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Campo Grande

Assassinato de Beto Figueiredo choca Campo Grande

Crimes de ódio contra pessoas LGBTQIA+, homofobia ou transfobia duplicaram em MS

Publicado em 13/12/2024 10:04 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O assassinato brutal do professor universitário e ex-superintendente de Cultura de Campo Grande, Roberto Figueiredo, de 68 anos, ocorrido na madrugada desta sexta-feira (13), gerou comoção e abriu uma discussão urgente sobre a violência e os crimes de ódio no Brasil, especialmente contra a comunidade LGBTQIA+.

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O corpo de Figueiredo foi encontrado pela irmã, Carla Renata, dentro de sua própria casa, no bairro Altos do São Francisco, com sinais de facadas no pescoço e diversas lesões na cabeça causadas por pauladas. O crime foi classificado, a princípio, como latrocínio (roubo seguido de morte), mas a possibilidade de motivações associadas a crimes de ódio não está descartada.

O caso chamou atenção não apenas pela brutalidade, mas pelo perfil da vítima. Roberto Figueiredo era uma figura importante no cenário cultural de Mato Grosso do Sul, com uma trajetória de mais de três décadas como professor da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB) e como dirigente de instituições culturais. Foi presidente da Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande (Fundac), superintendente de Cultura do município e diretor da Fundação de Cultura na gestão do ex-prefeito Nelsinho Trad (PSD). Entre os seus últimos projetos, destacava-se o documentário “Onde você estava?”, que teria pré-estreia no próximo dia 18 de dezembro no Museu da Imagem e do Som de Mato Grosso do Sul.

As circunstâncias do crime

O imóvel de Figueiredo não apresentava sinais de arrombamento, o que leva a polícia a acreditar que ele tenha permitido a entrada do agressor, possivelmente alguém de seu convívio. Segundo a delegada Thainá Borges, da Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário (Depac), a hipótese de que a vítima teria marcado um encontro, seja de amizade ou de natureza amorosa, está sendo investigada. Essa linha de apuração reacende um debate constante no Brasil sobre a vulnerabilidade de pessoas LGBTQIA+ em encontros mediados por aplicativos de relacionamento, que, em várias ocasiões, resultam em roubos ou até mesmo em assassinatos.

Além do homicídio, o criminoso levou o carro de Roberto, um Jeep Renegade preto, além de seu celular e uma televisão. O veículo foi visto circulando pela Avenida Gury Marques, mas, até o momento, nenhum suspeito foi preso. A irmã da vítima, Carla Figueiredo, emocionada, lamentou o ocorrido: “É muita maldade, não precisava. Se eles queriam roubar, eles podiam ter levado tudo. Meu irmão entregaria qualquer coisa, carro, moto, TV”.

Uma trajetória de legado cultural

A morte de Roberto Figueiredo não silenciou apenas uma vida, mas interrompeu uma trajetória de impacto cultural. A Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Campo Grande publicou nota de pesar, destacando o papel do professor na valorização do patrimônio histórico e cultural de Mato Grosso do Sul. “Seu legado para a cultura sul-mato-grossense será para sempre registrado. Nosso muito obrigado, Beto!”, declarou a pasta nas redes sociais. A Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul reforçou: “Sua dedicação à educação, às artes e à valorização do patrimônio histórico inspirou gerações e será lembrada com profunda gratidão por todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo e aprender com ele.”

A comoção se estendeu também ao Fórum de Cultura de Campo Grande, que lamentou a morte de um de seus principais expoentes. Artistas, professores e amigos prestaram homenagens, destacando o perfil generoso e incansável de Roberto Figueiredo na luta pela preservação do patrimônio cultural e pela democratização do acesso à arte.

Caso Vini Jr: Por que racismo e homofobia revoltam mais quando é lá fora?

