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Campo Grande

Chuvas expõem crise de infraestrutura em Campo Grande

Recorde de precipitações em abril revela falhas históricas na drenagem urbana e amplia vulnerabilidades na capital

Publicado em 28/04/2025 12:05 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Abril de 2025 ficará gravado na memória de Campo Grande não apenas pela chuva torrencial que a assolou, mas pela exposição crua das desigualdades estruturais que atravessam a cidade. Com um volume de precipitações que ultrapassou em mais de 100% a média histórica do mês, a capital de Mato Grosso do Sul enfrentou alagamentos, erosões e prejuízos que expuseram o colapso silencioso de sua infraestrutura urbana. A crise das chuvas revelou não apenas a intensidade dos eventos climáticos extremos — cada vez mais comuns em tempos de mudanças climáticas —, mas também a precariedade social e racial que molda a distribuição do espaço urbano no Brasil.

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De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Campo Grande registrou 188,4 mm de precipitação até 26 de abril, quase 2,5 vezes acima da média do mês, de 81 mm. O volume coloca 2025 entre os três anos mais chuvosos desde o início do século, atrás apenas de 2012 (234,8 mm) e 2013 (227,6 mm). A situação não foi isolada: diversas cidades sul-mato-grossenses, como Coxim, Sete Quedas e Dourados, superaram marcas de 200 mm, indicando uma tendência regional de aumento da instabilidade atmosférica, potencializada por padrões anômalos no regime de chuvas.

O impacto na infraestrutura urbana foi imediato e devastador. Em Campo Grande, foram registrados mais de 118 pontos de alagamentos e centenas de solicitações de remoção de árvores. Bairros como Bosque das Araras, Los Angeles e Noroeste se tornaram territórios intransitáveis. A erosão comprometeu ruas inteiras na Chácara dos Poderes. Na zona central, as avenidas Ernesto Geisel, Rachid Neder e Mascarenhas de Moraes foram transformadas em rios improvisados. A população, diante da omissão e da lentidão do poder público, assistiu ao agravamento de uma crise anunciada.

Apesar do quadro alarmante, o secretário municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos, Marcelo Miglioli, descartou a necessidade de decreto de emergência, afirmando que a cidade seria capaz de retomar a normalidade com a estiagem. A posição gerou desconforto entre vereadores e parte da sociedade civil organizada. O presidente da Câmara Municipal, vereador Epaminondas Neto (Papy), cobrou publicamente a decretação de calamidade pública para acelerar o acesso a recursos e dar resposta concreta aos estragos.

Entretanto, a urgência da resposta não se limita a uma questão administrativa. A crise das chuvas revela um drama social mais profundo: quase metade da população de Campo Grande vive em áreas sem sistemas de drenagem adequados. Segundo o Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 405 mil pessoas, o equivalente a 46% dos moradores da capital, residem em domicílios sem acesso a bueiros ou bocas de lobo. Essas estruturas, fundamentais para o escoamento de águas pluviais, são a primeira linha de defesa contra alagamentos e desastres urbanos.

E mais: o déficit de infraestrutura possui cor e classe. Entre os moradores sem acesso ao sistema de drenagem, pretos e pardos compõem 57% do total — em contraste com a maioria branca nas áreas mais bem servidas. A juventude também está desproporcionalmente afetada: mais de 58 mil crianças de até nove anos vivem em regiões sem bueiros. Estes dados reforçam o que autores como Milton Santos já diagnosticavam: a urbanização periférica no Brasil é um processo de exclusão espacial deliberada, no qual infraestrutura e serviços públicos se distribuem conforme linhas raciais e de classe.

Este quadro, no entanto, não é fruto apenas de ineficiência recente. É a expressão de uma longa história de desenvolvimento urbano desigual, que remonta ao período pós-industrialização brasileira, marcado pelo crescimento acelerado das cidades sem planejamento social. Como ressalta o urbanista Raquel Rolnik, “a cidade segregada é o resultado de políticas públicas que serviram, antes, à acumulação de capital do que à garantia de direitos urbanos”.

A situação de Campo Grande reflete ainda um padrão nacional de desigualdade. Mato Grosso do Sul ocupa apenas a 19ª posição entre as 27 unidades federativas no percentual de população com acesso a drenagem urbana (48,3%), atrás de estados como Mato Grosso (49,1%) e muito distante dos líderes Santa Catarina (85,2%) e Paraná (83,2%). No cenário nacional, 53,6% dos brasileiros vivem em áreas com bueiros, enquanto 45,9% não têm essa infraestrutura — números que indicam a magnitude do problema.

Esses índices tornam evidente o desafio civilizacional que o Brasil enfrenta: construir cidades para todos. A ausência de infraestrutura básica é, simultaneamente, um motor e um sintoma das desigualdades sociais e raciais do país. Em tempos de mudanças climáticas, quando eventos extremos como chuvas torrenciais se tornam mais frequentes, essas deficiências podem significar a diferença entre resiliência e tragédia.

A resposta institucional tem sido tímida. A prefeitura de Campo Grande afirma que está em andamento projetos de pavimentação que contemplam redes de captação de águas pluviais, bocas de lobo e bacias de amortecimento, como nas regiões do North Park e Nova Campo Grande. Todavia, tais ações esbarram em uma defasagem histórica: em décadas de crescimento urbano, a expansão das periferias ocorreu sem a correspondente ampliação da infraestrutura.

Para o filósofo Roberto Mangabeira Unger, “o subdesenvolvimento não é a ausência do desenvolvimento, mas sim a sua forma distorcida” (Política: Uma Introdução ao Pensamento Político, 1980). Em Campo Grande, as enchentes e os alagamentos de abril de 2025 são o reflexo dessa distorção: cidades que crescem sem planejamento democrático, onde a moradia digna e o direito à cidade são privilégios e não direitos universais.

A tragédia das chuvas deve, portanto, ser lida para além dos danos imediatos. Ela é um sintoma de um modelo urbano excludente, de uma política que historicamente invisibilizou corpos negros, pobres e periféricos nos projetos de cidade. Como afirma David Harvey, “a liberdade de fazer e refazer nossas cidades é um dos direitos humanos mais preciosos”. Negar infraestrutura básica é negar esse direito fundamental.

Se o futuro de Campo Grande pretende ser diferente, será preciso romper com a lógica de intervenções paliativas e adotar uma política urbana verdadeiramente democrática, inclusiva e comprometida com a justiça social. Porque, no final das contas, como alertava Hannah Arendt, “a política deve estar a serviço do mundo comum” — e não de poucos que podem, literalmente, ficar secos enquanto tantos outros são deixados à mercê da enchente.

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