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Campo Grande
Superlotação, surto de doenças e disputa judicial revelam as fragilidades históricas da gestão pública da saúde
Publicado em 28/04/2025 10:06 - Semana On
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Em meio a um surto de doenças respiratórias, a falta crítica de leitos hospitalares e uma disputa judicial milionária entre o principal hospital do Estado e a Prefeitura, Campo Grande (MS) vive uma das maiores crises sanitárias recentes, expondo o acúmulo de fragilidades históricas na gestão da saúde pública brasileira. Declarada em estado de emergência, a capital enfrenta não apenas o avanço da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), mas também a tensão crescente entre o direito à saúde e a precariedade de sua execução política e administrativa.
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A decretação do estado de emergência, publicada no último sábado (26) em edição extraordinária do Diário Oficial (Diogrande), se apoia em números alarmantes: 971 casos de SRAG notificados em 2024, dos quais 486 confirmados e 66 resultando em óbito. A sobrecarga é tal que a fila de espera por leitos hospitalares ultrapassou 100% da capacidade instalada, com 212 adultos e 43 crianças aguardando vaga em unidades de saúde da cidade, segundo a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau).
A secretária municipal de Saúde, Rosana Leite, afirmou que a crise pode se intensificar nas próximas quatro a seis semanas, impulsionada pela alta circulação de vírus respiratórios, tendência confirmada pelo boletim InfoGripe da Fiocruz. Em um esforço emergencial para conter o avanço da epidemia, a prefeitura iniciou no domingo (27) uma força-tarefa de vacinação contra a influenza, ampliando a imunização para toda a população em 74 Unidades de Saúde da Família (USFs), além de parcerias com escolas e instituições para idosos.
Apesar da gravidade, a resposta do poder público tropeça em entraves antigos: subfinanciamento crônico, burocracia e disputas judiciais. Em paralelo à emergência sanitária, a Santa Casa de Campo Grande — maior hospital do Estado e referência no atendimento a casos graves — trava uma batalha judicial para receber R$ 46,3 milhões em repasses atrasados do município. A instituição argumenta, com base em dados da própria Sesau, que a prefeitura dispõe de superavit de R$ 118,8 milhões, contestando a tese de que o pagamento comprometeria serviços essenciais.
A falência do pacto federativo na saúde
A crise em Campo Grande reflete um fenômeno estrutural que assombra o Brasil desde a Constituição de 1988, que estabeleceu o Sistema Único de Saúde (SUS) sob os princípios da universalidade, integralidade e equidade. Como analisa o professor Eugênio Vilaça Mendes, especialista em saúde pública e autor de As Redes de Atenção à Saúde (2011), “o SUS é subfinanciado desde sua criação”, uma crítica que ganha novos contornos a cada crise local.
O conflito entre a Santa Casa e o município ilustra um dilema recorrente: o vácuo entre os direitos constitucionais garantidos e a capacidade efetiva do Estado de garanti-los. A disputa judicial atual, suspensa provisoriamente por decisão do desembargador Sérgio Fernandes Martins, aguarda julgamento definitivo, enquanto o hospital limita novos atendimentos, aprofundando o colapso.
Essa tensão jurídica expõe ainda outro aspecto sensível: a morosidade e a burocratização da gestão pública. Como adverte o jurista Luiz Roberto Barroso em A Dignidade da Pessoa Humana no Direito Constitucional Contemporâneo (2012), “a efetividade dos direitos fundamentais, especialmente os sociais, exige mais do que a proclamação de princípios; demanda políticas públicas estruturadas e financiamento adequado”.
Vacinação e comunicação pública: o desafio da confiança
Outro ponto crítico da crise é a baixa cobertura vacinal, um problema que extrapola Campo Grande e atinge o Brasil como um todo. Segundo dados do Ministério da Saúde, a cobertura da vacina contra a influenza em Campo Grande era de apenas um terço da população elegível antes da ampliação do público. A resistência à vacinação, alimentada por desinformação e desconfiança institucional, compromete a eficácia das ações de bloqueio epidemiológico.
A crise atual confirma análises como a de Pedro Hallal, epidemiologista e ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que advertiu: “A comunicação em saúde é tão importante quanto a vacina em si. Sem credibilidade e clareza, a adesão vacinal cai e as epidemias se alastram”.
Diante disso, a Sesau aposta em campanhas educativas, parcerias com a Cruz Vermelha e ampliação de pontos de vacinação, inclusive aos finais de semana. No entanto, a reversão da crise sanitária exigirá mais do que campanhas emergenciais: será necessário reconstruir a confiança social nas instituições públicas, ferida por anos de negligência, judicialização e instabilidade.
O futuro incerto de uma gestão em xeque
Enquanto a vacinação avança e o número de internações cresce, Campo Grande assiste a um enredo que não é apenas local, mas síntese de um Brasil em que saúde pública, democracia e direitos sociais vivem sob ameaça permanente. A crise, ao desnudar as fragilidades de um sistema já combalido, impõe uma pergunta urgente: será possível superar a emergência sem enfrentar de frente as causas históricas da precariedade?
O direito à saúde, como bem lembra Norberto Bobbio em A Era dos Direitos (1992), não pode ser visto apenas como um ideal, mas como um compromisso prático dos Estados democráticos modernos. O desafio, portanto, não é apenas “gerir crises”, mas reestruturar um pacto social que não se limite ao papel, mas alcance, de fato, a vida concreta dos cidadãos.
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