Latrocínio ou crime de ódio? O aumento dos casos em MS

Embora o caso esteja sendo tratado como latrocínio, o contexto do crime levanta a hipótese de uma possível motivação associada à homofobia ou transfobia. Dados recentes do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que os crimes de racismo por homofobia ou transfobia aumentaram 112,5% em Mato Grosso do Sul de 2021 para 2022. O Estado, que já registrava alta taxa de injúria racial e crimes de ódio, agora figura entre as unidades federativas com os maiores índices de crimes contra a comunidade LGBTQIA+.

Os dados apontam que os homicídios dolosos (quando há intenção de matar) contra pessoas LGBTQIA+ caíram de 8 para 5 no período de 2021 a 2022, mas as lesões corporais dolosas saltaram de 19 para 28 registros. Casos de racismo por homofobia ou transfobia são classificados como crimes de racismo, conforme decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que enquadrou a homofobia e a transfobia nas mesmas disposições legais do crime de preconceito de raça ou cor.

A ausência de denúncias formais desses crimes também é apontada como um dos entraves para o combate eficaz à violência contra pessoas LGBTQIA+. “Ter de convencer um policial de que se sofreu um crime, que aos olhos dele é legítimo, razoável, cabível, é uma das barreiras mais cruéis”, destacou o relatório do Anuário de Segurança Pública. O documento revela que muitas vítimas desistem de registrar os boletins de ocorrência após serem desacreditadas ou desrespeitadas nos órgãos policiais.

Prática de homofobia é crime

Brasil: panorama de uma violência estrutural

O aumento dos crimes de ódio não é uma exclusividade de Mato Grosso do Sul. Em nível nacional, os registros de racismo por homofobia ou transfobia saltaram de 326 para 488 casos entre 2021 e 2022, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Paralelamente, as denúncias de injúria racial subiram de 10.814 para 10.990. Entre os estados com as maiores taxas, destacam-se Distrito Federal, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul.

O contexto de subnotificação dos crimes contra a comunidade LGBTQIA+ é, segundo estudiosos, resultado de um “desinteresse” do Estado em enfrentar as questões de forma eficaz. Conforme o relatório, “o Estado demonstra-se não incapaz, porque possui capacidade administrativa e recursos humanos para tanto, mas desinteressado em endereçar e solucionar” os problemas que atingem essa população.

O assassinato de Roberto Figueiredo carrega, simbolicamente, duas dimensões de brutalidade. Primeiro, expõe a banalidade da violência urbana, onde o latrocínio ceifa vidas por objetos materiais. Segundo, ao ser associado a um possível encontro, o crime adentra o debate sobre a vulnerabilidade de pessoas LGBTQIA+ no Brasil, especialmente no uso de aplicativos de relacionamento. Não é raro que criminosos utilizem essas plataformas para atrair vítimas em situações de isolamento.

O jornalista e ativista João Silvério Trevisan, em seu livro Devassos no Paraíso (2000), aponta que “a violência contra pessoas LGBTQIA+ não é apenas fruto do ódio individual, mas da estrutura social que permite e endossa a discriminação cotidiana”. O que se observa, portanto, é que crimes dessa natureza não ocorrem no vácuo, mas num contexto de desprezo institucional e desamparo social.

O assassinato de Roberto Figueiredo deixa marcas profundas na cultura de Mato Grosso do Sul e no debate sobre segurança pública no Brasil. O episódio não é um caso isolado, mas uma peça de um mosaico de violência que, silenciosamente, se perpetua contra grupos marginalizados. Mais do que identificar os responsáveis pelo crime, é preciso olhar para as raízes do problema: a normalização da violência e o preconceito estrutural que atinge, de forma desproporcional, a comunidade LGBTQIA+.

Enquanto isso, familiares, amigos e membros da comunidade cultural de Campo Grande lamentam a perda de um homem que dedicou a vida à educação e à arte. Seu legado permanece nos palcos e nas mentes de quem acredita que a cultura é um instrumento de transformação. “O palco nunca mais será o mesmo sem ele”, disse um amigo próximo. Para a comunidade LGBTQIA+, o episódio é um lembrete sombrio de que, em um país marcado pela desigualdade e pelo preconceito, o direito de existir plenamente continua sendo uma luta diária.


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