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Ex-coordenador do CER montou empresas de fachada para desvio milionário e tentou fugir para a Itália com aval do MPE
Publicado em 12/03/2025 2:04 - Semana On
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A filantropia, frequentemente associada à solidariedade e à assistência aos mais vulneráveis, foi utilizada como cortina de fumaça para um dos esquemas de corrupção mais escandalosos de Mato Grosso do Sul. No centro da trama está Paulo Henrique Muleta Andrade, ex-coordenador do Centro Especializado de Reabilitação (CER) – vinculado a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Ele é investigado por desviar mais de R$ 8 milhões de recursos destinados ao tratamento de pacientes ostomizados. O dinheiro, que deveria custear insumos essenciais para pessoas com deficiência, foi parar em contas pessoais e de empresas de fachada criadas pelo próprio Muleta e seu contador, João Antônio de Freitas Silva.
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O caso, que já vinha sendo apurado desde 2021, ganhou novos contornos ao revelar que o Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) deu aval para que o acusado deixasse o país e alterasse seu nome para obter cidadania italiana. A revelação choca não apenas pela gravidade dos crimes, mas pela permissividade institucional que, em algum momento, facilitou sua tentativa de fuga.
O esquema operado por Muleta e seu comparsa baseava-se em um ciclo de desvio de dinheiro público por meio da criação de empresas de fachada. Quatro empresas foram abertas entre 2021 e 2023:
– Lillo Produtos Hospitalares
– Mimedical Comércio e Distribuidora de Produtos Hospitalares
– Estomacare Produtos Hospitalares
– JA Comércio de Produtos Hospitalares
A operação funcionava de forma engenhosa. Os criminosos compravam produtos hospitalares de fornecedores reais, mas ao invés de repassá-los diretamente à APAE, emitiam notas fiscais falsas entre suas próprias empresas, simulando vendas sucessivas. Esse processo não apenas ocultava a origem ilícita do dinheiro, mas também permitia a superfaturação dos produtos adquiridos. O resultado? Milhões de reais pagos pela APAE a essas empresas fraudulentas acabaram sendo direcionados diretamente para as contas pessoais de Muleta e seus associados.
O grau de planejamento da fraude fica evidente em uma mensagem enviada por Muleta ao contador, no início das atividades ilícitas, em 8 de setembro de 2021. Ele pergunta: “Temos CNPJ?” e, em seguida, fala sobre “mexer o doce”, expressão que, segundo o Ministério Público, indicava o início da movimentação fraudulenta dos recursos.
Além disso, investigações revelaram que empresas fantasmas foram registradas em imóveis residenciais e até mesmo em um escritório de contabilidade, sem qualquer atividade comercial legítima. Quando questionado sobre a existência de uma das empresas no nome dele, Muleta alegou “erro” do contador.
A tentativa de fuga e a complacência institucional
Diante do aprofundamento das investigações e da iminente possibilidade de condenação, Muleta tentou se esquivar da Justiça de diversas formas. Uma das estratégias foi solicitar um empréstimo milionário para deixar o país, conforme indicado em mensagens interceptadas pela investigação.
Os investigadores descobriram ainda que, mesmo sabendo que sua situação jurídica era delicada, o Ministério Público Estadual, em abril de 2024, deu parecer favorável à sua mudança para a Itália. O pedido foi assinado pela promotora Paula da Silva Volpe, sem qualquer ressalva, o que causou indignação entre os órgãos que conduzem a investigação.
A decisão judicial autorizando a mudança de sobrenome para “Moletta” – versão original italiana do nome da família – foi proferida em agosto de 2024. O argumento utilizado pela defesa era o direito legítimo à cidadania italiana. Contudo, as investigações indicam que a verdadeira intenção era obstruir a Justiça e evitar uma eventual prisão.
Enquanto o MPMS aprovava a solicitação, a 2ª Vara Criminal, sob o comando do juiz Robson Celeste Candeloro, adotou postura oposta e negou um pedido de viagem à Espanha, alegando que o réu tinha clara intenção de fuga. Em uma conversa interceptada, Muleta revelou a intenção de “pegar um empréstimo milionário e fugir do Brasil”.
Preso pela segunda vez – mas os milhões ainda estão em jogo
A Operação Occulto, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), culminou na segunda prisão de Paulo Muleta, após descobertas de movimentações financeiras suspeitas. O ex-coordenador da APAE retirou R$ 412 mil de suas contas antes que a Justiça pudesse bloquear os valores, transferindo a quantia para terceiros.
A Caixa Econômica Federal relatou falhas no sistema que impediram o bloqueio completo dos valores, mas os recursos seguem aplicados em nome de terceiros. Segundo o MPMS, essa movimentação comprova a tentativa de ocultar o patrimônio obtido ilicitamente e reforça os indícios de obstrução à Justiça.
A prisão preventiva foi decretada porque as medidas cautelares já impostas, como o uso de tornozeleira eletrônica, não se mostraram eficazes. A justificativa do juiz Candeloro foi clara: Muleta continuava a adotar medidas para driblar as investigações, tentando esconder dinheiro e fugir do país.
O impacto do caso: corrupção, vulneráveis e a credibilidade da Justiça
Este escândalo toca em diversas feridas do sistema público brasileiro. Primeiramente, a fragilidade dos mecanismos de controle de recursos destinados a instituições filantrópicas. Em segundo lugar, a falta de rigor na avaliação de decisões do Ministério Público, que, mesmo diante de um investigado por corrupção, facilitou sua saída do país.
A sociedade brasileira já assistiu a inúmeros casos de corrupção, mas poucos são tão revoltantes quanto este: milhões de reais que deveriam auxiliar pessoas com deficiência foram desviados para enriquecer criminosos. O filósofo John Rawls, em sua teoria da justiça, afirma que uma sociedade só pode ser considerada justa quando protege os mais vulneráveis. O que aconteceu na APAE de Mato Grosso do Sul é exatamente o oposto disso.
O caso levanta também um questionamento crucial: quantos outros esquemas semelhantes continuam operando impunemente no Brasil? Como bem pontua o sociólogo Jessé Souza em seu livro A Elite do Atraso, a corrupção estrutural no Brasil não se resume a indivíduos gananciosos, mas a um sistema que permite e, muitas vezes, incentiva tais práticas.
Diante da pressão social e da gravidade dos fatos, espera-se que as investigações levem a uma responsabilização efetiva. O ex-coordenador da APAE e seus cúmplices não apenas traíram a confiança da sociedade, mas comprometeram a saúde e a qualidade de vida de pessoas vulneráveis.
O desfecho deste caso será um teste para o sistema de Justiça brasileiro: a impunidade prevalecerá ou, finalmente, veremos uma punição proporcional ao tamanho do crime cometido?
Nota da APAE: A instituição reiterou que foi vítima do esquema e que colabora com as investigações. Em nota oficial, ressaltou que mantém “compromisso com a ética, transparência e a prestação de serviços às pessoas com deficiência”.
A sociedade, no entanto, seguirá vigilante, esperando que, desta vez, a Justiça não seja apenas uma formalidade, mas uma realidade concreta.
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