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Campo Grande
Números rejeitam a ideia de que o petista seja “inimigo do agronegócio”
Publicado em 10/04/2026 10:07 - Semana On
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Em sua primeira manifestação direta ao setor agropecuário em Campo Grande (MS), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) adotou um discurso fortemente alinhado ao agronegócio e em sintonia com a estratégia de sua pré-campanha presidencial. A fala ocorreu durante a Expogrande, uma das principais feiras do setor no país, e foi marcada por críticas contundentes ao governo federal e promessas de retomada de políticas favoráveis aos produtores rurais.
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Logo na chegada ao evento, o parlamentar afirmou que, sob sua eventual gestão, o agronegócio voltaria a viver “tempos áureos”. A declaração se insere em uma narrativa recorrente de oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que, segundo ele, atuaria de forma deliberada para prejudicar o setor. “Só pensa em atrapalhar e perseguir o agro”, afirmou, ao questionar o que classificou como hostilidade do governo à propriedade privada.
O senador também direcionou críticas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), alegando que o grupo seria mantido ativo pelo PT com objetivos políticos e econômicos. A fala foi recebida com aplausos pela plateia presente no evento.
Ainda no início de seu discurso, Flávio Bolsonaro fez referência indireta à ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, que havia gerado desconforto entre lideranças locais ao confundir o nome do estado durante visita recente à região. Ao cumprimentar o público, o senador enfatizou, com tom irônico, o “Mato Grosso do Sul”, em aparente alusão ao episódio.
Propostas para terras indígenas e marco temporal
Um dos pontos centrais da fala foi a defesa de maior autonomia para comunidades indígenas no uso de suas terras. O senador argumentou que decisões sobre exploração territorial não deveriam ficar sob responsabilidade do Judiciário. Caso eleito, prometeu atuar para alterar esse cenário.
Entre as propostas apresentadas, estão a liberação para atividades como agricultura, pecuária, exploração mineral e turismo em territórios indígenas. “Eles vão prosperar com isso”, afirmou. A posição, no entanto, encontra resistência entre ambientalistas, que alertam para riscos de exploração econômica indevida e perda de identidade cultural dessas populações.
Flávio Bolsonaro também reiterou apoio ao chamado marco temporal — tese segundo a qual povos indígenas teriam direito apenas às terras ocupadas ou em disputa na data da promulgação da Constituição de 1988. A proposta já foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Ainda assim, o senador declarou que pretende atuar para impedir novas demarcações.
Crédito rural, dívidas e infraestrutura
No campo econômico, a pré-campanha também sinaliza medidas voltadas ao financiamento do setor. Coordenador político de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL-RN) afirmou que uma eventual gestão da direita garantiria “juros civilizados”, viabilizados por meio de equilíbrio fiscal.
Marinho mencionou ainda a intenção de implementar uma solução estrutural para o endividamento de produtores rurais, tema sensível em diversas regiões do país. Em sua avaliação, há uma diferença ideológica clara entre os campos políticos: enquanto a direita seria parceira do agronegócio, o PT atuaria como adversário.
Outro eixo de propostas envolve investimentos em infraestrutura, com foco na ampliação da capacidade de armazenamento e na melhoria do escoamento da produção. A expectativa é de redução de custos logísticos e aumento da competitividade internacional do agronegócio brasileiro.
Críticas ao cenário econômico e impacto externo
Durante a abertura do evento, a senadora e ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) reforçou o tom crítico ao governo federal. Segundo ela, o atual patamar de juros inviabiliza a atividade rural. “Está impossível, impraticável”, declarou, classificando o período como de “retrocesso”.
A parlamentar também chamou atenção para fatores externos que afetam o setor, como a alta no preço dos fertilizantes — que, segundo ela, já subiu cerca de 50% — e o risco de escassez do insumo. Ela citou movimentos de países como China e Estados Unidos, que estariam formando estoques estratégicos, ampliando a pressão sobre o mercado internacional.
Vestindo uma camisa com o slogan “o agro é top”, Flávio Bolsonaro encerrou sua participação reafirmando compromisso com o setor. Em conversa com jornalistas, declarou que pretende reposicionar o agronegócio brasileiro como referência global e ampliar sua presença no cenário internacional.
Inimigo do agro?
