Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Campo Grande
Superlotação nas UPAs de Campo Grande expõe colapso na saúde pública na capital
Publicado em 22/05/2025 10:41 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Campo Grande enfrenta um crescimento dos casos de síndromes respiratórias, especialmente relacionadas aos vírus da influenza (gripe), vírus sincicial respiratório (VSR) e também casos de Covid-19. O aumento dos atendimentos nas unidades de saúde reforça a necessidade de ampliar a cobertura vacinal para reduzir complicações, internações e óbitos. Diante deste cenário, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) está intensificando as ações de vacinação, buscando facilitar o acesso da população.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Pontos de vacinação e cronograma:
Ações desta semana:
Cronograma nas escolas com apoio das Unidades de Saúde da Família (USFs)
22 de maio:
23 de maio:
27 de maio:
28 de maio:
Além dessas ações, a vacinação segue normalmente nas 74 unidades de saúde da família (USFs) da capital. Três delas funcionam com horário estendido até às 23h, com vacinação realizada até 22h30 nas seguintes unidades:
Até o momento, Campo Grande alcançou 40,11% de cobertura vacinal no público-alvo. De acordo com balanço divulgado pela Sesau nesta quarta-feira (21), já foram aplicadas 220.991 doses desde o início da campanha, sendo 89.898 nos grupos prioritários.
Apesar do avanço, os índices ainda estão abaixo da meta de 90%, recomendada pelo Ministério da Saúde. Segundo os dados, 19.621 doses foram aplicadas em crianças de seis meses a menores de seis anos, e 69.486 em idosos com 60 anos ou mais, dois dos grupos mais suscetíveis às complicações da Influenza. No entanto, o número de gestantes vacinadas preocupa, com apenas 791 doses aplicadas até o momento.
O reforço na imunização acontece em meio ao aumento dos casos registrados na última semana. Dados da Vigilância em Saúde apontam crescimento expressivo nas notificações, principalmente de Influenza A e B, Vírus Sincicial Respiratório (VSR) e Covid-19, que seguem em circulação.
O imunizante está disponível para toda a população a partir dos 6 meses de idade. A vacinação é essencial para prevenir complicações causadas pelo vírus Influenza e reduzir a sobrecarga nos serviços de saúde.
Superlotação nas UPAs de Campo Grande expõe colapso na saúde pública
As cenas se repetem diariamente: corredores lotados, longas filas na entrada das unidades e mães aflitas com bebês no colo à espera de atendimento. Com uma média de 300 pacientes por dia, as UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) de Campo Grande vêm operando próximas ao colapso, diante de um aumento expressivo nos casos de síndromes respiratórias agudas graves (SRAG). Nos últimos sete dias, segundo dados oficiais da Secretaria Municipal de Saúde (Sesau), 2.164 atendimentos foram registrados nas seis unidades de urgência da capital sul-mato-grossense — um reflexo direto da sobrecarga da rede pública.
A superlotação é visível e alarmante. Na quarta-feira (21), a UPA Coronel Antonino registrou fila de pacientes do lado de fora da unidade, cenário que se tornou comum nas demais UPAs da cidade: Universitário, Vila Almeida, Leblon, Moreninha III e Santa Mônica. A média de espera para atendimento ultrapassa três horas, situação agravada pela escassez de profissionais. Em depoimento à reportagem, Nayara de Paula Ferreira, prestadora de serviços gerais, relatou a espera exaustiva após procurar atendimento por sintomas gripais: “Tem gente desde as 9h da manhã aqui sem atendimento. Só dois médicos atendendo. Bastante idosos e crianças chorando”.
A explosão dos casos respiratórios
A raiz da crise nas UPAs é o avanço das doenças respiratórias. Em 2025, 1.380 pessoas já foram diagnosticadas com SRAG em Campo Grande. Entre elas, um grupo chama atenção: as crianças pequenas. Os dados mostram que 831 casos envolvem crianças, sendo 437 bebês com menos de um ano. Os idosos, embora com menor número de infecções, registram os maiores índices de mortalidade.
