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Campo Grande

Repressão a manifestantes em Campo Grande foi “autorizada” pela prefeita?

Agressões contra mães atípicas, professores e idosos ofuscou lançamento do “Natal dos Sonhos”

Publicado em 01/12/2025 10:26 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Uma manifestação pacífica organizada por mães atípicas, motoentregadores e servidores públicos terminou em cenas de repressão e violência policial no sábado (29), no centro da capital sul-mato-grossense. Vídeos divulgados nas redes sociais mostram agentes da Guarda Civil Metropolitana (GCM) campo-grandense agredindo manifestantes, empurrando uma idosa e detendo arbitrariamente dois organizadores do ato.

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O episódio, ocorrido durante o lançamento da programação oficial de Natal da prefeitura, revela o despreparo das forças de segurança do município e levanta sérias questões sobre o comprometimento do poder público com a liberdade de expressão e o direito à manifestação.

O evento natalino, batizado de “Sonhos que viram presente – Natal de Campo Grande”, virou pesadelo para a idosa Maria Cristina Alves Zuza Franco, de 61 anos, que passou mal após ser derrubada por um agente da GCM. Também foi agredida a professora de educação física Elisângela Silva de Souza, de 43 anos, mãe atípica, que caiu ao tentar se desvencilhar de um guarda e sofreu escoriações no braço e hematomas nas costas. “A pior lesão é não poder pegar meu filho, ajudar ele a se virar em casa”, relatou ao g1, consternada.

Em vídeos gravados no local, é possível ouvir gritos de indignação de manifestantes. “Derrubaram uma senhora de idade! Você acha certo isso? A gente é cidadã e estamos no nosso direito”, protestou uma mulher, enquanto filmava os abusos cometidos pelos guardas.

A atuação da GCM foi comandada diretamente pelo secretário de Segurança de Campo Grande, Anderson Gonzaga, que também esteve no local e ordenou pessoalmente a prisão de Washington Alves Pagane, professor da rede municipal e um dos organizadores do protesto. “Após me identificar como organizador, o secretário subiu o tom e mandou me prender. Me chamaram de ‘peitudo’, confiscaram celulares e agrediram quem tentava filmar”, relatou Pagane.

Repressão, censura e criminalização do protesto

Não se tratou de um caso isolado. Testemunhos indicam que os agentes da Guarda Municipal agiram para impedir gravações, bateram nas mãos de manifestantes e confiscaram celulares, prática que configura tentativa de censura e afronta ao direito constitucional à liberdade de expressão. O artigo 5º da Constituição Federal garante a livre manifestação do pensamento e a vedação de qualquer forma de censura ou repressão arbitrária.

A atuação da GCM nesse episódio remonta a práticas autoritárias que marcaram os períodos mais sombrios da história política brasileira, quando a repressão aos protestos era a norma e não a exceção. É preciso lembrar que o uso desproporcional da força contra civis desarmados em atos públicos é um dos primeiros sinais de erosão democrática, como alertam diversos estudiosos.

Segundo a cientista política Wendy Brown, da Universidade da Califórnia, “a democracia começa a morrer não quando tanques ocupam as ruas, mas quando os direitos civis se tornam obstáculos administrativos a serem contornados”. A frase, presente em sua obra Undoing the Demos (Princeton University Press, 2015), ajuda a entender como pequenas autorizações para o arbítrio abrem as portas para formas de governo mais autoritárias.

Crise de gestão e uso político da Guarda

A repressão ocorreu no momento em que o governo de Adriane Lopes enfrenta severas críticas por problemas estruturais e administrativos: buracos nas ruas, colapso no sistema de saúde, falta de médicos e medicamentos, desvio de recursos da saúde, corte de salários dos servidores e congelamento de vencimentos pelo terceiro ano consecutivo. A manifestação, que reuniu cerca de 40 pessoas, foi convocada justamente para protestar contra esse cenário de abandono.

O uso da Guarda Municipal para sufocar protestos contrasta com sua função original: zelar pelo patrimônio público e garantir a segurança comunitária, não reprimir vozes críticas à administração. A centralização da operação sob ordens do secretário Anderson Gonzaga também escancara o uso político da força pública. Mais grave ainda é o fato de que, até o momento, nenhum procedimento administrativo contra os agentes envolvidos foi anunciado, conforme apurado.

