Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Campo Grande
Gastos dispararam, mas deterioração das vias avançou durante gestão Adriane
Publicado em 14/05/2026 9:42 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
A Justiça manteve, ontem (13), a prisão preventiva de sete investigados na Operação “Buraco Sem Fim”, conduzida pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que apura um suposto esquema de fraude em contratos de tapa-buracos em Campo Grande. Segundo a investigação, servidores públicos e empresários teriam atuado de forma coordenada para manipular medições de obras e garantir pagamentos da prefeitura por serviços não executados ou superfaturados.
SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAM, FACEBOOK, TIKTOK, X E WHATSAPP
O esquema teria provocado prejuízos milionários aos cofres públicos. Parte do dano já identificado pela perícia pode chegar a R$ 5 milhões, embora investigadores afirmem que o valor total desviado ainda esteja sendo calculado e possa ser significativamente superior.
As apurações se concentram em contratos firmados entre a Prefeitura de Campo Grande e a Construtora Rial. Dados do Portal da Transparência apontam que a empresa mantém oito contratos ativos com o município, somando quase R$ 148 milhões. O período investigado compreende contratos e aditivos celebrados entre 2018 e 2025.
De acordo com os promotores, o núcleo político do suposto esquema seria liderado pelo ex-secretário municipal de Obras, Rudi Fiorese. A investigação sustenta que ele mantinha relação direta com empresários ligados à empreiteira e teria recebido vantagens financeiras em troca de favorecimento contratual, especialmente por meio da adulteração de medições técnicas utilizadas para liberar pagamentos públicos.
O MPMS afirma ainda que perícias identificaram movimentações financeiras e ganhos patrimoniais atribuídos a Fiorese sem comprovação formal de origem. Os valores permanecem sob sigilo judicial.
Segundo a investigação, o esquema operava a partir da Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos (Sisep), pasta responsável pela manutenção viária da capital. A prefeitura terceirizava os serviços de tapa-buracos sob o argumento de não possuir estrutura operacional suficiente para executar os trabalhos diretamente.
Os promotores apontam que o coordenador das operações de tapa-buracos da Sisep, Edvaldo Aquino, e o engenheiro Mehdi Talayeh teriam atuado sob orientação de Fiorese para combinar valores com empresários e manipular medições técnicas. Essas medições serviam de base para o cálculo dos pagamentos efetuados pelo município.
Ainda conforme o MPMS, os servidores Fernando de Souza Oliveira e Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula seriam responsáveis por alterar planilhas utilizadas na quantificação dos serviços executados, viabilizando pagamentos acima dos valores reais ou referentes a obras inexistentes.
A investigação também questiona a capacidade operacional da Construtora Rial. Antônio Roberto Bittencourt Teixeira Pedrosa é apontado pelos investigadores como o verdadeiro controlador da empresa, embora o contrato social registre formalmente seu filho, Antônio Bittencourt Jacques Pedrosa, como proprietário. Funcionários ouvidos pelo Ministério Público relataram estrutura considerada precária e baixa qualidade nos serviços executados pela empreiteira.
Durante o cumprimento dos mandados de prisão e de busca e apreensão, o MPMS informou ter encontrado R$ 500 mil em espécie. Também foram recolhidos celulares, documentos e equipamentos eletrônicos em residências de investigados e em setores da prefeitura ligados à manutenção das vias urbanas.
As prisões preventivas, segundo os investigadores, foram solicitadas porque haveria indícios de que o esquema continuava em funcionamento até a deflagração da operação.
A repercussão política da operação levou à exoneração de Rudi Fiorese do cargo de diretor-presidente da Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul). A dispensa foi determinada pelo governador Eduardo Riedel no mesmo dia da operação. Outros investigados que ocupavam funções na Prefeitura de Campo Grande também foram afastados.
As defesas dos acusados contestam as acusações. Os advogados de Fernando de Souza Oliveira e Erik Antônio Valadão Ferreira de Paula negaram envolvimento dos servidores no suposto esquema. Já a defesa de Rudi Fiorese classificou a prisão preventiva como “desarrazoada” e incompatível com a trajetória funcional do ex-diretor da Agesul. Os advogados afirmam ainda que, mais de 24 horas após a operação, não tiveram acesso integral aos autos do processo, situação que, segundo eles, compromete o direito à ampla defesa e dificulta o questionamento judicial da prisão. A defesa informou que buscará a revogação da medida pelos meios legais.
Parte dos investigados já havia sido alvo de outra apuração do Ministério Público. Em 2023, a operação “Cascalhos de Areia” investigou um suposto esquema de fraude em licitações e contratos relacionados à manutenção de vias não pavimentadas da capital sul-mato-grossense. Na ocasião, o MPMS apontava a existência de um sistema de rodízio entre empresas vencedoras de licitações, seguido pelo pagamento de propina a servidores da Sisep para superfaturamento contratual.
Rudi Fiorese, Mehdi Talayeh e Edvaldo Aquino também figuraram entre os investigados daquela operação anterior, ampliando o peso político e administrativo das suspeitas levantadas agora pela “Buraco Sem Fim”.
