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Campo Grande

Ciclovia da Plaenge amplia risco de alagamentos e ameaça árvores em Campo Grande

Projeto de compensação ambiental para condomínio de luxo impermeabiliza solo, ignora acessibilidade e não se conecta à malha cicloviária

Publicado em 28/10/2025 1:04 - Semana On

Divulgação Vox MS

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A instalação de uma ciclovia pela construtora Plaenge ao longo de 1,4 km da Avenida Mato Grosso, em Campo Grande (MS), escancara um problema recorrente na política urbana brasileira: a lógica da compensação ambiental feita sob medida para atender interesses privados, com prejuízos concretos ao espaço público e à coletividade, mostra reportagem do portal Vox MS.

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A obra, anunciada como contrapartida à construção do condomínio de alto padrão “Artheo”, no Jardim dos Estados, aumenta a impermeabilização de uma área crítica da cidade, historicamente sujeita a alagamentos, especialmente entre a Rua Ceará e a Via Park. Pior: compromete a saúde de árvores adultas — como exemplares de ipês — que tiveram raízes expostas ou danificadas pelas máquinas durante os serviços de terraplanagem e asfaltamento da ciclovia.

Para o biólogo José Milton Longo, mestre e doutor em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), a intervenção não só compromete a sustentabilidade da arborização urbana como ignora soluções já consolidadas para o escoamento das águas.

“Dependendo da intervenção feita no solo ou nas raízes, esse processo poderá interferir negativamente no desenvolvimento dessas árvores e até provocar a morte por comprometer a sustentação, ficando suscetíveis de tombar até por conta de ventos mais fortes”, explicou Longo.

Mais grave ainda, segundo ele, é a escolha do asfalto betuminoso como revestimento da ciclovia — opção que contraria recomendações feitas pelo próprio Ministério Público Estadual (MPE-MS) em obras semelhantes, como na revitalização do Parque dos Poderes. Na ocasião, o MPE recomendou o uso de blocos intertravados, materiais porosos que facilitam a drenagem da água da chuva. O governo estadual acatou a orientação. Já a Plaenge, não.

“O modelo poderia ter sido seguido na Avenida Mato Grosso”, afirmou Longo, lembrando que alternativas ambientalmente mais eficazes estão disponíveis e já foram validadas em outras obras públicas.

Urbanismo a serviço do mercado

O caso da ciclovia da Plaenge revela um padrão amplamente denunciado por urbanistas: a apropriação privada de instrumentos de mitigação ambiental, transformando o que deveria ser uma reparação em mais um vetor de impacto. A proposta de compensação pela construção de um condomínio com 160 apartamentos resultou numa obra que nem atenua os impactos urbanos do empreendimento, nem melhora a mobilidade urbana da cidade.

Com início na Rua Ceará e fim na Via Park, a ciclovia não se conecta a nenhuma malha cicloviária já existente, como a da Avenida Nelly Martins ou do próprio Parque dos Poderes. É uma via que, nas palavras de críticos, “liga o nada a lugar nenhum”. Um traçado desconectado e isolado, que ignora o princípio básico da mobilidade urbana: a integração entre os modais.

Além disso, o projeto não prevê rampas de acesso para pedestres no canteiro central da avenida — item essencial de acessibilidade urbana. A ausência dessas estruturas torna praticamente impossível a travessia por cadeirantes ou pessoas com mobilidade reduzida, sobretudo em dias de chuva, quando as calçadas e vias frequentemente se tornam intransitáveis.

Segundo a construtora, tudo está sendo feito “conforme o projeto executivo aprovado pela Agetran”, a Agência Municipal de Transporte e Trânsito de Campo Grande. No entanto, esse argumento formalista não responde à crítica de fundo: por que um projeto público, ainda que autorizado, desconsidera diretrizes mínimas de urbanismo sustentável, acessibilidade e preservação ambiental?

Contexto político e histórico: o “verde” no papel

O modelo adotado em Campo Grande repete uma velha lógica do urbanismo brasileiro: a expansão imobiliária baseada em contrapartidas frágeis, pouco fiscalizadas e frequentemente adaptadas ao interesse da incorporadora. Esse tipo de política, já amplamente criticado por estudiosos como Ermínia Maricato (USP) e Raquel Rolnik (FAU-USP), revela o esvaziamento do planejamento urbano enquanto política de Estado.

Maricato já alertava, em 2010, sobre os riscos da “cidade mercadoria”, em que o espaço urbano é regido por lógicas privatistas: “O que está em jogo é a captura do planejamento urbano pelo mercado imobiliário, que define onde, como e para quem a cidade será construída”.

A situação se agrava quando o discurso da sustentabilidade — que justifica a construção de ciclovias — é instrumentalizado para produzir mais impactos do que soluções. Em nome da “mobilidade verde”, o solo é impermeabilizado, as árvores são danificadas, e a população que deveria ser beneficiada é, no fim, ainda mais prejudicada.

A resposta da Plaenge — e o silêncio do poder público

Procurada pelo portal Vox MS, a Plaenge respondeu que o uso de asfalto segue “as orientações técnicas definidas pela Agetran”, afirmando ainda que a obra conta com “acompanhamento técnico especializado” e que todas as etapas são monitoradas por profissional habilitado.

Sobre as rampas de acessibilidade, a empresa garantiu que “todos os cruzamentos e esquinas serão devidamente rebaixados, mantendo a ciclovia no mesmo nível da via”.

A prefeitura, por sua vez, não respondeu aos questionamentos até a publicação desta matéria — postura que reforça a sensação de que a fiscalização e o planejamento urbano em Campo Grande têm sido terceirizados à iniciativa privada, sem controle público efetivo.

O episódio da ciclovia da Avenida Mato Grosso não é apenas um caso local. É um retrato da fragilidade do planejamento urbano no Brasil, onde construtoras definem traçados, materiais e soluções que deveriam ser de responsabilidade do poder público. É também um exemplo de como instrumentos de compensação ambiental podem ser transformados em peças de marketing corporativo, em vez de mecanismos reais de mitigação.

A cidade, mais uma vez, é pavimentada para os carros e os lucros — ainda que se pinte o asfalto de verde.

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