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Campo Grande

Mortes de crianças, superlotação e atendimento precário aprofundam crise da saúde em Campo Grande

Após sucessivas falhas na rede pública, gestão de Adriane Lopes anuncia grupo de trabalho enquanto famílias denunciam negligência e caos

Publicado em 12/05/2026 9:14 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A Prefeitura de Campo Grande anunciou a criação de um grupo de trabalho para reavaliar a Rede de Assistência à Saúde (RAS) do município em meio ao agravamento da crise enfrentada pela saúde pública da Capital. A medida foi oficializada pela Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) após uma sequência de denúncias sobre demora no atendimento, falta de profissionais, superlotação nas unidades e, principalmente, a morte de duas crianças que passaram repetidas vezes por unidades de saúde sem receber atendimento capaz de evitar o desfecho fatal.

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A resolução publicada no Diogrande estabelece prazo de 90 dias para que o grupo apresente um relatório com diagnóstico da rede municipal e propostas de reorganização do sistema. A administração municipal afirma que a iniciativa integra um processo permanente de monitoramento e planejamento da saúde pública, negando relação direta entre a criação do grupo e os casos recentes que provocaram forte comoção social.

Na prática, porém, o anúncio ocorre sob intensa pressão pública diante do colapso operacional observado em unidades de urgência e emergência da Capital. Usuários relatam espera de horas nas UPAs Leblon, Universitária e Moreninhas, além de falta de médicos na UPA Coronel Antonino. Em alguns casos, pacientes afirmam ter aguardado mais de quatro horas mesmo classificados como prioritários.

A crise ganhou contornos dramáticos após as mortes de João Guilherme Jorge Pires, de 9 anos, e Hannah Julia, de 8 anos, ocorridas com menos de um mês de diferença. Os dois casos expuseram falhas sucessivas de atendimento e levantaram questionamentos sobre a capacidade de resposta da rede municipal diante de situações graves.

João Guilherme morreu em 7 de abril depois de passar por diferentes unidades de saúde ao longo de vários dias. Segundo relatos da família, o menino procurou atendimento após machucar o joelho em uma queda, mas recebeu sucessivas liberações mesmo apresentando dores intensas e agravamento progressivo do quadro clínico. O percurso incluiu atendimentos nas UPAs Tiradentes e Universitário, além da Santa Casa. O caso é investigado pela Polícia Civil após registro de boletim de ocorrência por homicídio culposo.

Poucas semanas depois, em 29 de abril, a morte de Hannah Julia ampliou a pressão sobre a gestão municipal. A criança passou quatro vezes por unidades de saúde de Campo Grande, incluindo três atendimentos na UPA Leblon, antes de morrer. A família acusa falhas graves na assistência prestada.

Os primeiros sintomas surgiram em 24 de abril, quando Hannah foi levada ao Centro Regional de Saúde com febre alta e problemas respiratórios. O quadro foi tratado inicialmente como uma infecção viral. Com piora progressiva, a menina voltou a procurar atendimento no dia 27. Segundo a mãe, exames apontaram glicemia de 151 mg/dL, mas o resultado teria sido tratado como normal pela equipe médica.

Nos atendimentos seguintes, Hannah recebeu dipirona e soro fisiológico antes de ser novamente liberada para casa. Mesmo com vômitos constantes, inchaço ao redor dos olhos e agravamento evidente dos sintomas, os pais foram orientados a retornar apenas em caso de nova piora. No dia 28, a criança esteve duas vezes na UPA Leblon. Na última ida, já apresentava palidez, dores intensas pelo corpo, calafrios, dificuldade para andar e dores na nuca. O estado clínico era grave. Ainda assim, exames complementares não haviam sido concluídos quando a mãe pediu prioridade na medicação devido à condição da filha. O atestado de óbito apontou parada cardiorrespiratória com choque por causa ainda não esclarecida.

As mortes evidenciaram problemas estruturais que há anos se acumulam na saúde pública de Campo Grande e colocaram a gestão da prefeita Adriane Lopes no centro das críticas. Embora a administração sustente que a criação do grupo técnico faz parte da rotina administrativa da Sesau, o timing do anúncio reforçou a percepção de reação tardia diante de um sistema já pressionado pela superlotação e pela deficiência no fluxo de atendimento.

A RAS, cuja reestruturação será estudada pelo grupo criado pela prefeitura, é justamente o mecanismo responsável por integrar postos de saúde, UPAs, hospitais, exames e serviços especializados dentro do SUS. Em tese, o modelo deveria evitar fragmentação no atendimento e garantir continuidade assistencial aos pacientes. Na prática, entretanto, os episódios recentes indicam falhas graves de comunicação, triagem, encaminhamento e monitoramento clínico dentro da rede municipal.

O cenário de instabilidade se amplia quando observado o quadro da Santa Casa de Campo Grande, principal hospital de referência do Estado e peça central do sistema público de saúde sul-mato-grossense. Embora o conflito envolvendo o hospital tenha natureza contratual e financeira, o embate ajuda a dimensionar o desgaste estrutural da saúde pública na Capital.

A disputa judicial entre a Santa Casa e o Governo de Mato Grosso do Sul se intensificou após o Estado cobrar a devolução de R$ 39 milhões repassados à instituição e acusar o hospital de descumprir acordos firmados anteriormente. A direção da Santa Casa rebateu as acusações, afirmou que parte dos recursos não integra o acordo questionado e responsabilizou o poder público por alterar unilateralmente os termos da negociação.

O hospital trava uma batalha judicial para ampliar os repasses mensais de R$ 32,7 milhões para cerca de R$ 48 milhões, alegando defasagem financeira, aumento dos custos hospitalares e ausência de reajustes compatíveis com a inflação e a demanda crescente por atendimentos de alta complexidade.

A crise financeira da Santa Casa não é recente. Segundo a própria instituição, o desequilíbrio se agravou após a intervenção conduzida pelo Estado e pela Prefeitura entre 2007 e 2013. Desde então, o hospital acumula dificuldades operacionais, atrasos salariais e dependência frequente de aportes emergenciais do poder público.

No fim de 2025, Estado e município precisaram firmar acordo emergencial de aproximadamente R$ 60 milhões para evitar colapso imediato da unidade. Ainda assim, o impasse segue sem solução definitiva, alimentando incertezas sobre a capacidade de manutenção dos serviços hospitalares oferecidos à população.

A sucessão de crises expõe uma rede pública sob forte desgaste administrativo e financeiro, marcada por respostas emergenciais, judicializações constantes e dificuldade de coordenação entre município, Estado e hospitais conveniados. Enquanto o discurso oficial fala em “fortalecimento da eficiência” e “melhoria contínua”, usuários seguem enfrentando demora, falta de estrutura e insegurança quanto à capacidade do sistema em oferecer atendimento adequado.

Mais do que episódios isolados, as mortes de João Guilherme e Hannah Julia passaram a simbolizar o esgotamento de um modelo de gestão que, apesar das promessas de reorganização, ainda não conseguiu impedir que falhas sucessivas no atendimento atingissem justamente os pacientes mais vulneráveis: crianças dependentes exclusivamente do SUS.

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Disputa sobre repasses expõe colapso na saúde pública em Campo Grande


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