiro— e que sejam práticos. Seu carro-chefe é o x-calabresa, que leva pão francês, linguiça, queijo e vinagrete, por R$ 8. "O brasileiro sempre comeu lanche para economizar, só que agora está difícil para todo mundo", afirma.
Quanto subiu a comida? De acordo com IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), os alimentos e as bebidas ficaram 13,93% mais caros nos últimos 12 meses, com destaque para legumes (65,71%), verduras (29,28%), frutas (28,90%), leites e derivados (25,40%).
Os valores estão acima da inflação oficial medida no mesmo período, que foi de 11,89% de acordo com IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O que acontece daqui para a frente? Segundo Rodrigo Kiko Afonso, da Ação da Cidadania, a preocupação é que as pessoas com insegurança alimentar leve passem a um estágio pior, de insegurança alimentar moderada ou grave. Já são 65 milhões de brasileiros nessa situação.
– Insegurança alimentar leve: quando cai a qualidade do alimento consumido e há receio de faltar comida no futuro;
– Insegurança alimentar moderada: quando há restrição na quantidade de comida e a família pula uma das refeições;
– Insegurança alimentar grave: quando não há comida
Mais de 60% da população brasileira (125 milhões de brasileiros) está em algum grau de insegurança alimentar. Por isso, a Ação da Cidadania tem investido em uma nova campanha para ajudar as pessoas em situação mais grave: 33 milhões de pessoas (ou 15% da população) que hoje não têm o que comer.
O que se pode fazer? A ação "Pacto pelos 15% com Fome" deve unir entidades da sociedade civil, empresas, grupos de mídia, agências de comunicação, artistas e influenciadores para arrecadar doações e cadastrar novos voluntários para a luta contra a insegurança alimentar.
"São 14 milhões de novas pessoas sem acesso à alimentação em pouco mais de um ano. É inaceitável", declara Rodrigo Kiko Afonso. Quem quiser ajudar pode doar diretamente para as ONGs e organizações que fazem parte da ação social.
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