Em nota, a Prefeitura de Campo Grande afirmou que os contratos investigados tiveram origem em 2017, durante gestão anterior, e referem-se à manutenção de vias pavimentadas da cidade. O Ministério Público, porém, sustenta que as irregularidades analisadas abrangem contratos e aditivos celebrados entre 2018 e 2025.
A Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística de Mato Grosso do Sul (Seilog) declarou que o governo estadual não é alvo da investigação e que as suspeitas envolvendo Rudi Fiorese dizem respeito exclusivamente ao período em que ele atuou na administração municipal de Campo Grande. A pasta informou ainda que acompanha o andamento das investigações e destacou que a exoneração do então dirigente da Agesul já foi efetivada.
Deterioração das vias avançou durante gestão Adriane
Apesar da escalada nos investimentos destinados à manutenção viária em Campo Grande nos últimos anos, o agravamento das condições do asfalto transformou a precariedade das ruas em um dos principais problemas urbanos da capital sul-mato-grossense. Levantamento realizado pelo portal O Jacaré, com base em dados do Portal da Transparência, aponta que os gastos da prefeitura com operações de tapa-buracos mais que triplicaram durante a gestão da prefeita Adriane Lopes (PP), sem que houvesse melhora perceptível na conservação das vias públicas.
Os números mostram que a média anual de investimentos saltou de R$ 13,5 milhões, entre 2018 e 2021, para aproximadamente R$ 46,3 milhões a partir de 2022 — crescimento de 242%. Ainda assim, motoristas continuaram enfrentando danos frequentes em pneus, suspensão e sistemas mecânicos, enquanto a deterioração do pavimento passou a integrar de forma permanente o cotidiano da cidade.
O aumento expressivo dos gastos ocorre em meio às investigações da Operação “Buraco Sem Fim”, conduzida pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), que apura suspeitas de fraudes em contratos de manutenção asfáltica. A investigação reforçou suspeitas de que parte dos recursos públicos destinados às obras pode ter sido desviada por meio de medições supostamente manipuladas e pagamentos irregulares.
Entre 2018 e 2025, a prefeitura desembolsou R$ 239,6 milhões para três empreiteiras responsáveis por serviços de tapa-buracos: Construtora Rial, RR Barros e Arnaldo Santiago. Desse total, R$ 185,4 milhões foram pagos entre 2022 e 2024, período correspondente à atual gestão municipal. Nos quatro anos anteriores, entre 2018 e 2021, os contratos somaram R$ 54,1 milhões.
Os dados analisados mostram que a expansão dos pagamentos se intensificou sobretudo após 2022. A Construtora Rial — empresa no centro das investigações do MPMS — concentrou a maior fatia dos recursos, recebendo R$ 108,3 milhões ao longo de sete anos. No mesmo período, a RR Barros acumulou R$ 67,6 milhões em pagamentos, enquanto a Arnaldo Santiago recebeu R$ 68,6 milhões.
Além do impacto financeiro, a precariedade das vias passou a produzir consequências mais graves para a segurança viária. O avanço da buraqueira foi associado a acidentes envolvendo motociclistas, incluindo ao menos duas mortes registradas na capital.
A repercussão política das denúncias ampliou críticas à condução administrativa da infraestrutura urbana. Para a vereadora Luiza Ribeiro (PT), os problemas identificados na manutenção asfáltica refletem um quadro mais amplo de falhas na gestão municipal. Segundo ela, a ausência de resultados proporcionais ao volume de recursos empregados também pode ser observada em áreas como iluminação pública, limpeza urbana e saúde.
O ex-prefeito Marquinhos Trad (PDT), responsável pela administração municipal entre 2017 e 2022, afirmou que, durante seu mandato, buscou alternativas técnicas para enfrentar o desgaste do pavimento. Segundo ele, orientações da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) indicaram a necessidade de ampliar serviços de recapeamento em substituição ao modelo tradicional de tapa-buracos, considerado menos eficiente a longo prazo.
Trad também declarou que, durante a licitação dos contratos, determinou a divisão territorial dos lotes para evitar concentração excessiva de serviços em uma única empresa. Segundo ele, a Construtora Rial teria vencido apenas uma das regiões inicialmente licitadas, ampliando sua participação posteriormente.
O ex-prefeito ressaltou ainda que as investigações atuais não questionam o processo licitatório em si, mas a execução contratual e os pagamentos efetuados pelos serviços. Para ele, o aumento expressivo dos contratos não encontra justificativa proporcional na elevação dos custos de materiais utilizados nas obras.
Na Câmara Municipal, o avanço das investigações também provocou reações públicas de parlamentares da base política da prefeita. O vereador Maicon Nogueira (PP) criticou a ausência de manifestações mais contundentes da administração diante dos indícios de irregularidades revelados pelo Ministério Público. Segundo ele, o combate à corrupção exige não apenas conduta individual íntegra, mas também fiscalização efetiva sobre a atuação de terceiros dentro da estrutura pública.
SE FIZER SENTIDO PRA VOCÊ, APOIE O JORNALISMO DA SEMANA ON
Secretário acusa servidores da Saúde sem provas e Câmara “passa pano”
Deixe um comentário