13/06/2024 - Edição 540

Brasil

Viciado na ilusão das bets, Brasil ignorou ressaca da jogatina on-line

Trabalhadores estão se endividando até com empregadores, perdendo o dinheiro da própria sobrevivência

Publicado em 02/06/2024 10:40 - Leonardo Sakamoto - UOL

Divulgação Reprodução Internet

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Cassinos ainda são proibidos no Brasil devido ao impacto negativo à saúde mental do vício no jogo. Com a chegada das casas de apostas esportivas e do joguinhos on-line que prometem enriquecimento rápido, essa proibição foi praticamente contornada. E o Estado brasileiro, admitindo o fato consumado, aprovou a cobrança de impostos dessas empresas.

Hoje, times de futebol e coberturas esportivas na imprensa são bancados com a grana das bets, artistas e influenciadores recebem milhões para promover jogos de azar e, como aponta reportagem de Carlos Madeiro no UOL, publicada no último dia 26, trabalhadores estão se endividando até com empregadores, perdendo o dinheiro da própria sobrevivência.

Quem diria que uma sociedade com milhões de pessoas com pouco dinheiro no bolso e despreparada para a jogatina se viciaria na promessa de dinheiro fácil, não é mesmo?

Anos atrás, na época da febre dos bingos, muita gente faliu. Conheço pessoas que perderam, carro, casa e família para as cartelas. A jogadinha travestida de brincadeira foi proibida, mas vieram as bets e os jogos on-line com ilusões de enriquecimento, com impacto muito maior, pois ao alcance do celular.

Se as chances de ficar rico fossem realmente gigantes como os anúncios na TV, no rádio e nas redes fazem crer, não haveria tanta empresa brasileira e estrangeira oferecendo seus serviços de apostas. Ou vocês, acham que elas fazem assistência social? Pipocam como Gremlins na chuva exatamente porque sabem que o dinheiro vem fácil. Para elas.

A questão deveria ser tratada como um problema de saúde pública, tal como o uso abusivo de drogas. Mas o Brasil prefere encarar o porte de psicoativos como crime (se você é negro e pobre, claro) e o vício na jogatina on-line como uma brincadeira inofensiva. Ou, pior, como uma chance de ascensão social.

Publicidade de casas de apostas deveriam ser obrigadas a trazer os mesmos grandes avisos estampados pelos maços de cigarro. E, ao invés do alerta do risco de câncer, o aviso de problemas de saúde mental.

Governos deveriam alertar para os riscos de bets e dos joguinhos on-line em amplas campanhas de informação, mostrando o que acontece com quem transforma a aposta eventual em vício.

Por fim, comunicadores e veículos de comunicação que estão sendo bancados com grana da jogatina on-line, deveriam fazer uma reflexão sobre o seu papel na saúde pública.

Não está se discutindo aqui a proibição de nada, até porque seria praticamente impossível, tal como a proibição das drogas. A situação trazida pela reportagem de Carlos Madeiro é apenas o começo. Tudo ainda vai piorar bastante até que o país perceba a ressaca.


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