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Campo Grande

7 de setembro em MS teve desfile, terraplanismo e truculência

Desfile oficial exaltou patriotismo, PM reprimiu a esquerda e bolsonaristas permaneceram alheios à realidade

Publicado em 08/09/2025 12:42 - Semana On

Divulgação Gov MS

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A celebração oficial dos 203 anos da Independência do Brasil em Campo Grande reuniu cerca de 10 mil pessoas na Rua 13 de Maio, segundo a Polícia Militar. Sob forte presença de autoridades e com tom institucional, o desfile cívico-militar exaltou a atuação das Forças Armadas e das polícias. Mas o evento também escancarou as fraturas políticas do país: enquanto grupos da extrema direita ocupavam as ruas com discursos em defesa da anistia aos golpistas do 8 de janeiro, a Polícia Militar impediu com spray de pimenta o tradicional Grito dos Excluídos, manifestação da sociedade civil com histórico de participação pacífica.

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A ação repressiva contra o Grito dos Excluídos não foi um ponto fora da curva, mas parte de um padrão preocupante. Policiais militares bloquearam o acesso do grupo ao centro da cidade com grades e reagiram com violência à tentativa de atravessar a barreira. Um dos atingidos foi Tiago Botelho, superintendente da SPU (Superintendência do Patrimônio da União) e professor de Direito da UFMS. “A Constituição garante o direito de manifestação e, do nada, a pessoa me deu um spray na cara”, afirmou Botelho, que anunciou que entrará com ação judicial contra a corporação.

O deputado federal Vander Loubet (PT-MS), presente na manifestação, classificou a ação como “exagerada”. “Sempre houve esse tensionamento, mas não precisava. O mais importante é que fizemos uma manifestação pacífica”, declarou.

Grito barrado, extremismo liberado

Poucas horas antes da repressão ao Grito dos Excluídos, um grupo de cerca de mil bolsonaristas ocupou a Avenida Afonso Pena com o ato “Reaja Brasil”, pedindo anistia aos presos do 8 de janeiro e atacando o STF. A manifestação contou com apoio explícito de parlamentares como João Henrique Catan (PL), que classificou as condenações como “um dos maiores golpes contra a democracia”, e do vereador André Salineiro, que se referiu às decisões do Supremo como “atrocidades”.

O deputado federal Marcos Pollon (PL-MS) foi além, sugerindo que há uma trama “para tirar a direita das eleições” e classificando os processos contra os golpistas como “um emaranhado de crimes”. Em nenhum momento os parlamentares repudiaram os atos de invasão, vandalismo e tentativa de ruptura institucional ocorridos em 8 de janeiro de 2023, em Brasília.

Em entrevista à revista Piauí, o jurista e ex-ministro do STF Carlos Ayres Britto alertou para o risco da banalização do discurso antidemocrático. “A liberdade de expressão não protege a incitação ao crime nem o discurso golpista. Isso não é liberdade, é abuso”, disse o jurista.

Desfile oficial exalta forças de segurança

O desfile foi marcado por forte presença de militares e policiais. Cerca de 4 mil integrantes de 18 instituições participaram da marcha. O governador Eduardo Riedel (Progressistas) comemorou: “O desfile de hoje foi mais uma vez extremamente positivo com tudo que a gente tem em relação à segurança pública, às forças armadas brasileiras”.

Alunos de escolas cívico-militares e do Colégio Militar também desfilaram. Embora não haja evidências de melhora significativa de desempenho escolar nessas unidades, o modelo vem sendo promovido como símbolo de “ordem e disciplina” por governos de perfil conservador. Um levantamento da Folha de S. Paulo mostrou que a média de notas em matemática e português de escolas cívico-militares não é significativamente superior à de escolas públicas convencionais.

Entre aplausos e omissões

Nas arquibancadas, depoimentos de moradores revelavam o contraste de percepções. Rosimeire Brites, cabeleireira de 53 anos, trouxe o neto para ver os militares: “É um exemplo. Assim como estimulei meus filhos. Meu filho mais velho acabou sendo cabo do Exército”, disse.

Já a repressão ao Grito dos Excluídos não teve o mesmo direito ao aplauso. Ainda que a manifestação tenha acontecido pacificamente após o recuo da PM, o episódio marca mais um capítulo do tensionamento político que tenta silenciar vozes dissonantes. Como observou o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos: “Quando a repressão à democracia vem disfarçada de ordem, é a liberdade que está em perigo”.

O contraste entre a celebração da ordem institucional e a criminalização da manifestação popular sintetiza bem o momento que o Brasil atravessa. Há, de um lado, uma exaltação da disciplina militar e do patriotismo protocolar; de outro, a tentativa de sufocar o grito daqueles que denunciam as desigualdades, a violência do Estado e a impunidade dos que atentaram contra a democracia.

Um 7 de Setembro de dois Brasis

O 7 de Setembro em Campo Grande escancarou duas faces do país: a que aplaude fardas e clama por anistia a golpistas, e a que luta para ser ouvida entre grades e spray de pimenta.

Enquanto as instituições seguirem tolerando o discurso de ódio travestido de patriotismo e reprimindo os movimentos sociais legítimos, a independência continuará sendo mais um símbolo esvaziado — uma festa para poucos, e um grito contido para muitos.

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