Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Mato Grosso do Sul

Depois do ET Bilú, Urandir aposta em pirâmides e “cidades perdidas”

Arqueólogos emitiram nota de repúdio ao que classificam como “pseudociência”

Publicado em 12/02/2025 6:48 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Depois de parir o ET Bilú, o empresário Urandir Fernandes de Oliveira continua sua trajetória na área do “misticismo cósmico” apostando as fichas de sua empresa, a Dakila Pesquisas, em pirâmides, no hipotético Caminho de Peabiru e na mítica cidade de Ratanabá. Nas últimas semanas, veículos de comunicação do Estado foram inundados por “informes publicitários” dando conta dos novos empreendimentos de Urandir.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Desde 2021, o anúncio da existência de uma “cidade perdida” na Amazônia chamada Ratanabá chamou a atenção da imprensa e da imensa tribo que circula em torno das teorias da conspiração. A suposta cidade, escondida sob a densa floresta na região do município de Apiacás (MT), teria sido habitada por uma civilização pré-diluviana chamada Muril, segundo a empresa Dakila Pesquisas, responsável pela “descoberta”.

Freio de arrumação… Para a ciência, essa narrativa não passa de uma tentativa de validar teorias pseudocientíficas, inserida em uma disputa global entre conhecimento científico consolidado e crenças esotéricas.

Comandada por Urandir, a Dakila Pesquisas está no centro de uma disputa jurídica e acadêmica após ter suas solicitações de licença para pesquisas arqueológicas negadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Os pedidos, amplamente detalhados em documentos públicos, levantaram questões sobre a integridade das pesquisas e a possível exploração econômica de terras indígenas. Em meio a denúncias de vandalismo arqueológico e práticas pseudocientíficas, a Dakila tornou-se um caso emblemático dos desafios enfrentados pelo Brasil na preservação do seu patrimônio cultural.

Negócios, pseudociência e promessas

A Dakila Pesquisas faz parte de um ecossistema empresarial diversificado, conhecido como Ecossistema Dakila, sediado em Corguinho (MS), que atua em setores como mineração, cosméticos, criptomoedas e turismo esotérico. Urandir, conhecido desde os anos 80 por sua atuação no campo da ufologia, ganhou notoriedade nacional em 2010 após o episódio televisivo do ET Bilu, em que um suposto extraterrestre apareceu em rede nacional pedindo que os humanos “buscassem conhecimento”.

O episódio foi amplamente ridicularizado pela mídia e especialistas, mas não interrompeu a ascensão de Urandir. Com a criação da Dakila Pesquisas, ele construiu um nicho em torno de teorias alternativas sobre a origem da humanidade, da geografia da Terra e do passado da Amazônia. Entre as principais teses da empresa está a de que a Terra é plana e convexa – apresentada no documentário Terra Convexa (2018) – e que a Amazônia esconde os vestígios da primeira civilização da Terra, a suposta cidade de Ratanabá.

Em uma tentativa de legitimar essas ideias, a Dakila alega ter realizado pesquisas utilizando tecnologias de ponta, como o levantamento aéreo por LiDAR (Light Detection and Ranging), que permite identificar estruturas soterradas. No entanto, como destaca o dossiê elaborado pelo arqueólogo Artur Henrique Franco Barcelos, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), as interpretações feitas pela empresa carecem de respaldo científico:

“Por mais que a Dakila utilize ferramentas e tecnologias reconhecidas pela Arqueologia, como o LiDAR, suas premissas são construídas sobre uma base puramente especulativa. A suposta civilização Muril não possui qualquer evidência arqueológica ou biológica reconhecida”, afirma o arqueólogo.

Envolvimento político e as tentativas de licença

O apoio as teorias controversas de Urandir ganhou um importante aliado político durante o governo de Jair Bolsonaro. Em 2020, o empresário foi recebido pelo então Secretário Nacional de Cultura, Mário Frias, que compartilhou nas redes sociais seu entusiasmo com a possibilidade de apoiar expedições na Amazônia. Segundo Frias, Urandir apresentou documentos e imagens de artefatos supostamente encontrados em escavações no Real Forte Príncipe da Beira, em Rondônia. Na ocasião, o secretário afirmou:

“Ele me apresentou um documento que resume os estudos iniciados pela associação desde 1992, ano em que Ratanabá teria sido descoberta. Vi diversas fotos de artefatos bem elaborados de metal e de cerâmica encontrados em galerias subterrâneas no Real Forte Príncipe da Beira.”

