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Campo Grande

Assassinato de jornalista na capital expõe limitações das medidas protetivas

Aumento de denúncias reforça papel do Ligue 180 no combate à violência contra mulheres

Publicado em 13/02/2025 9:22 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A jornalista Vanessa Ricarte, de 42 anos, foi morta a facadas na noite desta quarta-feira (12) em Campo Grande (MS), vítima de feminicídio. Servidora do Ministério Público do Trabalho de Mato Grosso do Sul (MPT-MS), Vanessa foi atacada pelo companheiro, o músico Caio Nascimento, dentro de casa, no bairro São Francisco. Ele foi preso em flagrante.

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Horas antes do crime, a vítima havia procurado a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) para denunciar agressões do parceiro. Acompanhada de um amigo, ela registrou um boletim de ocorrência e, no período da tarde, retornou à residência para buscar seus pertences. Foi nesse momento que Caio a atacou, desferindo três facadas no tórax.

Testemunhas relataram que a jornalista chegou a pedir socorro. Um vizinho, que ouviu gritos e discussões, tentou intervir ao avistar o agressor desferindo golpes contra o vidro de uma janela. Segundo ele, Caio avançou em sua direção, mas foi contido pelo portão da residência. Em seguida, voltou-se contra Vanessa e a esfaqueou.

O Corpo de Bombeiros foi acionado e prestou socorro à vítima, que chegou em estado gravíssimo à Santa Casa de Campo Grande, mas não resistiu aos ferimentos. A Polícia Militar prendeu o agressor no local.

Caio Nascimento acumula 11 registros de violência doméstica desde 2020. Uma ex-namorada chegou a ser hospitalizada após ser agredida por ele, apresentando queimaduras no rosto e nos braços. Outra ex-companheira denunciou perseguições e ameaças, descrevendo episódios de violência psicológica e agressões verbais. Em 2024, solicitou medidas protetivas contra o músico.

Apesar do extenso histórico criminal, Caio seguia em liberdade. O caso reacende o debate sobre a efetividade das medidas protetivas e a impunidade em casos de violência contra a mulher.

O feminicídio segue como um dos crimes mais recorrentes no Brasil, impulsionado por fatores como a negligência na aplicação de medidas preventivas e a reincidência de agressores. O assassinato de Vanessa, que denunciou seu agressor poucas horas antes de ser morta, evidencia a urgência de ações mais eficazes para proteger vítimas e punir criminosos.

A jornalista é a primeira vítima de feminicídio em Campo Grande, e a segunda no Estado em 2025.

Ligue 180 registra aumento de 18,7% nos atendimentos em 2024

O número de atendimentos realizados pelo Ligue 180, canal de denúncias e apoio a mulheres vítimas de violência, cresceu 18,7% em Mato Grosso do Sul em 2024. Foram 9.413 registros no ano, contra 7.924 em 2023, segundo dados divulgados pelo Ministério das Mulheres. O aumento reflete a maior confiança das vítimas no serviço, mas também expõe a persistência da violência de gênero no estado.

As denúncias formais – quando há relato específico de violência – também cresceram, passando de 1.777 em 2023 para 1.999 no ano passado, um acréscimo de 12,49%. A maioria das queixas foi feita pelo telefone (1.843 chamadas), enquanto outras 131 foram registradas via WhatsApp.

Entre as mulheres que buscaram ajuda pelo Ligue 180, a maioria era preta ou parda (1.145 casos). O agressor, na maioria das vezes, era o companheiro, cônjuge ou ex-parceiro, responsável por 833 casos de violência.

O lar da vítima continua sendo o principal cenário de agressões, com 824 denúncias envolvendo violência dentro da casa da mulher e outras 666 ocorrências em residências compartilhadas com o agressor.

Além disso, a frequência das agressões preocupa: 910 mulheres relataram sofrer violência todos os dias, enquanto outras 367 disseram que os episódios ocorrem ocasionalmente.

Investimentos no Ligue 180 e fortalecimento da rede de apoio

Para a ministra das Mulheres, Cida Gonçalves, o crescimento no número de atendimentos reflete uma maior confiança das vítimas no Ligue 180, que passou por reestruturação em 2023 dentro do programa Mulher Viver sem Violência. Entre as melhorias implementadas estão a capacitação das atendentes, a ampliação da divulgação do serviço e a expansão do atendimento pelo WhatsApp.

“Ao fortalecer a capacitação das profissionais e melhorar o acolhimento às vítimas, conseguimos garantir que as denúncias sejam encaminhadas corretamente para os órgãos responsáveis, além de dar mais segurança para que as mulheres busquem ajuda”, destacou a ministra.

Apesar do aumento nos registros, especialistas alertam que os números ainda não refletem a totalidade da violência contra as mulheres, já que muitos casos seguem subnotificados por medo ou falta de informação. A ampliação das campanhas de conscientização e a garantia de proteção efetiva para vítimas seguem como desafios centrais no enfrentamento da violência de gênero no Brasil.

Uma morte violenta por dia em 2024, mas índice segue em queda

Mato Grosso do Sul registrou, em 2024, uma média de uma morte violenta por dia, totalizando 492 vítimas de crimes contra a vida ao longo do ano. Apesar do número alarmante, os dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública indicam uma redução de 2,38% em relação a 2023 e uma queda significativa de 30,8% nos últimos nove anos.

A tendência de queda acompanha o cenário nacional, onde a redução foi de 5% entre os últimos dois anos. No Brasil, foram 38.722 mortes violentas em 2024, o menor índice desde 2015.

Entre os crimes registrados em Mato Grosso do Sul no último ano, os homicídios dolosos lideram as estatísticas, com 421 casos. Em seguida, aparecem os 35 feminicídios, os 22 latrocínios (roubos seguidos de morte) e as 14 lesões corporais seguidas de óbito.

Em comparação com 2023, o número de homicídios dolosos caiu de 453 para 421, enquanto os feminicídios aumentaram de 30 para 35. Já os latrocínios tiveram um crescimento expressivo, subindo de 6 para 22 casos.

Campo Grande lidera como a cidade com mais mortes violentas, registrando 147 casos, seguida por Dourados (41) e Ponta Porã (22). Por outro lado, 16 municípios não tiveram nenhum registro desse tipo de crime, entre eles Bonito, Aparecida do Taboado e Paraíso das Águas.

Os meses mais violentos do ano foram novembro e dezembro, ambos com 57 casos, seguidos de setembro, que registrou 51 mortes violentas.

No início de 2025, os números continuam preocupantes. Até o momento, já foram computados 51 homicídios dolosos e um feminicídio em Mato Grosso do Sul. No entanto, ainda não houve registros de latrocínios neste ano.

Nacionalmente, os estados que lideraram as estatísticas de assassinatos em 2024 foram Bahia (4.480 casos), Rio de Janeiro (3.504) e Pernambuco (3.381). Os menores números foram registrados em Roraima (119 casos) e Acre (168 casos).

Apesar da queda nos índices ao longo dos anos, os desafios para a segurança pública permanecem. Especialistas apontam que a redução nas mortes violentas pode ser resultado de políticas de segurança mais eficientes, investimentos em tecnologia e inteligência policial, mas alertam para o aumento de crimes como feminicídios e latrocínios, que exigem medidas específicas de prevenção.

Serviço

Pode fazer a ligação gratuita (ligue 180) de qualquer lugar do Brasil, 24 horas, todos os dias da semana (inclusive finais de semana e feriados).
Em casos de emergência, deve ser acionada a Polícia Militar, por meio do telefone 190.

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