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Campo Grande

Campo Grande no epicentro de um dos maiores escândalos do INSS

Secretária da Contag comprou casa e terras enquanto declarava não ter bens

Publicado em 05/05/2025 11:19 - Semana On

Divulgação Reprodução

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As investigações da Polícia Federal sobre o esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que desviou mais de R$ 2 bilhões entre 2018 e 2025 em descontos ilegais nos benefícios de cerca de 1,3 milhão de aposentados e pensionistas, mostra que dirigentes da Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura), empresários ligados ao setor de consultoria e ex-integrantes do próprio INSS usaram os recursos ilícitos para comprar imóveis de alto padrão, veículos e até investir em offshores no exterior.

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Em Campo Grande, a secretária-geral da Contag, Thaisa Daiane Silva, figura como uma das beneficiárias do esquema. De acordo com a PF, ela adquiriu uma casa na capital sul-mato-grossense e uma gleba de terras em Bandeirantes, totalizando cerca de R$ 600 mil em aquisições entre 2022 e 2025. Agricultora e suplente de vereadora pelo MDB, Thaisa declarou ao Tribunal Superior Eleitoral não possuir bens — contradição que se tornou mais um indício das fraudes que sustentam o luxuoso patrimônio dos investigados.

Rota do dinheiro: imóveis, veículos e empresas de fachada

A investigação, que recebeu o nome informal de “farra do INSS”, revelou que 47 imóveis foram comprados pelos investigados ao longo de oito anos, somando um total de R$ 35 milhões em transações suspeitas. Só a empresa Orleans Viagens, ligada a Silas Bezerra de Alencar e Wagner Ferreira Moita, adquiriu 16 salas comerciais em São Bernardo do Campo (SP) — parte delas repassada à própria Contag —, além de um apartamento em Diadema e 11 veículos desde 2021. As compras foram feitas com valores significativamente superiores ao faturamento declarado da empresa, o que levantou o alerta da PF sobre lavagem de dinheiro.

Alencar e Moita também adquiriram imóveis de forma individual. Juntos, investiram mais de R$ 7 milhões em apartamentos em cidades paulistas como Santos e Praia Grande. Um dos personagens centrais do escândalo, o diretor da Contag, Alberto Ercilio Broch, aparece como comprador de um apartamento de R$ 1,6 milhão em Brasília, em setembro de 2023 — o mesmo ano em que assinou com o INSS o acordo que teria dado origem aos repasses suspeitos à entidade.

Da alta cúpula à periferia do poder

A teia de corrupção não se limita à Contag. A PF identificou a compra de imóveis também por parte de ex-integrantes do alto escalão do INSS. Virgílio Antonio Ribeiro de Oliveira Filho, ex-procurador-geral do instituto, adquiriu quatro imóveis entre 2020 e 2023, avaliados em R$ 4,6 milhões, em Brasília, Curitiba e Recife. Exonerado em abril de 2025, Virgílio aparece como peça-chave na sustentação jurídica do esquema.

Sua esposa, Thaisa Hoffmann Jonasson, aparece como sócia de duas empresas que também compraram imóveis: a THJ Consultoria, que investiu cerca de R$ 2 milhões entre 2022 e 2023, e a Curitiba Consultoria em Serviços Médicos, que adquiriu uma propriedade por R$ 230 mil em 2024.

Outro nome de destaque é Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “careca do INSS”. Ligado à empresa Prospect, ele adquiriu à vista uma casa de R$ 3 milhões no Lago Sul, bairro nobre de Brasília, em 2024. A PF identificou também a transferência de R$ 153 mil para uma empresa nos EUA, a Jacksonville Entreprise LLC, com o objetivo de comprar um imóvel no exterior. Antunes ainda é sócio de uma offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, a Camilo & Antunes Limited, que investiu R$ 11 milhões em quatro imóveis de alto padrão no Brasil, numa manobra para blindar o patrimônio.

Justiça cautelosa e patrimônio intocado

Apesar das evidências levantadas, o juiz federal Frederico Viana não autorizou o sequestro dos bens adquiridos pelos investigados. Segundo a decisão, ainda não há “indícios veementes” de que os imóveis foram adquiridos com recursos de origem ilícita. A medida tem sido alvo de críticas de especialistas em direito penal e combate à lavagem de dinheiro. Para o jurista Walter Maierovitch, especialista em criminalidade organizada e ex-desembargador, “o não bloqueio de ativos em casos com tamanha complexidade favorece a dispersão do patrimônio e dificulta sua recuperação”.

Fraude estrutural e desamparo coletivo

A profundidade do esquema levanta preocupações maiores: a vulnerabilidade institucional do INSS e a fragilidade dos mecanismos de fiscalização sobre entidades representativas e empresas terceirizadas. O uso de descontos compulsórios em benefícios previdenciários — prática já denunciada anteriormente em casos menores — ganha nova dimensão, desta vez com o envolvimento de grandes estruturas organizacionais.

Segundo o economista Paulo Tafner, especialista em Previdência Social, o impacto desse tipo de fraude é “duplamente perverso”: “Primeiro, porque atinge diretamente a população mais vulnerável, que depende do benefício para sobreviver; depois, porque compromete a credibilidade do sistema de seguridade como um todo”.

Entre a impunidade e a urgência de reformas

O caso reforça a urgência de reformas estruturais que impeçam o uso político e empresarial de instituições públicas para fins privados. Embora as investigações estejam em curso, o avanço lento das medidas judiciais e a ausência de punições até o momento alimentam um sentimento de impunidade. Enquanto isso, os principais atingidos seguem sendo os aposentados, que viram seus vencimentos diminuídos por descontos arbitrários e não autorizados.

O escândalo do INSS é mais que um caso de corrupção: é um retrato da captura institucional por interesses privados — e um teste crítico para as estruturas de controle da democracia brasileira.

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