Esse envolvimento com setores governamentais foi fundamental para que a Dakila apresentasse dois pedidos de licença ao IPHAN em 2021. Ambos os processos, porém, foram arquivados após pareceres técnicos que destacaram a falta de comprovações científicas. A diretora do IPHAN no Mato Grosso, em nota técnica de 2023, foi categórica ao afirmar:

“Resumidamente, não há pesquisas científicas que apontem, sequer, uma mínima possibilidade de ‘Ratanabá’ existir.” (IPHAN, Nota Técnica nº 38/2023)

Em 2023, já sob a administração do governo Lula, a Dakila reformulou seu pedido ao IPHAN, desta vez com um projeto intitulado “Arqueologia da Paisagem Como Ferramenta Para Conservação, Proteção do Patrimônio e Fortalecimento da Identidade na Aldeia Mayrowi, Apiacás-MT”. A proposta indicava o uso de métodos científicos, mas foi novamente rejeitada devido a irregularidades, como a falta de um arqueólogo qualificado para liderar o projeto. O IPHAN apontou que o coordenador indicado, Saulo Ivan Nery, não possuía a formação exigida por lei.

Relacionamentos com comunidades indígenas: ajuda ou interesse econômico?

Outro ponto crítico envolve a relação da Dakila com comunidades indígenas. A empresa lançou, em 2023, o projeto Voz das Etnias, que promete parcerias para promover o desenvolvimento econômico em terras indígenas. Segundo a Dakila, isso incluiria a instalação de torres de internet, veículos utilitários e até mesmo playgrounds para as crianças. No entanto, críticos apontam que essas iniciativas podem mascarar interesses comerciais, sobretudo em áreas ricas em recursos naturais.

A Associação das Mulheres Munduruku denunciou ao Ministério Público Federal que membros da Dakila realizaram incursões não autorizadas em terras indígenas. As denúncias resultaram na abertura de um processo pelo MPF/MT, destacando a necessidade de investigação das ações da empresa.

Para o arqueólogo Igor Chmyz, que assinou uma carta-denúncia ao IPHAN, a situação é alarmante:

“Estamos diante de uma empresa que, sob o pretexto de descobertas arqueológicas, pode causar danos irreversíveis ao patrimônio nacional. A pseudociência não é apenas uma ameaça acadêmica, mas também uma ameaça real ao patrimônio histórico e às comunidades tradicionais.” (Carta-Denúncia ao IPHAN, 2024).

Afirmações sem fundamento científico

As teses promovidas pela Dakila Pesquisas são amplamente consideradas sem respaldo científico. Embora o grupo utilize ferramentas tecnológicas que também fazem parte da prática arqueológica, como o LiDAR, o sensoriamento remoto e a interpretação cartográfica, os especialistas apontam que os dados coletados são interpretados de forma equivocada e sem fundamentação. De acordo com Artur Barcelos, a suposta civilização chamada Muril é uma invenção original dos teóricos da Dakila, conectada ao imaginário esotérico da mítica Lemúria, mas sem qualquer base em disciplinas como geologia, biologia, antropologia ou arqueologia.

Essa abordagem se insere em uma tradição já consolidada no campo das pseudociências, seguindo o mesmo caminho de obras populares, mas controversas, como Eram os Deuses Astronautas? (1968), de Erich Von Däniken, e História Secreta da Raça Humana (2004), de Michael Cremo e Richard L. Thompson. Documentários recentes, como a série da Netflix Revelações Pré-Históricas (2022), apresentada pelo jornalista Graham Hancock, e o programa Alienígenas do Passado, do History Channel, também reforçam a ideia de que a humanidade teria uma história oculta e muito mais antiga do que a ciência tradicional admite.

Para a comunidade científica, essas teorias compartilham um padrão comum: negam o conhecimento científico acumulado até hoje e oferecem explicações especulativas que envolvem civilizações perdidas ou intervenções extraterrestres. O caso da Dakila não foge a essa lógica, mas com um agravante: suas teorias pseudocientíficas são usadas como base para pedidos formais de licenças de pesquisa em locais de importância arqueológica.

UMA SÍNTESE DAS TEORIAS DA DAKILA

De acordo com a narrativa promovida pela Dakila Pesquisas:

– A Terra teria sido habitada, entre 600 e 400 milhões de anos atrás, por uma civilização avançada chamada Muril, vinda de outro planeta ou dimensão.

– Esse povo teria deixado vestígios sob a floresta amazônica, formando cidades e reinos esquecidos, como a suposta cidade de Ratanabá.

– O conhecimento dos Muril incluía o domínio de linhas de energia e vórtices magnéticos, sobre os quais civilizações posteriores teriam construído estruturas como as fortalezas em “estrela” e os antigos caminhos indígenas conhecidos como Peabirus.

