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Campo Grande
Gestão Adriane Lopes é marcada por crise na saúde, obras paradas e denúncia de compra de votos
Publicado em 10/04/2025 1:10 - Semana On
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Em seus primeiros 100 dias de gestão à frente da Prefeitura de Campo Grande, Adriane Lopes (PP) enfrenta um cenário que vai muito além dos desafios administrativos comuns a uma capital brasileira. Marcas de uma gestão instável — com saúde pública em colapso, obras paradas, crateras urbanas, um transporte coletivo em frangalhos e, agora, uma acusação formal de compra de votos — evidenciam não apenas a fragilidade da administração atual, mas também o aprofundamento de um modelo político anacrônico, que insiste em resistir às pressões por transparência, eficiência e participação democrática.
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Adriane Lopes, que assumiu o comando da capital sul-mato-grossense prometendo uma revolução na gestão pública, hoje acumula crises que revelam o descompasso entre o discurso e a prática. O Ministério Público Eleitoral de Mato Grosso do Sul reconheceu indícios consistentes de captação ilícita de sufrágio durante a campanha de 2024, pedindo a cassação do mandato da prefeita e de sua vice, Camilla Nascimento. Segundo o parecer, há provas suficientes de que ambas se valeram de métodos ilegais para garantir votos, o que, à luz da Lei nº 9.504/97, configura grave violação à lisura do processo democrático.
A decisão, ainda que não definitiva, repercute nos bastidores da política em MS. A senadora Tereza Cristina (PP), considerada madrinha política de Adriane Lopes, acompanha com preocupação o desgaste crescente da prefeita. Pesquisas internas indicam que a má avaliação da gestão municipal repercute diretamente na imagem da senadora, enquanto o governador Eduardo Riedel parece sair ileso da associação. Por isso, Tereza já entrou em campo para tentar reverter o desgaste da afilhada política. O temor da cassação, embora presente, é diluído por quem garante que o suporte político de Adriane no âmbito nacional é forte o suficiente para blindá-la.
Essa movimentação reforça o quanto a política local está intrinsecamente atrelada aos interesses mais amplos do jogo de poder em Brasília. Não se trata apenas de um mandato municipal em crise, mas de uma cadeia de relações políticas em desequilíbrio, onde os erros de gestão de uma prefeita podem arrastar consigo nomes de peso do partido e ameaçar projetos eleitorais futuros.
Saúde pública em colapso
No plano da administração cotidiana, a saúde pública é o retrato mais visível do colapso da gestão. Superlotação nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), falta de equipamentos essenciais como raio-x e escassez de medicamentos expõem uma população vulnerável a riscos constantes. Três das seis UPAs da cidade estavam sem raio-x em pleno mês de março, e, segundo a própria Adriane, o município encontra dificuldades em licitações por falta de empresas interessadas — argumento que, ainda que tecnicamente plausível, revela um despreparo estrutural para lidar com a demanda.
A cidade, com quase 1 milhão de habitantes, atende a uma população flutuante ainda maior, vinda de municípios vizinhos. No entanto, essa realidade é conhecida e não pode mais servir de álibi para a incapacidade de resposta rápida e eficaz do poder público. Como destaca o sanitarista e ex-ministro da Saúde José Gomes Temporão: “A saúde pública exige previsibilidade, planejamento e gestão integrada. Alegar surpresas em contextos conhecidos é sinal de incompetência ou má-fé”.
Educação em atraso e promessas recicladas
Na educação, Adriane Lopes fez promessas ambiciosas: zerar a fila por vagas em creches (Emeis) e climatizar todas as escolas até o final de 2025. Contudo, a própria gestão admite que 13 obras seguem inacabadas — situação que se arrasta desde administrações anteriores e que deveria ter sido tratada como prioridade máxima.
A história brasileira de promessas educacionais não cumpridas é longa. Desde o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932), especialistas apontam a centralidade da educação na transformação social, mas também a crônica negligência do poder público. Em Campo Grande, o ciclo se repete: a retórica de compromisso convive com a paralisia dos canteiros de obras.
Infraestrutura precária e o discurso do clima
Buracos tomam conta das ruas da capital. Em bairros como Coophavila II, Universitário e Aero Rancho, moradores improvisam sinalizações com galhos, pneus e até pedaços de móveis para alertar motoristas. A gestão atribui os problemas às chuvas e promete que “em 30 dias tudo será resolvido”. O mesmo prazo foi dado para a normalização dos equipamentos de saúde — um padrão de promessas que se acumulam e raramente se concretizam no tempo anunciado.
A justificativa meteorológica, no entanto, é um velho truque retórico utilizado para desviar a responsabilidade sobre a ausência de políticas públicas permanentes de manutenção urbana. A imprevisibilidade climática pode agravar situações, mas não explica a completa ausência de planejamento — um pilar básico da gestão pública moderna.
Transporte coletivo em crise e sob investigação
Outro ponto crítico é a mobilidade urbana. Adriane prometeu modernizar o sistema, buscar subsídios federais e melhorar a qualidade dos ônibus. Enquanto isso, a população enfrenta veículos lotados, sem ar-condicionado e com horários irregulares. Uma CPI foi aberta na Câmara Municipal para investigar irregularidades no transporte coletivo, incluindo a suposta omissão da Prefeitura na fiscalização do serviço.
Essa negligência afeta diretamente a qualidade de vida de milhares de trabalhadores e estudantes que dependem do sistema todos os dias. Em um contexto de crescente desigualdade social, o transporte coletivo deveria ser prioridade estratégica — e não moeda de troca ou espaço para conchavos políticos, como tem sido historicamente.
Uma crise que é também moral e institucional
Além das falhas administrativas, a gestão Adriane Lopes está diante de uma crise de legitimidade. O parecer do MP Eleitoral representa não apenas um risco jurídico, mas uma profunda mancha ética. A prática de compra de votos é um sintoma de uma cultura política clientelista que fragiliza as bases da democracia representativa. Como alerta o filósofo Roberto Mangabeira Unger: “A corrupção não é apenas o desvio de recursos; é a degradação do ideal democrático ao transformá-lo em mera fachada”.
Campo Grande está diante de um impasse. As promessas de modernização e avanço foram, até aqui, sufocadas por uma gestão marcada por improvisos, desculpas climáticas, colapso dos serviços básicos e um grave questionamento sobre sua própria legitimidade eleitoral. A cidade não pode continuar refém de uma política que combina estagnação administrativa com práticas eleitorais suspeitas.
A crise atual exige mais do que promessas: pede uma ruptura com as velhas práticas que atravancam o desenvolvimento e a dignidade da vida urbana. Exige responsabilidade, planejamento e, sobretudo, respeito à democracia e à cidadania — valores que parecem ausentes na atual administração.
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