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Campo Grande

Área verde em Campo Grande recua

Capital é a mais arborizada do Brasil, mas até quando? Podas radicais e derrubada irregular são comuns em toda a cidade

Publicado em 14/11/2025 10:36 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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Num país assolado pelas consequências da degradação ambiental, a árvore deixou de ser mero adorno paisagístico e tornou-se uma questão de sobrevivência. No coração do Centro-Oeste, Campo Grande — a capital que o IBGE acaba de reconhecer como a mais arborizada do Brasil — encontra-se num dilema: ostenta um título que contrasta com a realidade das periferias desmatadas, das podas radicais e da especulação imobiliária que substitui o verde pelo concreto.

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Segundo o Censo Demográfico de 2022, 91,4% dos domicílios campo-grandenses estão em vias com pelo menos uma árvore — percentual que a coloca à frente de todas as demais capitais brasileiras. No entanto, essa estatística esconde um cenário preocupante: enquanto os bairros centrais esbanjam sombra e conforto térmico, as novas áreas de expansão urbana surgem como desertos ecológicos, onde o calor castiga e a água da chuva, sem árvores para freá-la ou solo permeável para absorvê-la, transforma-se em enxurrada devastadora.

A cidade que mais tem árvores pode perdê-las

O contraste entre números oficiais e o cotidiano dos moradores é flagrante. A mesma cidade premiada pela cobertura vegetal vive sob o risco da perda desse patrimônio. Nos fins de semana, quando a fiscalização praticamente desaparece, é comum ouvir o barulho das motosserras em ação irregular. Árvores são cortadas sem critério ou autorização, em podas agressivas que, segundo o biólogo José Milton Longo, comprometem a saúde das espécies e o equilíbrio ecológico urbano. “Ser uma cidade premiada não significa que estamos isentos de problemas. A gestão pública precisa estar atenta para garantir que o título seja mantido com responsabilidade ambiental”, alerta Longo.

A ausência de políticas efetivas de controle e planejamento ameaça transformar a floresta urbana campo-grandense em uma miragem estatística. O doutor Longo, um dos principais estudiosos da arborização urbana no país, frisa que o título de “Cidade Árvore do Mundo” — oferecido pela ONU por meio da Arbor Day Foundation — exige muito mais do que quantidade: requer planejamento, manejo técnico e participação popular, sob pena de se tornar um rótulo vazio.

Quando o verde vira promessa e não política

Nos bairros periféricos e loteamentos recém-abertos de Campo Grande, o verde ainda é uma promessa distante. As ruas largas e expostas, com moradias recém-construídas e ausência quase total de arborização, impõem temperaturas mais altas, sensação térmica desconfortável e agravamento das enchentes. A ausência de árvores, nesses contextos, não é apenas uma falha estética, mas um problema de infraestrutura urbana — um ponto crucial que urbanistas vêm defendendo há décadas.

Essa desigualdade socioambiental, em que o acesso ao conforto climático e à qualidade do ar é um privilégio de quem vive nas regiões centrais, reforça o alerta da filósofa Marilena Chaui, ao afirmar que “a exclusão social no Brasil não é apenas econômica, mas ambiental, espacial e simbólica”. A distribuição do verde nas cidades reflete, afinal, a forma como os direitos são distribuídos.

A árvore como infraestrutura e cidadania

É nesse contexto que ganha força no Congresso Nacional a proposta de criação da Política Nacional de Arborização Urbana, que pretende instituir planos municipais obrigatórios, priorizar espécies nativas, prever reposição de árvores retiradas e garantir o plantio inclusive em favelas e bairros populares. A proposta se ancora na chamada regra 3-30-300, defendida pela ONU: cada pessoa deve ver ao menos três árvores da janela de casa, viver em um bairro com 30% de cobertura arbórea e ter acesso a uma área verde a no máximo 300 metros de distância.

Esses parâmetros não são arbitrários. Estudos da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) mostram que a presença de árvores em áreas urbanas reduz doenças respiratórias, promove saúde mental, melhora a qualidade do sono e fortalece vínculos sociais. A cidade, como defendia o sociólogo Henri Lefebvre, é também o direito ao bem-estar cotidiano — e a árvore faz parte desse pacto civilizatório.

O Ministério do Meio Ambiente já sinalizou que haverá verba disponível para implementação da política, por meio do Fundo Clima, de emendas parlamentares e de recursos oriundos de multas ambientais. Mas sem vontade política local, a floresta urbana corre o risco de murchar em meio a discursos de sustentabilidade desconectados da prática.

Verde de fachada, sombra de artifício

A preocupação com a aparência sem compromisso com a essência se torna ainda mais evidente quando se observa iniciativas como a instalação de árvores artificiais na cidade de Belém, que sediará a COP30. O caso — que provocou críticas de ambientalistas — expõe uma tendência de teatralização da sustentabilidade, onde o marketing supera a ecologia, e a gestão pública se contenta em cumprir roteiros estéticos em vez de políticas estruturantes.

Em Campo Grande, a substituição da leucena — espécie exótica considerada invasora — por outras árvores mais adequadas é positiva, mas carece de planejamento técnico. Espécies com raízes agressivas, plantadas sob redes elétricas ou em calçadas inadequadas, aumentam o risco de quedas e alimentam a rejeição da população ao plantio em frente de casas ou comércios. A Sociedade Brasileira de Arborização Urbana alerta que a moda das palmeiras gigantes, comuns nas capitais brasileiras, tem pouco efeito ecológico: “Apesar da imponência, as palmeiras não são árvores de verdade e quase não capturam carbono”, adverte a entidade.

O futuro da floresta urbana

Se há um ponto de consenso entre os especialistas, é que o futuro da arborização urbana depende de ações integradas, contínuas e participativas. O manejo adequado, a fiscalização eficaz e a educação ambiental devem caminhar juntos. Além disso, iniciativas comunitárias como mutirões de plantio, adoção de espaços verdes e projetos escolares são essenciais para criar vínculos duradouros entre a população e as árvores da cidade.

A prefeitura de Campo Grande, até o momento, não anunciou medidas para enfrentar o avanço das podas ilegais, nem estratégias para reforçar a fiscalização nos fins de semana. A omissão pode custar caro: sem ação imediata, a cidade corre o risco de ver seu status de capital mais arborizada do Brasil desmoronar sob o peso de sua própria inércia administrativa.

Como bem sintetizou o geógrafo Milton Santos, “a urbanização só será justa quando for também verde, solidária e planejada”. Em tempos de colapso climático e retrocessos ambientais, Campo Grande tem diante de si uma escolha histórica: pode liderar uma revolução ecológica urbana no Brasil — ou perder-se entre estatísticas e slogans.

Alagamento em Campo Grande expõe negligência estrutural do poder público


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