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Campo Grande
Durante a última campanha, Adriane Lopes e seu grupo político relativizaram a importância da vacinação
Publicado em 14/05/2026 1:19 - Semana On
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Com o aumento dos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) e da circulação dos vírus da Influenza em Campo Grande, a Secretaria Municipal de Saúde (Sesau) decidiu ampliar, a partir desta quinta-feira (14), a vacinação contra a gripe para toda a população acima de 6 meses de idade, nas unidades básicas de saúde da Capital.
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Dados da 18ª semana epidemiológica apontam que Campo Grande já registrou 808 casos de SRAG e 55 óbitos relacionados à doença. As crianças menores de 1 ano até 9 anos concentram a maior parte das internações, com 547 casos, representando 67,7% do total. Na faixa etária de 10 a 19 anos foram registrados 46 casos (5,7%), enquanto os idosos acima de 60 anos somam 116 casos, o equivalente a 14,3% das internações.
Entre os pacientes hospitalizados, 70 casos foram confirmados para Influenza A e 27 para Influenza B. Ao todo, 15 mortes foram registradas entre pacientes internados por Influenza A e B. Diante do cenário de aumento da circulação viral e da pressão sobre os serviços de saúde, a Sesau decidiu ampliar o acesso à vacina como estratégia de prevenção.
Desde o início da campanha, em 26 de março, apenas 107 mil doses foram aplicadas em Campo Grande. Entre os grupos prioritários (crianças, gestantes e idosos) foram 70.766 doses, mas a cobertura vacinal ainda está em 31,11%, índice considerado muito abaixo da meta de 90%, estabelecida pelo Ministério da Saúde.
Segundo o gerente de imunização da Sesau, Evandro Ramos, a ampliação da vacinação é uma medida estratégica para conter o avanço da doença durante o período sazonal. “A vacina é uma forma preventiva muito eficaz, inclusive contra as formas graves da doença, e está disponível gratuitamente para toda a população”, destacou.
A Sesau reforça que a vacina contra a gripe é segura, gratuita e fundamental para reduzir complicações, internações e mortes causadas pelos vírus Influenza. A orientação é para que a população procure a Unidade de Saúde da Família (USf) mais próxima e mantenha a caderneta de vacinação em dia.
Grupo político da prefeita questionou vacinação infantil
Em 2024, durante a campanha eleitoral que culminou em sua eleição, a atual prefeita de Campo Grande, Adriane Lopes defendeu, em entrevista pela rádio CBN, que busca “um equilíbrio entre a liberdade pessoal [de não se vacinar] e a imunização infantil”.
Em saúde pública, esse tipo de formulação não é neutro: quando a autoridade máxima do município coloca a proteção coletiva no mesmo plano da recusa individual, ela desloca o debate da ciência para a conveniência política — e enfraquece uma das políticas públicas mais bem-sucedidas da história brasileira.
Na oportunidade, Adriane afirmou que, no cenário “pós-pandêmico”, não seria possível repetir estratégias do passado, como “vacinar crianças na escola sem autorização”. Segundo ela, a gestão passou a buscar “consenso e equilíbrio”, com envio de pedidos de autorização aos pais nas cadernetas dos alunos da rede municipal e abertura de pontos de vacinação em shoppings e praças públicas.
Vacinação infantil não é uma gentileza administrativa nem um serviço opcional oferecido a quem estiver passando pelo shopping. É política pública essencial, prevista no Sistema Único de Saúde e sustentada pelo Programa Nacional de Imunizações, referência internacional que oferece 50 imunobiológicos, entre vacinas, soros e imunoglobulinas, para diferentes fases da vida.
Ao tratar a imunização como uma negociação entre “liberdade pessoal” e proteção infantil, Adriane adota um vocabulário típico do pós-pandemia, período marcado pela ampliação da hesitação vacinal. Estudos recentes da Fiocruz apontam que medo, desinformação e a mediação dos profissionais de saúde estão entre os fatores que influenciam a hesitação vacinal infantil no Brasil.
O contexto torna a fala ainda mais grave. Campo Grande não discute vacinação em abstrato. Em 2023, a capital ficou abaixo da meta do Ministério da Saúde em campanha contra poliomielite e sarampo, com 85,72% do público-alvo imunizado, segundo levantamento divulgado pela imprensa local. A meta recomendada para esse tipo de imunização é de 95%, patamar necessário para reduzir o risco de circulação de doenças preveníveis.
Mato Grosso do Sul registrou melhora em 2024: dados do Ministério da Saúde indicaram aumento na cobertura de 11 dos 16 imunizantes do calendário infantil no estado, com avanços em vacinas como meningite C, DTP, febre amarela, pólio e pneumocócica 10. Ainda assim, o próprio avanço reforça o ponto central: cobertura vacinal sobe com busca ativa, comunicação pública firme e coordenação institucional — não com ambiguidade política diante da desinformação.
A escolha retórica de Adriane também não pode ser separada de seu alinhamento político. Bolsonaro, principal padrinho nacional da prefeita, fez da pandemia um palco de confronto com a ciência, questionou vacinas e medidas sanitárias e foi indiciado pela Polícia Federal em 2024 por suspeita de fraude em registros de vacinação contra a Covid-19. Em 2025, a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento do caso por considerar insuficientes as provas para denúncia, ponto que deve ser registrado por rigor factual.
Esse dado não absolve o efeito político do bolsonarismo sobre a vacinação. Ele apenas delimita juridicamente o caso específico. No campo sanitário, o estrago maior foi simbólico: quando lideranças políticas relativizam vacinas, o resultado não fica restrito ao palanque. Ele chega à escola, à unidade básica de saúde, à decisão de pais inseguros e ao trabalho cotidiano de profissionais que precisam reconstruir confiança.
Por isso, a posição da prefeita exige crítica hoje. Não basta abrir polos em praças e shoppings se o discurso público da gestão sugere que a vacinação infantil deve ser equilibrada com a recusa individual. Em matéria de imunização, a liberdade de um adulto termina onde começa o risco coletivo imposto a crianças, idosos, imunossuprimidos e pessoas que dependem da alta cobertura vacinal para estarem protegidas.
Campo Grande precisa de uma política de vacinação que trate escolas como aliadas estratégicas, não como território interditado pelo medo de desgaste político. Precisa de campanhas permanentes, linguagem clara, busca ativa, transparência nos dados por bairro e enfrentamento direto da desinformação. O que não precisa é de uma prefeitura que confunda prudência administrativa com hesitação diante da ciência.
A vacinação infantil é uma escolha civilizatória. Ao relativizá-la em nome de um “equilíbrio” mal definido, Adriane Lopes não apenas erra no tom: oferece à cidade uma liderança menor do que o desafio sanitário exige.
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