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Campo Grande

Obras inacabadas e falhas na sinalização agravam riscos no trânsito de Campo Grande

Morte de jovem na Gunter Hans expõe omissão do poder público na fiscalização e manutenção da sinalização urbana

Publicado em 01/12/2025 2:48 - Semana On

Divulgação Fotos: Direto das Ruas / Reprodução

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A tragédia que tirou a vida de Ângelo Antônio Alvarenga Peres, de 23 anos, na Avenida Gunter Hans, em Campo Grande, não foi apenas mais um acidente de trânsito. Foi, sobretudo, a consequência previsível — e evitável — de uma obra pública abandonada, sem a devida sinalização, num cenário onde o descaso se tornou regra e não exceção. Quando o concreto se torna armadilha e o poder público se esconde atrás de notas técnicas, é a vida humana que paga o preço mais alto.

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O jovem Ângelo estava no banco do passageiro quando o veículo em que seguia colidiu violentamente com uma mureta de concreto no meio da avenida, estrutura que integra um projeto de corredor de ônibus iniciado há anos e ainda longe da conclusão. Segundo moradores, a mureta já é conhecida no bairro Aero Rancho como a “mureta da morte”, um símbolo trágico da inércia estatal. “Não é o primeiro acidente que acontece, muitas vidas são ceifadas aqui por essa obra inacabada”, afirmou ao G1 a professora Cilene Silva, moradora da região.

A Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), responsável pelas obras, afirma que a conclusão do projeto está prevista para março de 2026. Enquanto isso, a população convive com pistas irregulares, estruturas não sinalizadas e riscos permanentes. A prefeitura justifica que equipamentos de sinalização — como cones e cavaletes — são furtados com frequência, mas não apresenta medidas concretas de reforço na segurança ou fiscalização eficaz. A mureta, sem qualquer marca visível à noite, permanece ali: um obstáculo letal, invisível até que o impacto revele sua presença da pior forma.

Infraestrutura negligente, vítimas cotidianas

No mesmo fim de semana da morte de Ângelo, outro acidente evidenciou o estado precário da malha viária urbana: no bairro Coronel Antonino, um buraco no cruzamento entre as ruas Dr. Dolor Ferreira de Andrade e do Rosário teria contribuído para a colisão entre um carro e uma motocicleta. O motociclista foi socorrido com ferimentos. Populares apontam que o cruzamento carece de sinalização clara, além da urgência de reparos no asfalto.

Dois acidentes graves em menos de 48 horas, em regiões distintas da cidade, causados por falhas estruturais, não podem ser tratados como fatos isolados. O que se vê é um padrão: vias em obras ou mal conservadas, ausência de sinalização eficiente, fiscalização insuficiente e uma prefeitura que reage mais por pressão popular e repercussão midiática do que por compromisso preventivo com a segurança pública.


O papel do Estado e o direito à cidade

A filósofa e urbanista Raquel Rolnik, ex-relatora da ONU para o Direito à Moradia Adequada, já alertava: O espaço urbano, quando mal planejado e negligenciado, reflete desigualdades e produz violência cotidiana”. Em Campo Grande, a precariedade da infraestrutura viária expõe exatamente isso — uma gestão pública que normaliza o risco em regiões periféricas, onde a população tem menor poder de mobilização política.

A Constituição Federal, em seu artigo 6º, define o transporte como direito social. Já o Código de Trânsito Brasileiro estabelece, no artigo 1º, que o trânsito seguro é um direito de todos e dever dos órgãos e entidades do Sistema Nacional de Trânsito. O não cumprimento desses princípios não é apenas uma falha administrativa: é um atentado à cidadania.

Há, ainda, um aspecto sociopolítico mais profundo. Quando o Estado falha em prover segurança mínima no deslocamento urbano, rompe-se o pacto social que legitima o poder público. Como bem observou o sociólogo Zygmunt Bauman, “o contrato social moderno está baseado na promessa de segurança em troca de obediência às leis”. Quando essa promessa é violada, a confiança nas instituições se esgarça — e é isso que vemos acontecer, de forma silenciosa, a cada acidente evitável, a cada morte em cruzamentos abandonados.

Dados que revelam uma tragédia anunciada

Segundo o Observatório Nacional de Segurança Viária, mais de 30% dos acidentes em áreas urbanas têm como uma das causas a falta de sinalização adequada ou problemas na infraestrutura das vias. Em Campo Grande, a ausência de dados atualizados e transparentes sobre acidentes em zonas de obras revela um segundo nível de negligência: o apagamento estatístico que dificulta diagnósticos precisos e políticas públicas eficientes.

É também notável o silêncio das autoridades quanto à adoção de tecnologias mais eficazes de sinalização — como estruturas refletivas fixas ou temporárias mais resistentes ao furto — ou mesmo à presença contínua de fiscalização. Em cidades como Curitiba e Belo Horizonte, projetos de mobilidade são acompanhados por auditorias urbanas e fiscalização comunitária, o que reduz significativamente o número de acidentes em áreas em obras.

Tragédias evitáveis, responsabilidades intransferíveis

Ângelo Peres morreu num local onde o poder público já havia sido alertado sobre o perigo. Moradores, especialistas e até as câmeras de segurança vinham registrando o problema há meses — ou anos. A mureta continuou lá, muda e letal. E o mais trágico é que ela continuará ali, enquanto promessas de conclusão seguem sendo empurradas para calendários distantes.

O que se cobra, portanto, não é apenas a conclusão de obras ou o reparo de buracos: é responsabilidade institucional. É respeito à vida. É transparência nos prazos e rigor na fiscalização. Cada mureta não sinalizada, cada buraco ignorado, é uma sentença em aberto — que pode se cumprir a qualquer momento.

Enquanto isso, os moradores de Campo Grande seguem perguntando, como a professora Cilene: “Até quando?”

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