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Campo Grande

Campo Grande submersa, novamente

Alagamentos expõem descaso histórico com infraestrutura urbana

Publicado em 25/04/2025 9:50 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A tempestade que caiu sobre Campo Grande (MS) nesta quinta (24) foi mais do que um fenômeno climático isolado. Com registros de até 68 milímetros de chuva em poucas horas, a capital sul-mato-grossense transformou-se em um cenário de caos urbano, com vias alagadas, carros à deriva, motociclistas arrastados pela enxurrada e bairros à mercê da sorte. Mas o que deveria ser apenas um desafio meteorológico tornou-se mais uma evidência de um problema estrutural crônico: o despreparo da cidade — e sobretudo de seu poder público — para lidar com eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes no contexto das mudanças climáticas.

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Não se trata de fatalidade, e sim de negligência reiterada. Vídeos nas redes sociais mostraram motoristas sendo forçados a abandonar seus veículos em ruas como a Pedro Celestino, Espírito Santo e Rachid Neder — esta última, com uma rotatória transformada em ilha, já símbolo do descaso histórico com drenagem urbana. É impossível dissociar a imagem do motociclista sendo arrastado pela correnteza da ausência de políticas públicas eficazes de prevenção. Em vez disso, o que se vê são reações emergenciais e tardias, encabeçadas por uma prefeita que percorre os pontos alagados após os estragos, enquanto o discurso institucional tenta disfarçar a falência de um sistema de escoamento urbano que deveria ter sido prioridade há décadas.

Uma herança maldita

A gestão de Adriane Lopes (PP) herdou uma estrutura precária, mas pouco fez para revertê-la. Em pleno século XXI, a capital de um estado importante ainda não dispõe de um sistema de drenagem pluvial que atenda minimamente às exigências de sua expansão urbana. A responsabilidade, no entanto, não é exclusiva da atual prefeita. Campo Grande é refém de uma sucessão de administrações que trataram a infraestrutura básica como coadjuvante. Desde os anos 1990, a cidade cresceu de forma desordenada, com loteamentos mal planejados e uma política urbana que priorizou o asfalto sobre o planejamento hídrico, desconsiderando completamente o conceito de “cidade sustentável” defendido por urbanistas como Jaime Lerner.

O problema da drenagem urbana não é novo e tampouco imprevisível. A literatura urbanística há décadas alerta para os riscos de impermeabilização excessiva das cidades sem contrapartida em obras de contenção, manutenção de bueiros, limpeza de córregos e educação ambiental da população. Como aponta a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, professora da USP: “Quando uma cidade se transforma em um tapete de asfalto e concreto, ela perde sua capacidade de absorver água, tornando-se vulnerável mesmo a chuvas moderadas”.

Paliativos e marketing político

Após a tragédia anunciada, a prefeita Adriane Lopes apareceu nos pontos mais críticos ao lado de técnicos e secretários, com promessas de que equipes trabalhariam “ao longo de todo o final de semana” para conter os danos. Mas a reação emergencial, ainda que necessária, é insuficiente e não substitui o planejamento estratégico de longo prazo. A Prefeitura mobilizou 25 equipes e reforçou os canais de emergência, como o 199 da Defesa Civil, mas sequer mencionou ações estruturantes como ampliação da rede de drenagem, revisão do plano diretor ou campanhas educativas sobre descarte de lixo — um dos principais vilões no entupimento de bueiros.

A cena da prefeita caminhando entre alagamentos pode parecer simbólica, mas o simbolismo se esvazia quando não é acompanhado de resultados concretos. É o que o filósofo francês Michel Foucault chamaria de “governamentalidade performática” — uma atuação do poder que se apresenta como eficaz, mas que esconde a manutenção do status quo.

A cidade como direito

Na Constituição de 1988, o artigo 182 estabelece que “a política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder Público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes”. Quando ruas se tornam rios e cidadãos têm suas vidas postas em risco por falta de infraestrutura, esse preceito constitucional é violado.

Campo Grande precisa urgentemente sair do ciclo de remendos e adotar uma política pública integrada, baseada em dados, diagnóstico territorial, participação popular e sustentabilidade. A cidade precisa deixar de ser apenas cenário de gestão e se tornar sujeito de um novo pacto urbanístico, com investimentos reais, fiscalização rigorosa e compromisso político que vá além de promessas em redes sociais.

A repetição do erro como política

O que aconteceu ontem não foi um acidente da natureza. Foi o resultado de uma política de omissão. E a repetição dessa omissão, gestão após gestão, é o que transforma o erro em estratégia — e, portanto, em responsabilidade coletiva das administrações que trataram o planejamento urbano como gasto supérfluo, e não como base do direito à cidade.

O caos das chuvas em Campo Grande deve ser um divisor de águas. Que sirva de alerta, não apenas meteorológico, mas moral. A cidade não pode mais esperar que o tempo mude: é a política que precisa mudar.

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