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Campo Grande

Motoristas acusam Consórcio Guaicurus de simular greves para obter repasses públicos

Denúncias apontam envolvimento do sindicato e omissão do poder público

Publicado em 24/10/2025 9:37 - Semana On

Divulgação PMCG

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Motoristas e ex-funcionários do Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo em Campo Grande, acusam a empresa de organizar greves simuladas como estratégia para forçar a liberação de recursos públicos. Segundo os relatos, as paralisações não são decididas em assembleia da categoria, mas impostas de surpresa, com objetivo de causar impacto midiático e justificar repasses emergenciais, como o de R$ 1,6 milhão feito pela Prefeitura após uma paralisação repentina.

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As denúncias ganharam força após reportagem publicada pelo portal Midiamax, que ouviu trabalhadores que descrevem uma prática recorrente dentro do consórcio: motoristas são informados apenas ao chegar nas garagens que os ônibus não devem sair. A ordem, segundo eles, vem acompanhada de orientações para aguardar “novas instruções”. Trata-se, de acordo com os denunciantes, de uma “extorsão velada”, que envolve a empresa, o Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo Urbano de Campo Grande (STTCU) e, supostamente, membros do poder público municipal.

Sindicato sob suspeita

O sindicato da categoria nega a acusação de “peleguismo” e alega que só age após pressão dos motoristas, com realização de assembleias. No entanto, trabalhadores ouvidos pela reportagem afirmam que são desencorajados — e até ameaçados — a propor paralisações reais, e que qualquer tentativa de mudança na diretoria sindical é sistematicamente bloqueada. “Eles barram tudo. Não temos voz. É como se o sindicato trabalhasse para a empresa, não para a gente”, disse um ex-funcionário sob condição de anonimato.

As críticas também recaem sobre as condições de trabalho no consórcio. Os denunciantes relatam ônibus sucateados, falta de apoio em caso de acidentes, episódios de racismo, salários baixos — cerca de R$ 2.800 mensais — e um vale-alimentação de apenas R$ 300. “É um sistema onde quem questiona, sofre perseguição”, afirmou outro ex-funcionário.

Falta de motoristas e colapso do serviço

A situação se agravou durante a pandemia de COVID-19, quando o estresse da categoria e as demissões em massa levaram muitos motoristas a deixar seus postos. Com isso, o serviço foi reduzido: linhas foram suprimidas sem aviso prévio, ônibus demoravam a passar e o número de profissionais nas ruas tornou-se insuficiente para atender à demanda da população.

Apesar disso, o Consórcio Guaicurus continuou a receber aportes financeiros. Além dos subsídios já previstos em contrato, paralisações repentinamente organizadas pela empresa — sob pretexto de falta de recursos — se tornaram argumento para novos repasses. O caso mais recente, de R$ 1,6 milhão, ocorreu logo após uma dessas greves-relâmpago.

Reação política e pressão por investigação

A denúncia chegou à Câmara Municipal de Campo Grande. O presidente da Casa, vereador Epaminondas Silva Neto, o Papy (PSDB), afirmou ontem (23) que é urgente a abertura de uma investigação formal. “Não é possível aceitar que paralisações sejam usadas como instrumento político ou de chantagem institucional. É preciso transparência”, declarou. A fala repercutiu entre outros parlamentares, que também exigiram esclarecimentos sobre a real situação financeira do consórcio e a natureza dos repasses públicos.

Em resposta, a prefeita Adriane Lopes (PP) afirmou que os pagamentos devidos à empresa estão em dia e classificou as paralisações como manobras políticas. Segundo ela, “a gestão não compactua com qualquer tipo de simulação e está aberta a colaborar com eventuais investigações”.

Histórico de conflitos e promessas não cumpridas

O transporte público de Campo Grande é alvo de críticas há anos. Desde a formação do Consórcio Guaicurus, em 2012, composto pelas quatro empresas que operam o sistema, o modelo tem sido contestado por especialistas e usuários. Um relatório da Agência Municipal de Transporte e Trânsito (Agetran) já indicava, em 2019, que a frota estava defasada e que os índices de satisfação da população eram os mais baixos em uma década.

Além disso, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul já abriu inquéritos anteriores sobre a atuação do consórcio, principalmente relacionados à qualidade do serviço e uso de recursos públicos. Até o momento, nenhum resultado efetivo foi apresentado à população.

Contexto nacional e alerta de especialistas

A simulação de greves como mecanismo de pressão por subsídios não é um fenômeno exclusivo de Campo Grande. Em outras cidades brasileiras, já houve denúncias similares. Em São Paulo, por exemplo, uma investigação do Ministério Público Estadual em 2021 apurou ações coordenadas entre sindicatos e empresas para criar cenários de colapso no transporte com fins políticos e econômicos.

O professor Alexandre de Freitas Barbosa, da Faculdade de Economia da USP, aponta que “o setor de transporte coletivo no Brasil vive um paradoxo: é essencial, mas tratado como problema”. Em entrevista à Carta Capital, Barbosa destacou que “a falta de regulação efetiva e a captura de sindicatos por interesses patronais tornam o sistema vulnerável a abusos”.

Diante das novas denúncias em Campo Grande, especialistas ouvidos pelo Midiamax reforçam a necessidade de repensar o modelo de concessão do transporte público, com maior participação social, transparência nos contratos e mecanismos de controle que impeçam o uso político de um serviço essencial.

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