A situação evidencia um problema maior: a ausência de controle externo e independência operacional da GCM, tornando-a, na prática, um braço de repressão a serviço do Executivo municipal. Conforme o jurista Silvio Almeida, atual ministro dos Direitos Humanos, “a segurança pública não pode ser instrumento de coerção política. Quando isso ocorre, há desvio de finalidade e violação de direitos fundamentais”.

Campo Grande no espelho do Brasil

O episódio em Campo Grande não é um caso isolado no país. Desde as jornadas de 2013, passando pelo impeachment de Dilma Rousseff, até os protestos contra Jair Bolsonaro, o Brasil convive com a crescente militarização das polícias e a criminalização dos movimentos sociais. A diferença é que agora, em âmbito municipal, essa lógica tem sido internalizada por prefeituras que veem o protesto como ameaça e não como direito.

Mais do que um caso de truculência pontual, os abusos cometidos pela Guarda Municipal sob ordens da gestão Adriane Lopes configuram uma afronta direta ao Estado democrático de direito. Quando o poder público opta pela força bruta diante da crítica popular, revela-se não apenas autoritário, mas também despreparado para lidar com a pluralidade que define uma sociedade democrática.

É papel da imprensa, da sociedade civil e das instituições republicanas cobrar respostas — e não apenas das autoridades locais. O silêncio de Adriane Lopes diante das agressões registradas em vídeo e testemunhadas por dezenas de pessoas não pode ser normalizado.

Reação política e repúdio da sociedade civil

As agressões promovidas pela Guarda Civil Metropolitana de Campo Grande no sábado não passaram despercebidas pelo Legislativo municipal. Vereadores da oposição reagiram duramente, cobrando responsabilização direta da prefeita Adriane Lopes (PP) pelo uso da força contra manifestantes pacíficos — entre eles mães atípicas, professores e idosos.

“Quem deveria proteger, agride covardemente. Se isso é ‘controle’, o que seria abuso?”, questionou o vereador Marquinhos Trad (PDT) ao compartilhar vídeos nas redes sociais que mostram os momentos de violência. Segundo ele, a ação da GCM não teria ocorrido sem o aval direto do Executivo. “A ordem partiu da prefeita”, afirmou.

O tom mais incisivo partiu do vereador Jean Ferreira (PT), que foi categórico: “Fora, Adriane Lopes!”. Para ele, os acontecimentos não podem ser reduzidos a um erro tático da tropa. O que se viu foi uma repressão planejada, dirigida contra uma população já penalizada pelas omissões da atual administração.

A vereadora Luiza Ribeiro (PT) foi além e detalhou a negligência da prefeita diante das críticas que motivaram o protesto. “Mães atípicas, servidores públicos municipais, idosos, pessoas comuns foram às ruas hoje, com faixas e cartazes, para um protesto pacífico contra o caos na gestão da Prefeitura de Campo Grande”, disse.

“O que fez a Prefeita? Dialogou com os manifestantes? Ouviu as reclamações? Tratou de dar esperança e indicar soluções para os problemas? NÃO!”, prosseguiu. Segundo ela, Adriane Lopes autorizou a Guarda Municipal a agredir os manifestantes, inclusive uma das mães que gravava com o celular as cenas de abuso. “Inaceitável!”, concluiu.

Nota de repúdio: “Luta por dignidade não pode ser silenciada”

A Comissão de Mães Atípicas de Mato Grosso do Sul, uma das organizadoras do protesto, também se manifestou com veemência. Em nota pública divulgada no domingo (30), o grupo repudiou as agressões sofridas e denunciou a tentativa da GCM de impedir que as cenas de violência fossem registradas.

“Durante o ato, mães e apoiadores foram desrespeitados pela Guarda Municipal, que impediu a filmagem de suas ações, contrariando a legislação vigente”, diz o texto. A comissão classificou a agressão contra Elisângela Silva de Souza, mãe atípica de 43 anos, como uma “violação inaceitável aos direitos humanos”.

A nota também expõe o pano de fundo social da mobilização: a precariedade da assistência municipal às crianças com deficiência.

“É inaceitável que, em um momento de luta pelos direitos de nossos filhos — que enfrentam a falta de fraldas, leite, dieta e insumos, além do descumprimento de liminares judiciais — sejamos tratadas com violência e desrespeito”, afirma o documento.

