22/04/2024 - Edição 540

Brasil

Caso Vini Jr: Por que racismo e homofobia revoltam mais quando é lá fora?

Valencia tem 'ultras' ligados à extrema-direita e caso de nazismo em 2019

Publicado em 23/05/2023 3:46 - Leonardo Sakamoto (UOL), UOL – Edição Semana On

Divulgação Reprodução

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O insistente, grotesco e nojento racismo sofrido por Vinícius Júnior na Espanha precisa levar à punição severa de torcedores, jogadores, clubes e do presidente da La Liga Javier Tebas. O que inclui prisões e banimento de agressores, perda de pontos, suspensão ou exclusão de times, demissão de passadores de pano, além de multas multimilionárias. E o repúdio contra quem tenta justificá-lo.

O crime não é culpa apenas de meia dúzia de indivíduos contra o principal jogador brasileiro no exterior, mas responsabilidade de um sistema que protege quem o comete, permitindo que eles se sintam seguros através da impunidade. O que, vejam só, também acontece por aqui.

Este momento precisa servir para despertar a justa indignação não apenas contra os estrangeiros que chamam nossos compatriotas de “macacos” e enforcam bonecos de jogadores negros em pontes, mas também com o racismo e a homofobia que ocorrem nos estádios brasileiros. Pois é mais fácil acusar o outro.

Há brasileiros racistas que vão aos estádios e tornam a vida de jogadores um inferno. Muitos dos esportistas relevam porque acham que reclamar não vai dar em nada. Afinal, muitos até receberam apelidos com base em sua cor de pele de lheiros, treinadores e companheiros de time, reforçando um racismo recreativo e deixando claro as relações de poder. Petróleo, Fumaça, Grafite, Fumaça, Somália, Negrete.

Mesmo que os jogadores digam que não se importam com o racismo, eles são vítimas. “Ah, mas isso é o futebol-raiz”, dizem alguns esquecendo que o racismo no Brasil também é raiz.

Outra questão é a homofobia. Reincidente, a torcida do Corinthians voltou a agir de forma criminosa no empate contra o São Paulo no último dia 14 de maio. E como no estádio em Valência, não eram um ou dois, mas uma multidão cantando um crime.

Pouco importa que o clube repudie isso, o STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) precisa tirar três pontos do time no Campeonato Brasileiro por conta desse caso, como prevê o artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva. E suspender o mando de jogo por um rosário de jogos.

Segundo relatório da CBF, houve um crescimento de 76% na homofobia dos estádios em 2022 em relação ao ano anterior.

O caminho para uma punição rigorosa já existe. Em setembro de 2014, o pleno do STJD retirou três pontos do Grêmio, levando à exclusão do time gaúcho da Copa do Brasil por causa das ofensas racistas de torcedores contra Aranha, então goleiro do Santos.

O clube ainda foi multado em R$ 54 mil e os envolvidos nos xingamentos proibidos de entrar em estádios. O árbitro e o quarto árbitro foram suspensos por não relatarem o ocorrido.

Uma punição rigorosa não resolve o problema por decreto, nem aqui, nem na Espanha. Federações, times e torcidas ainda farão vistas grossas ou mesmo darão apoio de forma velada ao preconceito. Mas é uma indicação de que há coisas que não podem e não devem ser toleradas.

Muitos já estão dizendo nas redes sociais: “E se alguém usar uma camisa de outro time e xingar?”, “Cadê minha liberdade de expressão?”, “Ah, mas que radicalismo!”, “Deixa o povo se divertir”, “É só brincadeira”, “É só futebol”.

Não, não é só futebol. Porque futebol é grande demais para ser só futebol. É também espelho da sociedade que somos e farol daquilo que precisamos ser. E quando futebol é palco para agressão da dignidade, não é apenas um determinado grupo, mas toda a sociedade que é atacada.

E não importa se são dez ou mil os que gritaram. Diante de homofobia e racismo, o silêncio por parte dos outros torcedores é sim conivência. Eles precisam a aprender a não permitir que isso aconteça sob risco do seu grupo ser prejudicado.