Dizer que “Lula não gosta do agro” é uma simplificação pobre. Mas dizer, no sentido oposto, que o lulismo sempre foi apenas um aliado linear e sem atritos do setor também distorce a realidade. O que existe é uma relação simultaneamente pragmática, interessada e conflitiva: o governo depende do agronegócio para crescer, exportar e gerar saldo externo; parte expressiva do agronegócio, por sua vez, depende de crédito público, equalização de juros, seguro, diplomacia comercial e infraestrutura estatal. Ao mesmo tempo, há choques reais em torno de meio ambiente, regulação, demarcação de terras, reforma agrária e do peso político do bolsonarismo dentro de frações do setor.
O primeiro ponto, portanto, é separar “agro” de “agronegócio bolsonarista”. Nem todo produtor rural, exportador, cooperativa ou segmento da cadeia compartilha a hostilidade ideológica ao PT. A tensão histórica entre Lula e setores do agro tem forte componente político-cultural e foi reforçada pela adesão de parcelas relevantes do empresariado rural ao bolsonarismo. Já em 2022, a própria Reuters registrava que lideranças ligadas a Lula, como Carlos Fávaro, sofriam reação em redutos do agro por dialogarem com o petista, ao mesmo tempo em que ambientalistas criticavam essas alianças por parecerem concessões ao setor. Isso mostra que a relação nunca foi de amor nem de ruptura absoluta, mas de negociação permanente.
Quando se olha para os números do Lula 3, a narrativa de que o governo “persegue” o agronegócio perde força. O Plano Safra para médios e grandes produtores foi de R$ 364,22 bilhões em 2023/2024; subiu para R$ 400,59 bilhões em 2024/2025; e chegou a R$ 516,2 bilhões em 2025/2026. Em 2024/2025, além desses R$ 400,59 bilhões para a agricultura empresarial, o governo apontou mais R$ 108 bilhões complementares em LCA para emissões de CPR, elevando o total mobilizado para R$ 508,59 bilhões. Em outras palavras: o Estado, sob Lula, não se retirou do financiamento do agro; ao contrário, ampliou-o em escala recorde.
Esse dado fica ainda mais forte quando se inclui a agricultura familiar. O Pronaf teve R$ 71,6 bilhões de crédito rural na safra 2023/2024; R$ 76 bilhões em 2024/2025; e R$ 78,2 bilhões em 2025/2026, todos apresentados pelo governo como recordes. Assim, o lulismo não opera com uma lógica de “dar ao pequeno e tirar do grande”; ele amplia as duas frentes, embora tente imprimir prioridades distintas, como produção de alimentos, sustentabilidade e inclusão regional. Isso ajuda a desmontar a versão de que o PT seria estruturalmente antiagro. O governo financia o agronegócio empresarial e, ao mesmo tempo, procura reconstruir políticas para agricultura familiar.
Também não se sustenta a ideia de hostilidade econômica quando se observam desempenho produtivo e comércio exterior. Em 2024, de janeiro a novembro, as exportações do agronegócio somaram US$ 152,63 bilhões e responderam por 48,9% das exportações brasileiras no período. Em 2025, o setor bateu recorde histórico, com US$ 169,2 bilhões exportados e 48,5% de tudo o que o Brasil vendeu ao exterior, além de superávit de US$ 149,07 bilhões. Em 2026, o governo segue divulgando recordes mensais. Um governo que de fato estivesse em guerra econômica com o agro não trataria o setor como uma das principais âncoras do crescimento, da balança comercial e da abertura de mercados.
Mas os apoiadores de Lula também exageram quando resumem tudo a “os governos petistas sempre privilegiaram o setor”. Sim, houve e há forte apoio estatal, e isso é demonstrável. Porém, esse apoio vem acompanhado de condicionantes, disputas orçamentárias e prioridades políticas que nem sempre agradam ao núcleo mais conservador do agronegócio. No Plano Safra 2024/2025, por exemplo, o governo manteve incentivos vinculados a práticas sustentáveis, premiando produtores com CAR analisado e práticas consideradas ambientalmente responsáveis. Em 2025/2026, ampliou exigências ligadas ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático para operações de custeio. Ou seja: o apoio existe, mas não é neutro; ele tenta induzir comportamentos e responder a pressões ambientais e climáticas.
É justamente aí que surge a parte verdadeira da crítica oposicionista. O setor agropecuário tem razão quando afirma que, com juros altos, o crédito fica mais caro e menos previsível. Em 2024/2025, as taxas anunciadas para a agricultura empresarial foram de 8% ao ano para custeio e comercialização no Pronamp, e de 7% a 12% ao ano para investimentos, patamares que entidades do setor consideraram altos. A CNA criticou o plano por trazer juros acima do esperado e volume abaixo do reivindicado. Em fevereiro de 2025, houve ainda a suspensão de novas contratações de crédito rural subvencionado, por decisão do Tesouro, sob a justificativa de ausência de LOA aprovada e elevação do custo da equalização em cenário de juros altos. A CNA chamou atenção para a perda de previsibilidade, e o próprio governo reconheceu oficialmente a suspensão e disse que a normalização dependeria da aprovação orçamentária.