O texto termina com um chamado às instituições: “Exigimos que as autoridades competentes tomem as devidas providências e que os direitos de nossas crianças sejam respeitados. A luta por dignidade e direitos não pode ser silenciada.”

Reincidência, impunidade e crise institucional

Os abusos cometidos pela Guarda Civil Metropolitana de Campo Grande contra manifestantes no último sábado não são um episódio isolado. Ao contrário, integram uma triste sequência de ocorrências envolvendo truculência, despreparo e violações de direitos básicos por parte da corporação — sempre sob o comando da atual gestão municipal.

Em outubro, um guarda civil foi flagrado em vídeo agredindo um morador durante uma discussão dentro de um condomínio no Bairro Jardim Parati. Segundo relatos, o episódio teve início após um desentendimento causado por uma batida de carro. Mesmo fora do exercício formal da função, o servidor envolveu-se em atos de violência física, expondo uma cultura institucional que parece tolerar a brutalidade como prática cotidiana.

Mais grave ainda foi o caso registrado em julho, no Bairro Morada Verde, quando dois guardas foram filmados agredindo um homem já amarrado, identificado apenas como “Buguinho”. Nas imagens, é possível ver o homem sendo ofendido, sufocado e arrastado. A denúncia dá conta de que moradores haviam detido o jovem por suspeita de furto, e ao chegarem, os guardas, ao invés de seguir o protocolo legal, optaram por reforçar a violência.

À época, o próprio secretário municipal de Segurança Pública, Anderson Gonzaga, foi às redes sociais para reconhecer a gravidade da situação e prometer apuração. “Infelizmente, aconteceu exatamente o que o vídeo mostra: uma barbaridade. A instituição não compactua com esse tipo de comportamento”, afirmou em entrevista ao site Campo Grande News.

“Por mais que alguém esteja em situação de flagrante, ainda assim merece ser tratado com dignidade e dentro da legalidade. É isso que ensinamos e exigimos dos nossos servidores”, declarou Gonzaga, acrescentando um pedido formal de desculpas à população. No entanto, até hoje nenhum desfecho claro ou responsabilização efetiva foi divulgada — o que contribui para a sensação de impunidade e a banalização da violência institucionalizada.

O que está em jogo: a democracia no plano local

O acúmulo de episódios violentos envolvendo a GCM — agora somado ao uso político da corporação contra manifestantes — expõe uma crise de legitimidade e comando na segurança pública municipal. Não basta que o secretário de Segurança peça desculpas nas redes sociais após cada novo escândalo. É preciso mudar a cultura organizacional da corporação, estabelecer mecanismos de controle externo e garantir a responsabilização efetiva dos agentes que abusam da autoridade.

Mais do que isso, é urgente reafirmar que as guardas municipais não são milícias políticas a serviço de prefeitos ou secretários, mas instituições públicas que devem operar dentro dos marcos da legalidade, com respeito irrestrito aos direitos humanos e à Constituição.

Campo Grande, assim como outras cidades brasileiras, enfrenta um teste decisivo de sua saúde democrática: o de proteger o dissenso, garantir o protesto e respeitar o cidadão — especialmente os mais vulneráveis, como mães atípicas e idosos — quando ousam exigir aquilo que é seu por direito.

Democracia não se mede pela beleza das luzes de Natal em uma avenida central, mas pela forma como o poder público reage à voz crítica que emerge nas ruas.
E, nesse quesito, a gestão Adriane Lopes falhou — não uma, mas repetidas vezes.

Hudson Pereira Bonfim, presidente do DO SINDGM/CG

Nota oficial do Sindicato dos Guardas Municipais de Campo Grande

Tendo em vista as informações veiculadas por alguns veículos de comunicação a respeito dos  acontecimentos registrados no sábado (29.11) na Rua 14 de Julho, durante a solenidade de lançamento da programação do “Natal dos Sonhos” da prefeitura de Campo Grande, em respeito à verdade vimos por meio desta prestar os seguintes esclarecimentos:

Por volta das 19h20, a guarnição GEMOP 01, do Grupo Especializado de Motopatrulhamento da Guarda Civil Metropolitana de Campo Grande, encontrava-se no Ponto Base no cruzamento da Avenida 14 de Julho com a Rua Marechal Cândido Mariano Rondon.

