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Campo Grande
Interrupção de 1h30 foi causada por atraso no vale dos motoristas: nova paralisação total está marcada para segunda
Publicado em 22/10/2025 10:30 - Semana On
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Campo Grande amanheceu sem ônibus nesta quarta-feira (22). A paralisação de motoristas, iniciada às 5h e encerrada às 6h30, afetou milhares de passageiros e expôs, mais uma vez, a deterioração da relação entre a Prefeitura e o Consórcio Guaicurus, responsável pelo transporte coletivo da capital sul-mato-grossense. A suspensão foi motivada pelo não pagamento do adiantamento salarial dos trabalhadores — o vale —, previsto para segunda-feira (20). O Sindicato da categoria já convocou nova paralisação, desta vez por tempo indeterminado, marcada para a próxima segunda-feira (27).
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O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo Urbano (STTCU), Demétrio Freitas, foi direto: “O Consórcio disse que não tem dinheiro para pagar o vale porque a Prefeitura está deixando de repassar os valores. Não há previsão de pagamento”. A manifestação desta quarta teve caráter de protesto, mas deixou evidente que o impasse entre concessionária e poder público chegou ao limite — e quem paga a conta, mais uma vez, é a população.
Crise anunciada
A paralisação não foi um episódio isolado. Desde agosto, o Consórcio Guaicurus vem pressionando judicialmente o Município pelo reajuste da chamada tarifa técnica — valor repassado pela Prefeitura para cobrir a diferença entre o preço real do serviço e o valor pago pelo usuário, hoje em R$ 4,95. Em decisão judicial de agosto, o valor foi fixado em R$ 7,79, mas a gestão municipal contesta o reajuste, afirmando que já cumpriu os índices contratuais de correção.
Enquanto o imbróglio segue nos tribunais, a concessionária alega desequilíbrio estrutural e “esgotamento das linhas de crédito”. Em nota oficial, divulgada após a paralisação, o Consórcio afirmou enfrentar “severas restrições financeiras, com insuficiência de recursos para cumprir integralmente obrigações salariais, fiscais e contratuais”. A empresa cita ainda uma dívida de R$ 9,08 milhões que estaria em negociação com o Município.
A Prefeitura, por sua vez, nega qualquer inadimplência. Em manifestação recente à Justiça, sustenta que não há pendências com o Consórcio e que o reajuste aplicado no início de 2025 (3,51%) foi suficiente para atender ao que estava estipulado no contrato. A Procuradoria Jurídica do Município também contestou, em setembro, o pedido de reajuste para R$ 7,79, alegando que ele extrapola o que foi determinado judicialmente.
CPI, decadência da frota e risco à concessão
Em paralelo às disputas judiciais, a Câmara Municipal concluiu, no mês passado, a CPI do Transporte Coletivo. O relatório final é contundente: aponta uma série de descumprimentos contratuais por parte do Consórcio, incluindo o não cumprimento do limite de idade média da frota (que deveria ser de 5 anos, mas está em 8,5 anos), depreciação acumulada de R$ 94 milhões e sucessivas falhas operacionais. Também aponta omissões graves do Município na fiscalização do contrato, configurando um “ciclo vicioso de conivência e negligência”.
O documento recomenda o indiciamento de dirigentes do Consórcio, além de ex-gestores da Agereg (Agência de Regulação dos Serviços Públicos Delegados) e da Agetran (Agência Municipal de Transporte e Trânsito), por improbidade administrativa, peculato e omissão. Sugere ainda medidas como a realização de concursos para reforçar a fiscalização, sabatina prévia para escolha de diretores e, em último caso, intervenção no contrato.
Mesmo diante das conclusões da CPI, a Câmara ainda discute se deve manter a isenção de ISS (Imposto Sobre Serviços) concedida ao Consórcio desde 2013. Para o presidente da Casa, Epaminondas Neto (PSDB), o tema é “indigesto”. Já o relator da CPI, vereador Lívio Leite (União Brasil), defende a manutenção do benefício para evitar aumento no valor da passagem. Segundo ele, “o impacto seria direto sobre os 2,2 milhões de passageiros pagantes que utilizam o sistema por mês”.
Prejuízo à população e escalada do conflito
A paralisação da manhã desta quarta teve efeito imediato nas ruas: passageiros lotaram pontos de ônibus sem informação, corridas por aplicativo dispararam de preço, e trabalhadores enfrentaram atrasos para chegar ao serviço. A cena foi semelhante à de outras cidades que vivem colapsos no transporte urbano — reflexo, muitas vezes, de concessões mal geridas e fiscalizações ineficientes.
O episódio em Campo Grande não é apenas uma crise de pagamento. É uma crise de modelo. A insistência em manter um contrato de R$ 3,4 bilhões com um consórcio que já foi condenado judicialmente por irregularidades, enquanto se ignora a necessidade de licitação e revisão estrutural do serviço, revela um descompasso entre gestão pública, interesse coletivo e responsabilidade fiscal.
Para o urbanista e pesquisador do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), Rodrigo Dias, “sistemas de transporte dependem de contratos equilibrados, fiscalização rigorosa e transparência. Quando isso falha, a população é penalizada com serviços precários e tarifas injustas”.
O que esperar da próxima semana
A assembleia convocada pelo STTCU para a próxima segunda-feira (27) deverá decidir pela paralisação total dos serviços. Caso ocorra, Campo Grande poderá enfrentar um colapso no transporte público em plena semana útil, intensificando ainda mais a tensão entre trabalhadores, empresários e poder público.
Enquanto a Prefeitura apura “as causas da interrupção” e o Consórcio afirma não ter recursos para operar dentro dos parâmetros contratuais, o transporte coletivo da capital sul-mato-grossense parece andar em ponto morto — sem plano de contingência, sem mediação efetiva e com uma crise que se arrasta há anos.
Se nada mudar até segunda-feira, o que se viu nesta quarta-feira pode ser apenas o prólogo de uma paralisação com consequências ainda mais profundas.
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