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Campo Grande
Levantamento do Datafolha mostra abandono estrutural e falta de políticas públicas eficazes
Publicado em 21/08/2025 9:57 - Semana On
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Campo Grande é a pior capital do Brasil em acesso à cultura. É o que mostra extensa reportagem da jornalista Natália Olliver, do site Campo Grande News. O dado, revelado em pesquisa do Datafolha em parceria com a JLeiva Cultura e Esporte, expõe um cenário crítico: a cidade lidera as piores colocações em praticamente todos os 14 indicadores analisados, que vão de leitura de livros a frequência em museus, teatros, shows e eventos culturais. O estudo escancarou a ausência de políticas públicas consistentes e o abandono de equipamentos culturais, muitos deles fechados há anos.
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A pesquisa foi realizada entre abril e maio de 2025 com 600 moradores da capital, entrevistados em 60 pontos de grande circulação. A margem de erro é de quatro pontos percentuais. O índice de leitura, por exemplo, ficou abaixo da média nacional: apenas 47% dos campo-grandenses afirmaram ter lido ao menos um livro no último ano. Em bibliotecas, a frequência foi ainda mais baixa: só 15% disseram ter frequentado uma.
Outros dados ilustram a dimensão do problema. Apenas 12% foram ao teatro, 9% visitaram feiras de livro, 3% participaram de saraus e meros 2% assistiram a concertos. Atividades como dança (15%) e jogos eletrônicos (34%) também tiveram índices baixos. A pesquisa aponta ainda que 70% das atividades culturais ocorrem longe dos bairros dos entrevistados, e só 7% têm acesso a eventos em suas próprias comunidades.
Em comparação com levantamento semelhante feito em 2014, também pela JL Cultura, os números mostram queda expressiva na maioria das atividades. Houve redução de 19% na presença em shows, 16% em festas populares, 12% no circo e 11% no cinema. O teatro, embora mantido em 12%, revelou dados preocupantes: a maioria assistiu apenas a peças infantis (50%) e 25% dos entrevistados deixaram de ir ao teatro por falta de dinheiro.
A ausência de políticas públicas duradouras aparece como fator central na crise cultural. Para o produtor Rodrigo Teixeira, os números não surpreendem. “O hábito cultural tem a ver com política cultural, com a demanda que existe para que esse hábito seja formado. E o que vimos nos últimos anos foi um grande desmonte dos aparelhos culturais”, afirmou. Segundo ele, diversos espaços seguem fechados, como a Morada dos Baís, o Teatro do Paço, o Cine Campo Grande e o Centro Belas Artes.
A própria Fundação de Cultura reconheceu o impacto do estudo. A assessora executiva Giovana Corrêa afirmou ter se surpreendido com os resultados e destacou que os dados serão usados para revisar editais e projetos. Já a secretária-adjunta de Cultura do município, Jacqueline Vital, relativizou a comparação com outras capitais, apontando as dificuldades de captação de recursos em cidades fora do eixo Rio-São Paulo. “Trazer esse espetáculo para Campo Grande tem um valor financeiro alto, que impacta no bolso de quem vai assistir”, disse.
Jacqueline também apontou desafios específicos, como o despreparo da indústria cultural para atender ao público idoso. “O Brasil está envelhecendo, mas o cinema segue com o mesmo barulho, a mesma acomodação, o mesmo tempo de filme. Não está produzindo para esse público”, declarou. Ela reconhece a necessidade de atrair o público jovem e valorizar o que é produzido localmente, criticando ainda a baixa adesão da população aos espaços históricos da cidade: “Aqui, passa em frente ao museu todo dia e não entra.”
Apesar do cenário desolador, a prefeitura afirma estar trabalhando para reverter o quadro. Entre as ações mencionadas estão a reabertura da Morada dos Baís e o fortalecimento do Fundo Municipal de Investimentos Culturais (Fmic), além da solicitação de dados mais detalhados da pesquisa para mapear os bairros mais afetados.
O caso de Campo Grande não é isolado, mas simboliza o que ocorre quando a cultura é negligenciada como política pública. Como já alertava a pesquisadora e crítica cultural Heloísa Buarque de Hollanda, “sem cultura, não há cidadania plena” – uma afirmação que se torna ainda mais urgente diante da exclusão cultural em curso em muitas cidades brasileiras.
A realidade apontada pelo levantamento do Datafolha/JLeiva escancara uma ferida crônica: o acesso à cultura continua sendo um privilégio em um país onde ele deveria ser direito básico. E enquanto os teatros seguem fechados e os museus às moscas, a capital do Mato Grosso do Sul se torna um retrato do abandono – não por falta de demanda, mas por falta de visão política e investimento.
Orçamento 2026: Adriane Lopes veta verbas para cultura
A prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes (PP), vetou partes da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026 que previam investimentos nas áreas de cultura.
Segundo Adriane, os trechos vetados tinham problemas legais, falta de respaldo técnico e poderiam afetar o planejamento financeiro do município.
Entre eles, está a proposta que destinava 1% do orçamento para editais culturais. A prefeitura argumentou que já aplica esse valor e que tornar o repasse obrigatório pode prejudicar outras áreas da administração.
O Executivo reconheceu a relevância da cultura, mas justificou o veto afirmando que o município já investe esse valor e que obrigar o repasse pode comprometer outras áreas importantes da gestão pública.
Protetoras protestam contra corte de castrações em Campo Grande
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