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Campo Grande
Com quatro temporais em doze dias, capital mergulha em caos previsto por décadas
Publicado em 14/11/2025 9:33 - Semana On
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A água que inundou ruas, arrastou carros e interrompeu aulas em Campo Grande nas últimas semanas não caiu sem aviso, tampouco é novidade. As tempestades que varreram a cidade — quatro em apenas doze dias — são o sintoma visível de um sistema urbano enfermo, que adoece a cada estação chuvosa. O volume de 111,4 milímetros registrado entre os dias 12 e 13 de novembro, segundo o Cemaden, corresponde a 72% da média histórica de chuvas para o mês inteiro, e escancara um desequilíbrio que é tanto atmosférico quanto político. O fenômeno climático é real — mas a tragédia, essa é construída.
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Campo Grande, como tantas cidades brasileiras, vive sob o peso de um modelo de urbanização que se descola das exigências do século XXI. Em vez de antecipar-se à crise climática, a cidade repete um roteiro de improviso e reação tardia, como já ocorrera em 2020, quando o sistema de drenagem mostrou sinais evidentes de colapso. Um estudo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul alertava à época para a sobrecarga especialmente nas regiões dos córregos Anhanduí e Segredo, mas os investimentos em infraestrutura permaneceram tímidos, enquanto o crescimento urbano avançou sem bússola ecológica ou social.
Como explicam os meteorologistas, o cenário atmosférico do Centro-Oeste favorece a formação de tempestades intensas nesta época do ano, resultado da combinação entre a umidade vinda da Amazônia e a formação de áreas de baixa pressão no Paraguai. Esse padrão, como detalha o meteorologista Natálio Abrahão, é recorrente e previsível, com alternância entre períodos secos e chuvosos, moldando um ciclo climático típico de Mato Grosso do Sul. “Quando isso ocorre, as chuvas seguem por dois a quatro dias, gerando enchentes ou inundações em um ou vários locais”, explicou.
Portanto, não é a chuva que surpreende. O que choca é a constância com que os danos se repetem. Ruas alagadas, árvores arrancadas pelo vento, escolas fechadas por falta de energia e mais de 200 pontos de atenção mapeados pelas equipes da Defesa Civil e da Secretaria de Infraestrutura. A Avenida Ernesto Geisel — uma das principais da capital — transformada em canal de escoamento de um sistema que já não comporta nem a normalidade. Tudo isso enquanto mais de 80 municípios sul-mato-grossenses permanecem sob alertas meteorológicos emitidos pelo Inmet e pelo Cemtec, com previsão de ventos superiores a 100 km/h, risco de granizo e novos volumes extremos de chuva.
A tragédia é anunciada e, como bem resume a urbanista Ermínia Maricato, da Universidade de São Paulo, “o padrão de urbanização nas cidades brasileiras está vinculado a um modelo de exclusão social e especulação fundiária. As áreas mais frágeis da cidade — próximas a córregos, áreas de encosta ou sem infraestrutura — são destinadas aos mais pobres. Os desastres são anunciados”.
Essa configuração urbana marcada pela segregação social e pela lógica do lucro sobre a vida resulta na impermeabilização desenfreada do solo, na precariedade do saneamento e na omissão estrutural quanto à fiscalização ambiental. É o que Ulrich Beck chama de “sociedade de risco”, onde a modernização, ao invés de mitigar ameaças, cria novas vulnerabilidades que as instituições tentam combater com instrumentos ultrapassados — “agravando, assim, os próprios riscos que produzem”.
Ao observar o caso de Campo Grande, percebe-se uma confluência perversa entre fatores naturais e escolhas políticas. A meteorologia explica a tempestade; a política explica a catástrofe. A ausência de um plano diretor ajustado às exigências da emergência climática, a falta de ações estruturantes de prevenção e o investimento tímido em drenagem, habitação e infraestrutura não são apenas falhas técnicas — são decisões. E, como toda decisão política, carregam consequências sociais profundas.
A população mais afetada, previsivelmente, é a mesma que vive nas bordas do sistema: famílias em áreas sem asfalto, sem coleta regular de resíduos, próximas a córregos assoreados ou em regiões onde a especulação empurrou os pobres para os limites da dignidade urbana. A tempestade torna visível o que o cotidiano naturaliza: desigualdade, abandono e silêncio institucional.
A pergunta que se impõe, neste momento, não é se a próxima chuva virá — ela virá. A questão é se Campo Grande escolherá enfrentar suas fragilidades estruturais ou permanecerá refém de uma lógica que transforma eventos climáticos em desastres sociais.
A resposta a essa questão será escrita não apenas com obras públicas ou decretos de emergência, mas com a coragem política de romper com o ciclo da omissão. Como lembra o filósofo francês Edgar Morin, “o futuro não está escrito em parte alguma, ele depende do que fizermos agora”.
A lama que permanece depois da água é, mais do que sujeira, metáfora. E aviso.
Como buscar ajuda
A Defesa Civil de Campo Grande, a Guarda Civil Metropolitana, o Corpo de Bombeiros e a Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos) informaram que estão em ação para desobstrução de vias, limpeza de bocas de lobo, retirada de galhos e monitoramento de pontos de alagamento. Mais de 200 locais já foram mapeados após os dois últimos temporais.
Os canais oficiais para emergências continuam disponíveis:
Defesa Civil – 199
Corpo de Bombeiros – 193
Solicitação de serviços públicos – 156
A Cedesc (Coordenadoria Estadual de Defesa Civil) também emite alertas via SMS para celulares cadastrados no número 40199.
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