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Campo Grande
Servidores administrativos protestam contra três anos de salários congelados
Publicado em 08/05/2025 11:12 - Semana On
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No mesmo momento em que a prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), anunciava com entusiasmo o reajuste de 6,27% para os professores da Rede Municipal de Ensino (Reme) e a convocação de 273 novos docentes concursados, uma parte essencial — porém historicamente invisibilizada — do sistema educacional preparava sua resposta: paralisação das atividades no dia 15 de maio. O motivo é claro e contundente: três anos sem reajuste, com defasagem salarial acumulada de 30% e vencimentos que, para 95% dos servidores administrativos da educação, não chegam sequer ao valor do salário mínimo nacional.
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Sob o brilho da propaganda oficial, que comemora o cumprimento do piso do magistério e o aumento do número de efetivos na rede, os servidores administrativos se tornam o outro lado de uma moeda desigual: são auxiliares de secretaria, técnicos, inspetores, assistentes de educação infantil e demais trabalhadores de apoio que mantêm as engrenagens do sistema em funcionamento, mas que hoje sobrevivem com salários inferiores a R$ 1.518,00 — o mínimo legal em 2025.
A política do aplauso seletivo
Segundo William Freitas, presidente do Sindicato dos Servidores Municipais de Campo Grande (Sisem), a insatisfação da categoria não se restringe à educação. “Os 30 mil servidores públicos municipais estão sem reajuste há três anos”, denuncia, frisando que a defasagem atinge todas as áreas da administração municipal, embora a educação, pelo volume de trabalhadores e pela centralidade na vida pública, seja o foco mais visível da mobilização.
O contraste entre o reajuste da prefeita e o congelamento salarial da base do funcionalismo torna-se ainda mais gritante quando se observa que a própria Adriane Lopes teve um aumento de 66,7% em seus vencimentos — uma decisão polêmica que escancarou o abismo entre o discurso de austeridade e as práticas políticas.
Para os servidores administrativos da educação, que somam mais de 1.800 trabalhadores, o silêncio da prefeitura é interpretado não como descaso pontual, mas como sintoma de um modelo de gestão excludente, que privilegia segmentos mais visíveis e politicamente valorizados — como os professores, com forte representação sindical e apoio popular — em detrimento de categorias menos mobilizadas, mas igualmente essenciais.
Função invisível, responsabilidade estrutural
Historicamente, os cargos administrativos na educação foram tratados como periféricos, embora sejam estruturantes para o funcionamento das escolas. Sem a presença constante desses trabalhadores, o cotidiano escolar simplesmente colapsaria: matrículas, merenda, limpeza, segurança, atendimento às famílias, apoio pedagógico e logístico são funções mediadas ou executadas por esses servidores.
A filósofa Judith Butler, em sua teoria sobre a precariedade social, lembra que “a invisibilidade é uma forma de violência” — e, no caso dos administrativos da educação, essa invisibilidade se traduz em salários que não sustentam, ausência de reconhecimento simbólico e exclusão de políticas públicas relevantes.
Ao manter congelados os salários desses servidores, a gestão Adriane Lopes reafirma um padrão de hierarquização interna da educação: professores são valorizados (ainda que de forma insuficiente, como apontam sindicatos da categoria), enquanto os demais trabalhadores do setor permanecem à margem, tratados como custos a serem contidos, não como sujeitos de direitos.
A política pública como palco e bastidor
A incorporação do piso nacional do magistério e a convocação de novos concursados, embora positivas, não devem ser vistas como políticas públicas plenas, mas como respostas tardias a pressões legais e institucionais. O último concurso previa 323 vagas; no entanto, mais de 1.083 professores foram convocados desde então, sinalizando uma demanda reprimida e uma instabilidade estrutural nas contratações da rede.
Segundo a Prefeitura, com os novos convocados, mais de 70% dos professores da Reme passam a ser efetivos. Esse número é relevante, mas apenas parte da equação. A ausência de uma política salarial abrangente e equitativa deslegitima os avanços parciais, pois compromete a coesão da comunidade escolar e ignora os princípios constitucionais da valorização do servidor público e da isonomia no tratamento das categorias.
O recado da paralisação
A paralisação marcada para 15 de maio, com concentração dos servidores em frente ao Paço Municipal, é mais do que um protesto pontual: é uma denúncia coletiva contra a lógica da invisibilidade institucionalizada. Os administrativos da educação exigem reconhecimento, reajuste digno e participação nos rumos da política educacional.
Em um país em que a educação é celebrada nos discursos mas negligenciada em seus fundamentos, os trabalhadores que garantem sua execução cotidiana levantam a voz. E o fazem diante de uma administração que, até aqui, prefere a vitrine da propaganda à escuta da realidade.
Sem os administrativos, a escola não abre os portões
A democracia começa na escola. Mas a escola só abre os portões porque há quem os destranque, organize a chamada, limpe o pátio, atenda a comunidade e garanta a estrutura para que o processo de ensino-aprendizagem aconteça. Sem esses trabalhadores, não há educação pública de qualidade, nem justiça social.
A luta dos administrativos da educação é, portanto, a luta por uma cidade que respeita todos os que a constroem, e não apenas aqueles que aparecem nos folders da gestão.
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