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Campo Grande

Adriane esconde salários após reajuste de até 34% ao primeiro escalão

Sem reajuste aos servidores há quatro anos, prefeita omite dados salariais no Portal da Transparência

Publicado em 18/05/2026 1:31 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes, deixou de divulgar os salários da administração municipal referentes ao mês de fevereiro no Portal da Transparência justamente no período em que entrou em vigor uma nova rodada de reajustes salariais para o primeiro escalão da Prefeitura.

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Enquanto cerca de 30 mil servidores municipais acumulam quatro anos sem reposição linear da inflação, a remuneração da chefe do Executivo municipal chegou a R$ 31,9 mil após aumento de 18,44% neste ano, acumulando correção de aproximadamente 50% desde o início do segundo mandato.

O atraso na publicação dos dados já supera 60 dias. Pela rotina administrativa, os vencimentos pagos em fevereiro deveriam ter sido disponibilizados em março. A ausência das informações ocorre em meio ao desgaste provocado pela manutenção do reajuste zero aos servidores públicos municipais em 2023, 2024, 2025 e agora também em 2026.

A política de contenção fiscal adotada pela administração municipal tem sido sustentada com o argumento de equilíbrio das contas públicas. Na prática, porém, o arrocho recai principalmente sobre os servidores e os serviços oferecidos à população. A gestão enfrenta críticas recorrentes relacionadas à falta de medicamentos e insumos nas unidades de saúde, escassez de médicos, demora na realização de exames, problemas de infraestrutura urbana e atraso em obras públicas.

Enquanto isso, os reajustes do núcleo político da administração seguiram em trajetória oposta.

Até abril de 2025, Adriane recebia R$ 21.268,62. Com a primeira recomposição salarial aprovada no ano passado, o subsídio saltou para R$ 26.943,05. Neste ano, nova correção elevou o vencimento para R$ 31.912,56. Caso o cronograma previsto seja mantido, a prefeita ainda receberá outro reajuste em fevereiro de 2027, quando o salário alcançará R$ 35.462,22 — valor equivalente ao subsídio pago ao governador de Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel, responsável pela administração estadual dos 79 municípios sul-mato-grossenses e de uma população estimada em quase 3 milhões de habitantes.

A vice-prefeita e titular da Secretaria Municipal de Assistência Social, Camilla Nascimento de Oliveira, também foi beneficiada. O salário passou de R$ 22.345,53 para R$ 27.923,60 em 2026, aumento de 24,96%.

Os maiores ganhos ficaram concentrados no primeiro escalão. Os secretários municipais receberam reajuste de 34% neste ano, com o subsídio passando de R$ 19.028,90 para R$ 25.511,95. Em comparação com os vencimentos pagos até março de 2025 — quando os secretários recebiam R$ 11.619,70 — o aumento acumulado chega a 119%.

A previsão legal ainda garante nova elevação salarial em 2027, quando os secretários deverão receber R$ 30.142,70 mensais. Em três anos, o crescimento acumulado dos salários da cúpula administrativa poderá atingir 159%.

O contraste entre os reajustes do alto escalão e o congelamento salarial do funcionalismo amplia a pressão política sobre a prefeita. Servidores municipais acumulam perdas inflacionárias sucessivas e apontam redução contínua do poder de compra desde o último reajuste linear concedido pela gestão do ex-prefeito Marquinhos Trad, que autorizou correção de 10% parcelada em duas vezes.

Além dos reajustes salariais, integrantes do primeiro escalão ainda recebem benefícios adicionais e gratificações internas — os chamados “penduricalhos” — que podem elevar substancialmente os valores pagos mensalmente pela administração municipal.

Especialistas em administração pública costumam apontar que transparência fiscal não se limita à divulgação parcial de dados, mas exige publicidade ativa e tempestiva das informações remuneratórias. A Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011) estabelece que órgãos públicos devem assegurar ampla divulgação de informações de interesse coletivo, especialmente aquelas relacionadas à execução orçamentária e gastos com pessoal.

O cientista político Fernando Abrucio, pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV), sustenta que transparência é um dos pilares da legitimidade administrativa no setor público. Em artigo publicado pela FGV, Abrucio afirma que “a transparência é condição essencial para o controle democrático da administração pública”. A avaliação reforça o entendimento de que a omissão ou atraso deliberado na divulgação de dados públicos compromete mecanismos de fiscalização social e institucional.

Em Campo Grande, a combinação entre reajuste zero aos servidores, aumento expressivo ao primeiro escalão e atraso na atualização do Portal da Transparência aprofunda o desgaste político da administração municipal em um momento de crescente insatisfação com os serviços públicos oferecidos à população.

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