Assim como neste ponto da referida via, a GCM se fazia presente em outros trechos, já que havia nesses locais grande concentração de famílias, incluindo crianças e idosos, que participavam das atrações e apresentações artísticas.

A aglomeração desse número elevado de pessoa reforçou a necessidade de manutenção da ordem pública e da segurança no local.

Em determinado momento, manifestantes que se deslocavam em aglomeração, visivelmente com os ânimos alterados, portando paus, faixas de protesto, apitos e cornetas, aproximaram-se do local, vindo da Avenida 14 de Julho, sentido centro/bairro.

Dois indivíduos se destacaram entre os demais integrantes do grupo e dirigiram-se, juntos, até a referida guarnição, questionando-a de maneira ríspida e grosseira a respeito dos motivos de a mesma estar realizando o policiamento.

O indivíduo trajando camiseta preta e calça jeans, identificado como Washington Alves Pagane, proferiu as seguintes palavras ao comandante da guarnição: “Vocês são pau mandados e vagabundos, estão aqui para nos agredir e defender esta prefeita”.

Na sequência, o segundo indivíduo, identificado como Fagner de Barros Umbelino, proferiu as seguintes palavras: “Vocês são vagabundos mesmo, ganham salários de miséria e estão aí defendendo essa bandida. Vagabundos!”.

É oportuno registrar que ambos falavam em elevado tom de voz, de dedo em riste, demonstrando clara intenção de provocar desordem e desacatar os integrantes da guarnição.

Durante o desentendimento, o indivíduo Washington ainda proferiu ameaças diretas ao GCM Ayala, patrulheiro 1 da guarnição, com as seguintes palavras: “Eu vou te pegar depois, vou atrás de você e te pegar”, comportamento que aumentou o grau de agressividade e hostilidade.

Diante dos fatos, foi dada voz de prisão a Washington, que resistiu, desferindo empurrões e tentando fugir da equipe, sendo necessário o uso diferenciado da força para contê-lo e algemá-lo.

Em seguida, foi dada voz de prisão a Fagner, que igualmente ofereceu resistência à abordagem, colocando a mão no bolso esquerdo de sua calça a todo momento.

Durante a revista pessoal, foi encontrando um canivete em seu bolso esquerdo, objeto imediatamente retirado e recolhido para posterior apresentação na delegacia.

Após a retirada do canivete, Fagner continuou resistindo, sendo também necessário o uso diferenciado da força para sua contenção, com o uso de algemas.

Prestava apoio à Ordem de Serviço a viatura ROMU 05, que atuou na segurança e no controle das pessoas que tentavam se aproximar da abordagem, especialmente em razão do grande fluxo de crianças e famílias presentes no evento natalino.

Posteriormente, chegou em apoio a viatura 79, comandada pelo GCM Emerson, a qual realizou a condução dos detidos, sendo Washington transportado no compartimento traseiro destinado a presos, e Fagner no banco traseiro da viatura.

O uso de algemas em ambos se fez necessário, conforme a legislação vigente, diante da resistência à prisão e do iminente risco de fuga, visando à preservação da segurança dos agentes e dos conduzidos.

Os indivíduos foram apresentados na Delegacia CEPOL/Tiradentes para as medidas cabíveis, sem lesões aparentes e com a integridade física preservada.

Por fim, o SINDICATO DOS GUARDAS MUNICIPAIS vem a público defender os TRABALHADORES DA SEGURANÇA PÚBLICA que à custa de muito empenho próprio vão às ruas defender a população e todos os cidadãos sem acepções políticas, ideológicas, de cor, sexo, gênero, enfim, sem qualquer traço que possa incutir uma visão não profissional da guarda e, PRINCIPALMENTE, DOS GUARDAS, que dão a vida à míngua de parcos sustentos para proteção dos campo-grandenses, tornando odiosa as injúrias e crimes contra a honra de qualquer trabalhador da instituição azul marinho, sendo ele o operador direto ao Secretário de Segurança que orgulha a categoria por ser um Guarda sangue azul marinho frente às fileiras dos profissionais da segurança pública municipal.

Campo Grande-MS., 30 de novembro de 2025.

Hudson Pereira Bonfim

PRESIDENTE DO SINDGM/CG


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