As principais causas são vírus já conhecidos: Influenza, Covid-19 e o vírus sincicial respiratório (VSR) — este último, historicamente perigoso para bebês e idosos. Até maio, a cidade já contabiliza 125 mortes por doenças respiratórias, das quais 78 são de pessoas acima dos 60 anos e 11 de crianças entre zero e nove anos.
A secretária municipal de saúde, Rosana Leite, reconhece a gravidade da situação e afirma que a pasta tem reforçado equipes e ampliado a triagem, mas admite o desafio: “Estamos operando no limite e, infelizmente, com picos de casos respiratórios, isso sobrecarrega todo o sistema”.
Falta de estrutura e o ciclo crônico da emergência
O colapso nas UPAs reflete não apenas uma crise sazonal, mas um problema estrutural de saúde pública: a dependência crônica do pronto-atendimento como porta de entrada do SUS. Especialistas como Ligia Bahia, professora da UFRJ e pesquisadora em políticas públicas de saúde, têm alertado há anos sobre essa lógica: “Transformamos as emergências em serviços ambulatoriais contínuos. Isso é consequência direta da ausência de uma atenção primária forte e bem estruturada”.
A sobrecarga das UPAs também evidencia a fragilidade da prevenção e da atenção básica. Com unidades de saúde da família (UBSFs) muitas vezes subutilizadas ou com funcionamento limitado, a população recorre ao pronto-atendimento mesmo em casos que poderiam ser resolvidos em consultas regulares. Essa sobreposição de funções transforma as UPAs em um gargalo sem fim.
A geografia da desigualdade no acesso à saúde
Outro fator agravante é a distribuição desigual da oferta de serviços. Campo Grande possui mais de 900 mil habitantes, mas apenas seis UPAs, algumas em regiões de alta densidade populacional. Moradores da periferia, especialmente nos bairros afastados do centro, enfrentam maior dificuldade de locomoção, o que contribui para o agravamento dos quadros clínicos. O resultado é o aumento da demanda nas unidades de maior porte, como a UPA Coronel Antonino, frequentemente sobrecarregada.
Além disso, os casos de doenças respiratórias não são um fenômeno isolado. Eles se intensificam com a chegada do outono e do inverno, estações marcadas pela queda de temperatura e maior circulação viral. Estudos da Fiocruz indicam que, no Brasil, os meses de abril a agosto concentram os picos de internações por SRAG, o que torna ainda mais urgente a necessidade de estratégias preventivas, como campanhas de vacinação eficazes e ampliação da cobertura da atenção básica.
Uma epidemia silenciosa de exaustão
Por trás dos números, há um outro dado silencioso: o desgaste dos profissionais de saúde. Médicos, enfermeiros e técnicos atuam em escalas exaustivas, muitas vezes sem os recursos adequados. A sobrecarga física e emocional das equipes é um componente central da crise, mas frequentemente negligenciado pelo debate público. A situação também reacende as discussões sobre carreira pública médica, fixação de profissionais em áreas periféricas e financiamento adequado do SUS.
A crise nas UPAs de Campo Grande não é um fenômeno isolado. Ela espelha um problema nacional de subfinanciamento da saúde, agravado por medidas como a Emenda Constitucional 95, que congelou os investimentos públicos por 20 anos. O impacto dessa política — duramente criticada por organismos internacionais como a ONU e a OMS — se faz sentir especialmente nas cidades de médio porte, como Campo Grande, que dependem fortemente dos repasses federais para manter a estrutura de atendimento.
O caminho para enfrentar a situação passa por fortalecer a atenção primária, ampliar a capacidade de resposta da rede de urgência e investir em políticas públicas de saúde integradas e sustentáveis. Mas, enquanto essas soluções não chegam, o cenário nas UPAs segue revelando uma população vulnerável, uma rede sobrecarregada e um Estado que ainda patina em garantir o direito constitucional à saúde.
Superlotação e falta de repasses agravam crise na Santa Casa
Deixe um comentário