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Campo Grande

Eles não andam de ônibus

Sem receber salários, motoristas entram no 3º dia de greve na capital

Publicado em 17/12/2025 9:46 - Semana On

Divulgação Divulgação

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A greve dos motoristas do transporte coletivo de Campo Grande chegou ao terceiro dia nesta quarta-feira (17) sem qualquer sinal concreto de solução. Sem receber salários, cerca de mil trabalhadores mantêm a paralisação, que afeta diretamente aproximadamente 110 mil usuários. Mais do que um transtorno à população, o movimento escancara um problema estrutural antigo: a incapacidade — ou falta de vontade política — do poder público municipal de enfrentar os graves problemas de gestão do Consórcio Guaicurus.

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É preciso afirmar com clareza: a greve é legítima. O direito de paralisação está previsto na Constituição e se impõe, sobretudo, quando trabalhadores deixam de receber salários. Não há retórica jurídica ou decisão judicial que obrigue alguém a trabalhar sem remuneração. A tentativa de reduzir o debate a percentuais de frota e aplicação de multas ignora o ponto central do conflito: motoristas não podem ser responsabilizados por um colapso financeiro e administrativo que não criaram.

Na audiência de conciliação realizada na Justiça do Trabalho, Prefeitura, Consórcio Guaicurus e sindicato não chegaram a acordo. A Justiça determinou a circulação parcial da frota, sob pena de multa diária de R$ 200 mil ao sindicato. Ainda assim, os motoristas decidiram manter a greve, mesmo após orientação da direção sindical pelo retorno. A decisão reflete o grau de indignação da categoria diante da falta de pagamento e da ausência de garantias concretas.

Segundo a Justiça do Trabalho, o valor devido aos trabalhadores gira em torno de R$ 1,3 milhão. Questionados, representantes do Consórcio e da Prefeitura alegaram não dispor de recursos imediatos. O impasse evidencia um jogo de empurra que se arrasta há anos: o município afirma que os repasses estão em dia; o Consórcio sustenta que acumula prejuízos milionários decorrentes do descumprimento contratual por parte do poder concedente.

O próprio Consórcio Guaicurus atribui a crise ao descumprimento do quarto termo aditivo do contrato, firmado em março de 2022, que estabeleceu a diferença entre a tarifa pública — paga pelo usuário — e a tarifa técnica, que representa o custo real do serviço. Hoje, essa diferença é de R$ 1,62 por passagem. Pela regra contratual, cabe à Prefeitura cobrir esse valor para manter o equilíbrio econômico-financeiro da concessão. Isso nunca foi feito de forma regular.

O resultado é uma dívida que, segundo o Consórcio, já ultrapassa R$ 39 milhões, somando-se ainda valores em aberto relativos ao transporte de estudantes da rede estadual. Documentos divulgados pela própria prefeita Adriane Lopes contradizem o discurso oficial de que “não há dívida alguma” e indicam débitos superiores a R$ 6,7 milhões, montante suficiente para quitar parte das pendências salariais que motivaram a greve.

Apesar da gravidade do quadro, a Prefeitura de Campo Grande e a Câmara Municipal permanecem inertes. A CPI do Transporte, encerrada em setembro, produziu um relatório robusto, com recomendações claras: intervenção no Consórcio, substituição imediata de ônibus sucateados e responsabilização de gestores públicos e privados. Três meses depois, nada foi efetivamente implementado. A CPI terminou, o relatório foi engavetado e a crise seguiu seu curso previsível até explodir na forma de greve.

A abertura de inquérito civil pelo Ministério Público Estadual, somente agora e em meio à paralisação, reforça a sensação de omissão institucional. O transporte coletivo de Campo Grande opera há anos sob denúncias de sucateamento, falhas de manutenção, frota envelhecida e desequilíbrio financeiro. Tudo isso foi documentado, auditado e debatido — sem consequências práticas.

Enquanto isso, comerciantes contabilizam prejuízos milionários, usuários ficam sem alternativa de deslocamento e motoristas são pressionados a trabalhar sem salário. O discurso fácil de que “todos perdem com a greve” omite quem perde mais: trabalhadores que dependem do pagamento para sobreviver e uma população refém de um sistema falido.

A crise do transporte coletivo não começou com a greve. Ela é resultado direto da negligência do poder público, da falta de fiscalização efetiva e da tolerância prolongada com um modelo de concessão que não se sustenta. Criminalizar os motoristas ou tentar constrangê-los judicialmente não resolve o problema — apenas adia, mais uma vez, a decisão política que a cidade insiste em não tomar.

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