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Campo Grande
Adolescente será declarado santo neste domingo em meio a denúncias de comércio ilegal de relíquias
Publicado em 06/09/2025 9:51 - Semana On
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O Vaticano canonizará neste domingo (7) o adolescente italiano Carlo Acutis, morto aos 15 anos em 2006, e reconhecido como o primeiro “santo millennial” da história da Igreja Católica. A cerimônia, presidida pelo papa Leão XIV, ocorrerá na Praça de São Pedro e deve reunir milhares de fiéis — muitos deles jovens influenciados pela trajetória de Acutis como evangelizador digital. O evento, no entanto, também lança luz sobre tensões entre espiritualidade, culto à imagem e comercialização da fé.
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Nascido em Londres e criado na Itália, Carlo ficou conhecido por sua habilidade com computadores e por utilizar a internet para disseminar ensinamentos cristãos e catalogar milagres eucarísticos. Sua morte precoce, em decorrência de uma leucemia fulminante, deu início a um processo de canonização que mobilizou a Igreja e conquistou devotos em diversos países, inclusive no Brasil.
A primeira etapa da canonização — a beatificação — foi concedida em 2020, após o reconhecimento de um suposto milagre ocorrido em Campo Grande (MS). O caso envolve o menino Matheus Vianna, que sofria de uma grave má formação congênita e teria sido curado após o contato com uma camiseta de Carlo. Em 2024, o Vaticano validou um segundo milagre, atribuído à recuperação inexplicável de uma jovem na Costa Rica. Com isso, Acutis foi considerado apto à canonização.
Segundo a mãe do jovem, Antonia Salzano, Carlo era um adolescente como tantos outros, mas com uma devoção incomum: “Brincava, ia à escola, tinha amigos. Mas colocou a fé em primeiro lugar”, declarou à imprensa italiana. O corpo do jovem foi transferido para Assis, terra de São Francisco, a pedido dele próprio antes de morrer — uma escolha simbólica que reforça a associação espiritual com o santo padroeiro da Itália.
Canonização acelerada e um novo perfil de santo
O caso de Carlo chama atenção não apenas pelo ineditismo de sua canonização em plena era digital, mas também pela velocidade incomum do processo. Em menos de duas décadas após sua morte, o jovem se tornará oficialmente santo — um tempo recorde se comparado a outras figuras religiosas. O papa João Paulo II, por exemplo, foi canonizado nove anos após sua morte, já considerado um dos processos mais céleres da história moderna da Igreja.
A aceleração do processo de Carlo reflete a tentativa da Igreja de dialogar com novas gerações. Para o sociólogo Massimo Faggioli, professor da Universidade de Villanova (EUA), “há um esforço consciente do Vaticano em encontrar figuras que falem diretamente à juventude conectada, usando linguagem, estética e valores contemporâneos”.
A sombra do comércio de relíquias
Paralelamente à canonização, a Diocese de Assis denunciou à Justiça italiana o comércio ilegal de supostas relíquias de Carlo. Segundo o bispo Dom Domenico Sorrentino, peças atribuídas ao futuro santo — como mechas de cabelo — estavam sendo leiloadas por valores que ultrapassavam os 2 mil euros. A prática, segundo ele, não só viola o Direito Canônico, como constitui “uma ofensa ao sentimento religioso”. A denúncia levou o Ministério Público de Perugia a abrir uma investigação.
“Mesmo que fossem falsas, ainda assim estaríamos diante de uma fraude. Mas se forem verdadeiras, é ainda mais grave”, alertou Sorrentino em nota oficial publicada no site da diocese. O bispo também criticou o que chamou de “mercado paralelo de relíquias”, que opera com listas de preços e negociações online — um cenário que remete a práticas medievais, mas agora turbinado por plataformas digitais.
A “cura” em Mato Grosso do Sul: milagre ou coincidência?
O suposto milagre brasileiro atribuído a Carlo Acutis teve como protagonista o menino Matheus Vianna, então com três anos. Diagnosticado com pâncreas anular, condição rara que dificultava sua alimentação e comprometia seu crescimento, Matheus teria se curado após rezar diante de uma relíquia de Carlo — uma camiseta com seu sangue — durante visita à capela de Nossa Senhora Aparecida, em Campo Grande. “Parar de vomitar”, pediu o menino, segundo relatos da família.
A partir desse momento, segundo sua avó, os sintomas desapareceram. Exames posteriores confirmaram a ausência da malformação. O caso foi comunicado ao Vaticano pelo padre Marcelo Tenório, pároco da capela, que acompanhou de perto a evolução clínica da criança. Hoje, Matheus vive sem sequelas e segue frequentando a igreja.
Ainda que o Vaticano tenha reconhecido oficialmente o milagre, o episódio não conta com respaldo da comunidade científica. Nenhum laudo foi publicado com detalhamento dos exames, e as causas da suposta cura permanecem sem explicação médica divulgada. Como é praxe nesses processos, a Igreja realizou suas próprias investigações internas, incluindo pareceres de médicos e teólogos que permanecem sob sigilo.
Um símbolo de seu tempo — e de suas contradições
A canonização de Carlo Acutis marca uma inflexão na estratégia da Igreja Católica: o culto a uma figura jovem, digital e acessível, que simboliza tanto a renovação do discurso religioso quanto as ambiguidades de sua institucionalização. O caso também evidencia as dificuldades da Igreja em controlar o que ela mesma ajuda a promover: a transformação de indivíduos em ícones com poder simbólico e econômico.
Entre a devoção sincera e o espetáculo midiático, a canonização de Carlo levanta questões importantes sobre os rumos da fé num mundo moldado por algoritmos, celebridades instantâneas e consumo espiritual. E mostra que, mesmo sob os holofotes da santidade, a religião continua atravessada por disputas políticas, interesses financeiros e desafios de legitimidade.
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