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Campo Grande
Cidade enfrenta superlotação hospitalar e aposta em vacinação em massa
Publicado em 07/05/2025 10:24 - Semana On
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Campo Grande (MS) está mergulhada em uma crise sanitária silenciosa, mas alarmante. A cidade já contabiliza 94 mortes por doenças respiratórias só neste ano, com crescimento acentuado nas últimas semanas. A maioria das vítimas são idosos com mais de 60 anos, embora o impacto também se estenda a adultos e crianças. Em meio à superlotação das unidades de pronto atendimento e à escassez de leitos hospitalares, a prefeitura corre contra o tempo para conter o avanço de síndromes respiratórias graves (SRAG) com campanhas de vacinação e ações emergenciais de ampliação da rede hospitalar.
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O último boletim da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), divulgado na terça-feira (6), aponta que 15 mortes ocorreram somente na última semana de abril e outras seis já nos primeiros dias de maio. No total, são 57 óbitos entre idosos, 26 entre adultos de 30 a 59 anos e nove entre crianças.
Com mais de 1.140 casos de SRAG confirmados em 2024 — 87 novos registros nas últimas 24 horas —, a cidade vive um surto impulsionado por dois agentes principais: o vírus sincicial respiratório e a influenza A. Esses vírus, comuns em períodos de transição climática, têm se tornado especialmente letais em um sistema de saúde já fragilizado pela crônica falta de estrutura e planejamento.
Superlotação e déficit de leitos
As consequências dessa fragilidade são visíveis. Atualmente, há uma fila de 260 pacientes aguardando internação, entre adultos e crianças. A prefeitura já solicitou ao Governo do Estado a liberação de novos leitos: 20 no Hospital do Câncer Alfredo Abrão, 12 no Hospital São Julião e 30 no Hospital Adventista do Pênfigo. Todos seriam destinados a pacientes adultos.
A rede de Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) está operando no limite. As unidades de Almeida e Coronel Antonino passaram a oferecer atendimento pediátrico 24 horas, tentando suprir a demanda emergencial. “Nosso Pronto Atendimento Infantil virou um hospital, praticamente, para as crianças”, afirmou a secretária municipal de Saúde, Rosana Leite, destacando o esforço de fisioterapeutas e equipes clínicas para compensar a falta de vagas hospitalares.
Vacinação: a principal linha de defesa
Diante da escalada de casos, a resposta mais eficaz tem sido a ampliação do acesso à vacinação contra a gripe. A Prefeitura liberou a imunização para toda a população a partir dos seis meses de idade, com campanhas sendo realizadas não apenas nas 74 Unidades de Saúde da Família (USFs), mas também em espaços públicos, como shoppings, supermercados e igrejas.
Nesta quarta-feira (7), por exemplo, uma ação de vacinação será realizada no Santuário Estadual Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, das 8h às 11h e das 13h30 às 16h. A estratégia busca aproveitar o grande fluxo de fiéis durante as novenas, numa tentativa de levar a imunização até públicos que talvez não procurem espontaneamente as unidades de saúde.
“As ações extramuros são um pilar importante na estratégia de vacinação, atingindo um público maior”, explicou Veruska Lahdo, superintendente de Vigilância em Saúde e Ambiental da SESAU. Durante o feriado prolongado de 1º a 4 de maio, mais de 8,6 mil pessoas foram vacinadas.
Emergência declarada e SUS sob pressão
O cenário atual é a continuidade de uma crise já reconhecida oficialmente: em abril de 2024, o município declarou situação de emergência na saúde, em função do colapso nos leitos pediátricos. Quase um ano depois, os problemas persistem e se agravaram com a sazonalidade das doenças respiratórias.
Segundo a Secretaria Estadual de Saúde (SES), Mato Grosso do Sul registrou 1.940 hospitalizações por SRAG e 27 mortes em 2024. Campo Grande responde por mais de um terço das mortes — reflexo da centralização dos atendimentos e do estrangulamento da rede pública.
A falta de estrutura afeta inclusive o setor privado: nenhum hospital da rede conveniada ao SUS tem hoje capacidade de ampliar leitos de UTI pediátrica, agravando o gargalo.
Contextualização histórica e crítica estrutural
A crise em Campo Grande é sintoma de um problema mais profundo: a subfinanciada e sobrecarregada estrutura do SUS. Desde sua criação em 1988, o Sistema Único de Saúde tem sido elogiado internacionalmente por sua universalidade, mas frequentemente negligenciado por sucessivos governos no que diz respeito à infraestrutura e financiamento.
A EC 95/2016, conhecida como “teto de gastos”, congelou investimentos em saúde e educação por 20 anos, prejudicando a expansão e modernização da rede. Segundo a Fiocruz, a redução de recursos impactou diretamente a capacidade de resposta do sistema a surtos e epidemias, como já se viu na pandemia de Covid-19.
Além disso, a baixa adesão à vacinação — fenômeno que ganhou força em meio à desinformação e ao negacionismo — tem dificultado o controle de doenças antes consideradas sob controle, como a gripe e a bronquiolite.
Como ressalta a sanitarista e pesquisadora da USP, Gulnar Azevedo e Silva, “a vacinação é um pacto social. Quando a adesão diminui, o risco coletivo aumenta, e os mais vulneráveis — como os idosos e crianças — pagam o preço mais alto”.
Caminhos para além da urgência
A resposta imediata — ampliar leitos e vacinar em massa — é necessária. Mas insuficiente se o debate estrutural for deixado de lado. A crise respiratória de Campo Grande é também uma crise de gestão pública, de prioridades orçamentárias e de vontade política.
É preciso mais que mutirões e decretos: é urgente repensar o modelo de financiamento e coordenação federativa da saúde, resgatando o princípio constitucional da universalidade como compromisso real, e não apenas declaratório.
Investir em saúde pública não é caridade — é política de Estado. E proteger os mais frágeis, em especial idosos e crianças, é mais do que uma necessidade: é um imperativo civilizatório.
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