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Campo Grande

Obra inacabada e sinalização falha causam nova colisão na Gunter Hans

Mesmo após tragédia no sábado, pilar de concreto segue sem sinalização e provocando acidentes

Publicado em 02/12/2025 11:57 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Dois dias depois da trágica morte do estudante Ângelo Antônio Alvarenga Peres, de 24 anos, em um acidente de trânsito na Avenida Gunter Hans, uma nova colisão contra o mesmo pilar de concreto, parte de uma obra inacabada e mal sinalizada, confirmou o que moradores da região já denunciam há tempos: a negligência do poder público em garantir um trânsito seguro. A condutora de um Volkswagen Fox perdeu o controle do carro na noite de segunda-feira (1º) e colidiu violentamente com a estrutura. Ela estava sozinha, entrou em estado de choque e foi amparada por populares.

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O acidente não é um evento isolado, tampouco um infortúnio do acaso. Ele se soma a uma série de ocorrências semelhantes, todas marcadas por um traço em comum: a completa ausência de medidas eficazes de sinalização e proteção em obras públicas abandonadas. O pilar em questão integra o projeto de um corredor de ônibus iniciado há anos, paralisado e sem previsão de conclusão até março de 2026, conforme informado pela Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep). Até lá, moradores convivem com uma estrutura que já ganhou nome: “a mureta da morte”.

A brutalidade do acidente que matou Ângelo — cujo carro derrapou e colidiu com a mureta — poderia ter sido evitada. O estudante de Publicidade e Propaganda estava no banco do passageiro e morreu antes da chegada do socorro. Seu nome agora figura entre as vítimas de um padrão que se repete com frequência alarmante nas periferias urbanas brasileiras: o da negligência pública transformada em tragédia cotidiana.

Quando o concreto se transforma em sentença

A persistência da mureta no canteiro central da avenida, sem qualquer alerta noturno visível, é mais que um descuido: é um sintoma. Um sintoma de um modelo de gestão urbana que privilegia o improviso e a reação, em vez do planejamento e da prevenção. Como apontou a urbanista Raquel Rolnik, ex-relatora da ONU para o Direito à Moradia Adequada, “o espaço urbano, quando mal planejado e negligenciado, reflete desigualdades e produz violência cotidiana”.

O poder público, que deveria garantir o direito à mobilidade urbana segura — previsto no artigo 6º da Constituição Federal e no artigo 1º do Código de Trânsito Brasileiro — falha duplamente: omite-se da sua responsabilidade e silencia diante do luto de suas vítimas.

Dados que apontam o previsível

Segundo o Observatório Nacional de Segurança Viária, 30% dos acidentes em áreas urbanas estão diretamente ligados à falta de sinalização ou a problemas na infraestrutura viária. Em Campo Grande, a ausência de dados públicos detalhados sobre acidentes em áreas com obras abandonadas é outro indicativo de negligência: sem estatísticas, não há diagnóstico; sem diagnóstico, não há política pública eficaz.

Mais grave ainda é a falta de ação diante de problemas notórios. Moradores relatam que os riscos no local da mureta são antigos e frequentes. A professora Cilene Silva, moradora da região, declarou ao G1: “Não é o primeiro acidente que acontece, muitas vidas são ceifadas aqui por essa obra inacabada.” O relato resume o sentimento de impotência de uma comunidade que vê o descaso virar rotina.

A falência do pacto social

O sociólogo Zygmunt Bauman advertia que o contrato social moderno se sustenta sobre a promessa de segurança em troca da obediência às leis. Quando o Estado deixa de oferecer essa segurança básica — inclusive no ato cotidiano de deslocar-se pela cidade —, ele rompe com o princípio que legitima sua autoridade. E o que se vê nas ruas de Campo Grande é justamente isso: a erosão progressiva da confiança na capacidade das instituições públicas de proteger seus cidadãos.

A prefeitura alega que equipamentos de sinalização são frequentemente furtados, mas não apresenta alternativas duradouras, como o uso de estruturas refletivas fixas, iluminação especial, ou presença constante de fiscalização — medidas já implementadas com sucesso em cidades como Curitiba e Belo Horizonte. A desculpa, neste contexto, não é apenas ineficaz: é desumana.

Obras inacabadas e falhas na sinalização agravam riscos no trânsito de Campo Grande


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