Aqui está um ponto essencial para colocar a discussão em seu devido eixo: a queixa sobre juros altos é parcialmente correta, mas não pode ser jogada inteira no colo de Lula como se fosse uma decisão discricionária do presidente. Desde a Lei Complementar 179, de 2021, o Banco Central tem autonomia, e a Selic é o principal instrumento de política monetária decidido pelo Copom. Em março de 2026, por exemplo, o Copom a reduziu para 14,75% ao ano, após mantê-la em 15%. Como a equalização de juros do crédito rural depende da distância entre a taxa subsidiada ao produtor e o custo de captação/juros da economia, uma Selic elevada encarece o subsídio público. Portanto, a oposição tem razão ao apontar que juros altos machucam o agro; mas erra quando transforma isso, sozinho, em prova de que “Lula odeia o setor”. Por outro lado, o governo também não está livre de responsabilidade, porque lhe cabe planejar orçamento, equalização e previsibilidade operacional.
Há ainda outro detalhe que costuma desaparecer da propaganda. O volume nominal do Plano Safra não significa que todo o dinheiro seja subsídio puro pago pelo Tesouro. No Plano Safra 2023/2024, o governo informou que R$ 186,4 bilhões seriam com taxas controladas, dos quais R$ 101,5 bilhões equalizados, enquanto R$ 177,8 bilhões iriam a taxas livres. Em 2024/2025, dos R$ 400,59 bilhões para a agricultura empresarial, R$ 189,09 bilhões eram com taxas controladas e R$ 211,5 bilhões com taxas livres. Em 2025/2026, o próprio governo informou que R$ 174,6 bilhões, ou 34% do total, eram recursos controlados. Isso quer dizer que a propaganda oficial maximiza o volume total, enquanto o setor produtivo frequentemente insiste, com alguma razão, em distinguir o montante efetivamente mais acessível daquele que depende de condições de mercado.
O mesmo vale para a ideia de “privilégio”. Historicamente, o Estado brasileiro privilegia o agro como setor estratégico há décadas, sob governos de diferentes matizes, porque ele é central para exportações, arrecadação indireta, interiorização econômica e segurança alimentar. Estudos do Ipea e do Banco Central mostram que o crédito rural no Brasil é fortemente moldado por intervenção pública, com direcionamento de recursos, juros regulados, programas de renegociação e subsídios explícitos e implícitos. Em vez de uma exceção lulista, trata-se de uma característica estrutural do capitalismo agrário brasileiro. O que muda de um governo para outro é a forma de distribuir esse apoio, o peso dado à agricultura familiar, os condicionantes ambientais e o discurso político que acompanha a política agrícola.
Por isso, a formulação mais honesta talvez seja esta: Lula não é “antiagro” no plano material da política econômica, mas tampouco é um representante orgânico do bloco político mais duro do agronegócio. Seu governo financia, abre mercados, sustenta planos recordes e usa o setor como motor macroeconômico. Ao mesmo tempo, mantém uma agenda que incomoda parte do agro mais ideologizado: reconstrução de políticas para agricultura familiar, ênfase ambiental, maior presença regulatória do Estado e alguma sensibilidade — ainda que limitada e cheia de contradições — para temas fundiários e sociais.
Em síntese, onde está a verdade?
A oposição acerta ao dizer que há atrito político real entre Lula e parcelas do agronegócio, e que juros altos mais falhas de planejamento orçamentário afetaram o crédito rural em momentos importantes. Isso não é invenção.
Os apoiadores acertam ao dizer que os governos Lula não trataram o agro como inimigo e, ao contrário, canalizaram volumes muito expressivos de crédito, inclusive recordes recentes, além de se beneficiarem e estimularem o peso do setor nas exportações. Isso também é fato.
O erro dos dois lados está no absolutismo. Não é um governo que “odeia o agro”, nem um casamento sem conflitos. É uma relação de conveniência estratégica, atravessada por disputa ideológica, dependência recíproca e choques sobre quem paga a conta do crédito, quais regras ambientais valem e qual projeto de campo deve prevalecer no Brasil.
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