Certos xingamentos não são escolhidos aleatoriamente, mas significam uma forma de separar o certo e o errado, o quem manda e quem obedece, ditados pelo grupo hegemônico. Como as “piadas”, que existem em profusão para rir de gays, travestis, negros, mulheres, terreiros, pobres, imigrantes e que raramente caçoam de pessoas ricas ou famílias de comerciais de margarina na TV. Ou seja, proferidos por pessoas que são corajosas diante de fracos, covardes perante poderosos.

Torcedores de futebol, quando entoam coros chamando determinados jogadores de “bicha”, que é um termo depreciativo, têm o intuito de transformar uma orientação sexual em xingamento. Reforçam, dessa forma, que ser “bicha” é ser ruim, ser frouxo, medroso, incapaz e tantos outros elementos acrescidos ao significado falsamente aos gays ao longo do tempo.

Nesse caso, o uso da expressão não está atacando apenas um jogador (independentemente da orientação sexual do esportista), mas toda a coletividade, pois reforça preconceitos e questiona a dignidade de determinado grupo.

Fazendo um paralelo simples: um naco da torcida gritando que um jogador negro é “negro” não é simples observação da realidade, mas passa um recado cuja intenção é péssima. É bem distante de gritar que um jogador branco é “branco” em uma torcida de brancos. Certas sociedades, como a nossa e a espanhola, dá pesos diferentes a negros e brancos.

Mas, no caso de Vini Jr, era “macaco” mesmo o que gritavam.

Em resumo: se não sabe viver em sociedade, não vá ao estádio. Ou, estando lá, não abra a boca. E se abriu a boca para cometer crimes, precisa ser punido. E se punição do indivíduo não houver, que a coletividade responda por isso.

Extrema direita e nazistas

Os torcedores ultras do Valencia, que iniciaram as ofensas contra Vini Jr., têm histórico ligado à extrema-direita e foram responsáveis por um caso de nazismo e racismo em 2019.

A torcida conhecida como Los Yomus chegou a ser banida dos estádios em 2019 por conduta violenta.

O jornal El Diario, da Espanha, classifica a torcida como de extrema-direita e diz que ela voltou às ‘atividades’ no começo deste ano após uma derrota para o Valladolid.

O líder da torcida seria Ramón Castro, antigo líder extremista com longa ficha criminal e um símbolo neonazista tatuado em seu corpo.

Nazismo e racismo em 2019

Em 2019, um vídeo do jornal inglês Telegraph flagrou o momento em que torcedores do Valencia faziam gestos nazistas e racistas em direção à torcida do Arsenal, em um jogo da Liga Europa. Um deles imita um macaco.

Um dos torcedores foi identificado e banido dos estádios pelo Valencia naquele ano.

O incidente inclusive foi lembrado pelo Valencia em nota divulgada ontem sobre Vinicius Jr. para reforçar que o clube não aceita racismo em sua torcida.

Torcedores detidos em Valência por racismo contra Vini Jr são liberados

Os três torcedores presos em Valência por insultos racistas contra Vinicius Junior foram liberados pela polícia espanhola.

Os torcedores espanhóis com idades entre 18 e 21 anos foram liberados com a obrigação de comparecer em tribunal.

A Polícia prendeu os torcedores sob a acusação de crime relacionado ao exercício dos direitos fundamentais e das liberdades públicas.

A investigação contou com a colaboração do Valencia, e ainda está aberta para identificar outros possíveis autores.

Entenda o caso

A Polícia da Espanha informou que, no total, sete torcedores foram presos na manhã de hoje. Três deles pelos insultos racistas na partida entre Valencia e Real Madrid, e os outros quatro pela simulação de enforcamento com um boneco que usava a camisa de Vini Jr em janeiro deste ano.

Os quatro presos por causa do boneco que fazia referência ao atacante têm ligações com torcidas organizadas do Atlético de Madri e são jovens de 19, 21, 23 e 24 anos.

Os outros três detidos em Valência foram liberados após prestarem depoimento.

Eles foram presos por suspeita de crime de ódio contra o jogador brasileiro.


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