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Campo Grande

Colapso na saúde pública de Campo Grande

Conselho de Medicina e Sindicato dos Médicos denunciam desabastecimento generalizado em UPAs e centros de saúde

Publicado em 12/12/2025 9:18 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O sistema de saúde pública de Campo Grande enfrenta uma crise considerada crítica por entidades médicas do estado. Em nota conjunta divulgada nesta semana, o Conselho Regional de Medicina de Mato Grosso do Sul (CRM/MS) e o Sindicato dos Médicos (Sinmed/MS) denunciaram o desabastecimento persistente de medicamentos e insumos básicos nas unidades de saúde da capital, apontando para um risco iminente de colapso na assistência à população.

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As vistorias realizadas por representantes das entidades em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e Centros Regionais de Saúde (CRS) revelaram estoques comprometidos de remédios e ausência de materiais essenciais, como luvas, lençóis e cânulas – insumos mínimos para a segurança de pacientes e profissionais. “Estamos em um colapso total com relação à saúde aqui em Campo Grande”, afirmou Rosimeire Árias, vice-presidente do Sinmed/MS. Segundo ela, médicos estão comprando medicamentos com recursos próprios para tentar manter os atendimentos.

A crise, segundo o CRM e o Sinmed, não é recente: os problemas estruturais se arrastam há mais de um ano e, até agora, não foram enfrentados de maneira eficaz pela administração municipal. A situação se agravou com a vacância do cargo de secretário municipal de Saúde desde setembro – ausência que compromete a governança e a tomada de decisões em um momento de emergência.

Além da precariedade no atendimento, cresce a tensão entre usuários e profissionais. Casos de agressões têm se tornado recorrentes. Rosimeire relata que o ambiente hostil nas unidades é reflexo direto do abandono da rede. “Ontem tivemos um caso de agressão a uma recepcionista, por conta de toda essa insatisfação da população”, disse.

Negativa oficial e promessas de reabastecimento

Em resposta às denúncias, a Secretaria Municipal de Saúde Pública (Sesau) afirmou que não há desassistência na rede e que o reabastecimento de medicamentos e insumos está em andamento, com previsão de atingir 90% da normalização até a próxima quinzena. A pasta garante que monitora constantemente os estoques e que medidas emergenciais, como a aceleração de licitações e a implantação de sistemas digitais de controle como o e-SUS Farmácia, estão sendo adotadas para evitar novos desabastecimentos.

Contudo, a fala da Sesau contrasta com os relatos in loco de médicos, pacientes e entidades que acompanham o cotidiano das unidades de saúde. A discrepância entre o discurso oficial e a realidade apontada nas vistorias levanta questionamentos sobre a eficácia da gestão e a transparência nas informações prestadas.

Crise estrutural e histórico de negligência

O colapso atual não pode ser analisado como um fenômeno isolado. A crise da saúde pública em Campo Grande reflete um histórico de má gestão, cortes orçamentários e descontinuidade administrativa. A ausência de planejamento e a fragilidade nos processos de compra pública agravam um cenário já pressionado pelo aumento da demanda nos serviços básicos.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Campo Grande ultrapassa os 900 mil habitantes. Com uma rede de saúde sobrecarregada, a falta de leitos hospitalares – mencionada pelo Sinmed/MS – impede a transferência de pacientes que necessitam de internação, forçando a permanência em UPAs sem o mínimo necessário para estabilização.

O episódio atual ecoa crises enfrentadas por outras capitais brasileiras em contextos similares, como o colapso sanitário de Manaus em 2021, quando a escassez de oxigênio hospitalar escancarou o custo humano da negligência institucional.

Um alerta ignorado?

As denúncias do CRM e do Sinmed/MS não são novidade. Ao longo de 2023, diversas entidades apontaram falhas no fornecimento de insumos e medicamentos. A repetição do problema evidencia a ausência de respostas estruturais por parte do poder público municipal. Em situações extremas, como a atual, a omissão administrativa pode configurar grave violação de direitos fundamentais, como o acesso à saúde previsto no artigo 196 da Constituição Federal.

O jurista e sanitarista Lenir Santos, em obra publicada pela Editora Fiocruz (2011), alerta: “A falta de acesso a medicamentos e insumos compromete não apenas a eficácia do SUS, mas também a dignidade do usuário do sistema público, que passa a depender de favores ou improvisos”. A declaração é um retrato fiel da realidade em Campo Grande hoje, onde profissionais tentam sustentar a rede à base do improviso, da sobrecarga e, em muitos casos, do próprio bolso.

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