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Campo Grande

Compra de votos amplia pressão sobre mandato de Adriane Lopes

Investigação identifica quatro núcleos de atuação que teriam beneficiado a campanha da prefeita de Campo Grande em 2024

Publicado em 22/06/2026 2:56 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A Operação Suffragium, deflagrada pela Polícia Federal, trouxe novos elementos para uma investigação que apura suposta compra de votos nas eleições municipais de 2024 em Campo Grande. Segundo os investigadores, há indícios da existência de uma estrutura organizada destinada à captação ilícita de sufrágio, com movimentações financeiras concentradas às vésperas do primeiro e do segundo turnos, período que coincide com a surpreendente recuperação eleitoral da prefeita Adriane Lopes (PP), reeleita após aparecer atrás dos principais adversários em pesquisas de intenção de voto.

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Primeira mulher eleita pelo voto direto para comandar a capital sul-mato-grossense, Adriane passou de uma posição considerada desfavorável nas sondagens eleitorais para a liderança na apuração das urnas. A Polícia Federal trabalha com a hipótese de que recursos financeiros tenham sido distribuídos por meio de uma engrenagem estruturada para dificultar o rastreamento dos valores e ocultar a identidade dos responsáveis pela operação.

Em documento da investigação, a corporação afirma que os elementos já reunidos apontam para a existência de um mecanismo financeiro voltado à distribuição de recursos destinados à obtenção ilícita de votos. A PF ressalta, contudo, que a compreensão completa da dinâmica do esquema ainda depende da análise de celulares, registros contábeis, planilhas e demais materiais apreendidos durante as diligências.

Ex-assessora aparece entre os alvos da investigação

Uma das personagens centrais do inquérito é Simone Bastos Vieira, ex-assessora lotada no gabinete da prefeita. Ela aparece vinculada a uma transferência via Pix de R$ 1,2 mil para o líder comunitário Sebastião Martins Vieira, conhecido como Tião da Horta.

Em depoimento prestado à Justiça Eleitoral, Tião afirmou ter sido procurado por integrantes do comitê de reeleição de Adriane Lopes para participar de um esquema de compra de votos e confirmou ter recebido recursos enviados por Simone.

A ex-assessora deixou a administração municipal em 6 de maio do ano passado, um dia após ser contratada pelo prefeito de Taquarussu, Clóvis do Banco (PSDB). Durante a operação, a Polícia Federal apreendeu o telefone celular da então diretora do Departamento de Estratégia da Saúde da Família.

Suposta engenharia financeira buscava dificultar rastreamento

 

De acordo com a investigação, o grupo teria desenvolvido uma estrutura sofisticada para ocultar a origem e o destino dos recursos utilizados na suposta compra de votos. Os investigadores identificaram movimentações consideradas incompatíveis com a rotina financeira dos envolvidos, além de sucessivas transferências entre diferentes contas bancárias.

Segundo a PF, o esquema utilizava contas de particulares, servidores públicos e empresas privadas para promover a circulação dos recursos. A estratégia teria como objetivo criar múltiplas camadas de movimentação financeira, dificultando a identificação dos responsáveis e dos destinatários finais.

Outro elemento destacado pela investigação é o fracionamento dos valores transferidos. A pulverização dos recursos por meio de diversas operações via Pix teria servido para reduzir a visibilidade das transações perante os mecanismos de monitoramento financeiro, incluindo os sistemas utilizados pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

A corporação também chama atenção para a concentração temporal dessas movimentações, registradas especialmente nos dias imediatamente anteriores aos dois turnos da eleição.

Virada eleitoral sob análise

O contexto eleitoral é um dos pontos observados pelos investigadores. No primeiro turno, Adriane Lopes aparecia atrás de adversários em pesquisas e corria risco de não avançar para a etapa decisiva da disputa. Ainda assim, terminou a votação na liderança, com 140.913 votos, equivalentes a 31,67% do total.

A segunda colocação ficou com Rose Modesto (União Brasil), que havia liderado levantamentos eleitorais durante boa parte da campanha e recebeu 131.525 votos, ou 29,61%. Já Beto Pereira, então filiado ao PSDB e apoiado pela estrutura do governo estadual, acabou eliminado ao conquistar 115.516 votos, correspondentes a 25,96%.

O cenário se repetiu no segundo turno. Mesmo aparecendo em empate técnico ou atrás da adversária em diferentes pesquisas, Adriane venceu a disputa com 222.699 votos, o equivalente a 51,45% dos votos válidos. Rose Modesto obteve 210.112 votos, ou 48,55%.

A diferença de 12.587 votos foi a menor registrada em um segundo turno para a prefeitura da capital desde 1996, quando André Puccinelli (MDB) derrotou Zeca do PT por apenas 411 votos.

Polícia Federal descreve quatro núcleos de atuação

A investigação identificou uma estrutura dividida em quatro núcleos interligados.

No topo estaria o chamado Núcleo de Comando Político ou de Beneficiários Diretos, formado pelos supostos beneficiários eleitorais do esquema. Nesse grupo aparecem Adriane Lopes e a vice-prefeita Camilla Nascimento Oliveira. A PF sustenta que haveria favorecimento político decorrente da estrutura investigada, embora reconheça que ainda não existem elementos individualizados suficientes para demonstrar participação direta das duas na execução dos pagamentos ou das transferências sob apuração.

O segundo grupo é o Núcleo de Coordenação Institucional e Financeira. Conforme a hipótese investigativa, seus integrantes seriam responsáveis pela organização dos recursos e pela administração das operações financeiras utilizadas para abastecer o esquema.

O terceiro núcleo, denominado Núcleo de Intermediadores Operacionais, teria a função de fazer a ponte entre os responsáveis financeiros e os executores da captação ilícita de sufrágio. Os investigadores atribuem a esse grupo tarefas relacionadas à logística de distribuição dos valores, ao fracionamento dos recursos e à realização de transferências para múltiplos destinatários.

Na base da estrutura estaria o Núcleo de Beneficiários Finais, composto pelos eleitores que, segundo a investigação, teriam recebido vantagens econômicas em troca de apoio eleitoral.

TRE reconheceu compra de votos, mas manteve mandatos

O caso já passou pelo Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso do Sul. Por cinco votos a dois, a corte decidiu manter os mandatos de Adriane Lopes e Camilla Nascimento.

Apesar do resultado, seis dos sete magistrados concordaram que houve compra de votos durante o processo eleitoral. A divergência ocorreu em dois pontos considerados decisivos para o julgamento: a inexistência de prova direta de que a prefeita teria ordenado a prática e a falta de demonstração de que a captação ilícita foi determinante para o resultado da eleição.

Recursos aguardam análise do TSE

Enquanto a Polícia Federal aprofunda as investigações, o Tribunal Superior Eleitoral ainda não julgou os recursos apresentados pelo Ministério Público Eleitoral, pelo PDT e pela Democracia Cristã. As ações pedem a cassação dos mandatos da prefeita e da vice-prefeita.

A relatoria está sob responsabilidade da ministra Estela Aranha. O processo aguarda inclusão na pauta de julgamento da corte eleitoral.

A demora na apreciação dos recursos tem sido alvo de críticas. O caso é comparado ao do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, cuja cassação ocorreu somente após anos de tramitação e quando já havia deixado o cargo para disputar outro mandato.

Adversárias veem reforço às denúncias

A operação da Polícia Federal foi recebida pelas adversárias de Adriane Lopes como um reforço às acusações formuladas desde o período eleitoral.

Rose Modesto afirmou que mantém a expectativa de que haja responsabilização pelos fatos investigados. Em publicação nas redes sociais, classificou a ação da PF como mais um passo na busca por respostas sobre as denúncias que cercaram a disputa pela prefeitura.

A ex-deputada sustenta que a derrota ocorreu em um ambiente marcado por desinformação, abuso do poder econômico e compra de votos. Segundo ela, os problemas enfrentados pela população nas áreas de saúde, infraestrutura urbana e serviços públicos refletem as consequências desse processo.

A deputada federal Camila Jara (PT), que terminou a eleição em quarto lugar, também relacionou as suspeitas investigadas à atual situação administrativa da capital. Para a parlamentar, a eventual confirmação de um esquema de compra de votos ajudaria a explicar problemas apontados pela população, como ruas esburacadas, falta de medicamentos, deficiência no atendimento médico e precariedade da iluminação pública.

Camila afirmou ainda que a investigação sobre possível caixa dois e compra de votos levanta questionamentos sobre o compromisso da gestão com as necessidades da população. Em suas manifestações públicas, a deputada também associou o caso a outras controvérsias envolvendo lideranças do PP em âmbito nacional e criticou investimentos realizados pela prefeitura no Banco Master, mencionando riscos para recursos vinculados a aposentados do município.

Debate político se intensifica

A pressão política sobre a prefeita ocorre em meio à expectativa pelo julgamento dos recursos no Tribunal Superior Eleitoral e ao avanço das investigações federais.

Recentemente, Adriane Lopes recebeu apoio público do juiz Eduardo Lacerda Trevisan, da 2ª Vara de Direitos Difusos, Coletivos e Individuais Homogêneos. O magistrado elogiou a postura da prefeita e afirmou que ela tem sido alvo de ataques motivados por machismo e misoginia.

A manifestação repercutiu no ambiente político e jurídico local, especialmente porque o magistrado pode vir a analisar ações envolvendo a administração municipal.

Com a Operação Suffragium em andamento, a análise dos materiais apreendidos pela Polícia Federal passa a ser considerada uma etapa decisiva para determinar o alcance da suposta estrutura de compra de votos e esclarecer o grau de participação dos envolvidos no esquema investigado.

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PF aponta estrutura para compra de votos na eleição de Adriane Lopes


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