– O Real Forte Príncipe da Beira, em Rondônia, e as ruínas das Missões Jesuíticas no Brasil, Paraguai e Argentina também fariam parte dessa rede de locais energéticos interconectados.

Além disso, segundo a Dakila, a comunidade científica, os governos e instituições internacionais como a ONU e a UNESCO estariam ocultando essas informações para proteger seus próprios interesses geopolíticos e evitar a descoberta do verdadeiro potencial econômico e energético da Amazônia.

Cabe ressaltar que a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), em congresso nacional realizado em Florianópolis em novembro de 2023, aprovou em assemblei geral de associados uma Moção de Repúdio ao Grupo Dakila Pesquisas, na qual consta:

“…a Assembleia Geral Ordinária da Sociedade de Arqueologia Brasileira repudia as iniciativas ligadas ao grupo Dakila Pesquisas, e pede atenção dos órgãos responsáveis com esta fraude. Solicita-se que retirem do ar suas redes que difundem mentiras e que revisem a autorização de qualquer “pesquisa” protocolada em órgãos de estado associadas às fraudes identificadas. Especificamente, solicitamos ao IPHAN que arquive a análise de tal processo que viola princípios éticos básicos.”

Promoção comercial das teorias: de Ratanabá a souvenirs online

Enquanto reivindica licenças formais para suas pesquisas, a Dakila também encontrou uma forma de lucrar com a promoção de suas ideias. A empresa mantém uma loja online onde vende souvenirs relacionados a Ratanabá, incluindo canecas, bonés, mouse pads e outros produtos promocionais. Para críticos, essa estratégia é parte de um modelo de negócios que capitaliza sobre a curiosidade pública em torno de mistérios arqueológicos e teorias conspiratórias.

A comercialização desses produtos é vista como uma forma de angariar fundos e manter o interesse no projeto. No entanto, especialistas alertam que, ao misturar ciência com interesses comerciais, a Dakila cria um terreno fértil para desinformação:

“A narrativa pseudocientífica da Dakila é apoiada por um modelo econômico que não apenas reforça as teorias sem fundamento, mas também pode gerar lucros às custas da desinformação pública. Isso é particularmente perigoso quando envolve áreas sensíveis, como o patrimônio arqueológico e as terras indígenas”, explica Artur Barcelos.

O uso do marketing para promover descobertas não comprovadas também foi criticado no parecer técnico do IPHAN, que destacou a falta de consistência científica nas apresentações feitas pela Dakila. Mesmo diante das negativas das autoridades, a empresa continua divulgando suas teorias em redes sociais e em “informes publicitários” na imprensa, buscando reforçar a narrativa de uma descoberta revolucionária prestes a ser revelada.

Com essas estratégias, a Dakila Pesquisas se apresenta não apenas como uma empresa de pesquisa, mas como um fenômeno econômico, político e cultural, simbolizando o embate entre ciência e crença no Brasil contemporâneo.

Para a comunidade científica, o maior risco é que o grupo consiga algum tipo de validação oficial, mesmo que indireta, por meio de licenças concedidas com base em projetos reformulados.

Conforme destaca o dossiê de Artur Barcelos, a estratégia da Dakila envolve reformular seus pedidos de forma a parecerem projetos científicos legítimos, mas o objetivo final permanece o mesmo: validar publicamente a existência de Ratanabá e suas conexões com as teorias da Terra plana e de civilizações antigas. Isso levanta questões sobre o papel dos órgãos públicos na proteção do patrimônio e no combate ao avanço do negacionismo científico.

Um alerta à preservação científica e cultural

O caso da Dakila Pesquisas é um exemplo emblemático de como o avanço da pseudociência pode se infiltrar nas brechas institucionais. Enquanto a empresa reconfigura seus pedidos e busca parcerias estratégicas, cabe ao Estado e à comunidade científica manter a vigilância. Afinal, como conclui o arqueólogo Igor Chmyz:

“Não se trata apenas de proteger o patrimônio arqueológico, mas de proteger a própria integridade do conhecimento científico no Brasil. Se permitirmos que teorias sem fundamento avancem, colocaremos em risco não só a ciência, mas também nossa história.” (Carta-Denúncia ao IPHAN, 2024).

A reportagem da Semana On entrou em contato com a Dakila Pesquisas por meio de sua assessoria de imprensa, mas as respostas da empresa aos questionamentos feitos não foram enviadas.

O TEMPO ESTÁ ACABANDO


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *