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Brasil

Ultrafarma por trás de esquema bilionário de sonegação fiscal

Esquema pode ter desviado mais de R$ 1 bilhão dos cofres públicos

Publicado em 13/08/2025 1:43 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O discurso de saúde acessível que sustentou a imagem da Ultrafarma e de seu fundador Sidney Oliveira desmoronou ontem (12), com a prisão do empresário em uma operação do Ministério Público de São Paulo que apura crimes de corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e fraudes fiscais. O escândalo revela um esquema que pode ter desviado mais de R$ 1 bilhão dos cofres públicos desde 2021, com participação direta de um auditor fiscal de alto escalão do Estado de São Paulo.

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De acordo com os promotores, o auditor — cujo nome ainda não foi oficialmente divulgado — manipulava processos administrativos tributários para facilitar a quitação indevida de créditos fiscais de grandes empresas do varejo, entre elas a Ultrafarma e a Fast Shop. Em troca, recebia propina por meio de uma empresa registrada em nome de sua própria mãe, configurando lavagem de dinheiro. A operação cumpriu três mandados de prisão e revela uma rede sofisticada de corrupção entre agentes públicos e empresários.

Não se trata de mera infração contábil. A “quitação indevida de créditos tributários”, como chamam os investigadores, tem efeito direto e corrosivo sobre os recursos públicos que deveriam financiar a saúde, a educação e os serviços essenciais. Em termos práticos, o esquema é uma forma de sonegação fiscal organizada, cujo impacto social extrapola os valores desviados.

A Ultrafarma, que construiu sua reputação com campanhas publicitárias protagonizadas pelo próprio Sidney Oliveira, sempre se posicionou como defensora da saúde do brasileiro comum — vendendo vitaminas, ômega 3 e cálcio a preços populares. Ironicamente, a investigação sugere que a empresa pode ter atuado contra o financiamento do próprio sistema de saúde que diz proteger.

“A sonegação é um dos crimes de colarinho branco mais perversos, pois se apresenta como inofensiva, mas sabota as estruturas do Estado”, afirma a economista e professora da FGV Sonia Fleury, especialista em políticas públicas. “Sem arrecadação adequada, os serviços públicos que garantem igualdade de acesso à saúde, por exemplo, ficam comprometidos.”

O caso, porém, não é isolado. Ele se insere em uma sequência de escândalos que abala a confiança da população nas instituições e mina a ideia de que a exposição da corrupção seja um passo rumo à justiça. Da fraude nas Americanas ao escândalo dos sindicatos no INSS, passando pelos já clássicos mensalão, petrolão e orçamento secreto, a percepção dominante é de que sempre haverá uma nova quadrilha pronta para substituir a anterior.

A sucessão de casos gera o que estudiosos chamam de cansaço cívico. Em vez de provocar indignação transformadora, os escândalos se acumulam como ruído de fundo, esvaziando o impacto moral que deveriam produzir. O jurista Rubens Glezer, da FGV Direito SP, explica: “Quando a punição é desigual ou seletiva, a repetição de escândalos leva ao descrédito, não à regeneração do sistema.”

O risco, agora, é o de naturalizar a ideia de que a corrupção é parte indissociável do funcionamento do país — e, pior, que quem burla o sistema é mais esperto do que quem o sustenta. Nesse cenário, figuras como Sidney Oliveira, que supostamente desviaram fortunas do erário com a cumplicidade de fiscais, podem ser vistas não como criminosos, mas como “vitoriosos” que venceram um Estado ineficiente.

“Sonegar bilhões compromete mais a sociedade do que o furto por necessidade”, escreveu o jornalista e sociólogo Leonardo Sakamoto em sua coluna no UOL. “Quem consegue dar um jeitinho é vendido como herói, mesmo que isso configure concorrência desleal e destruição do pacto social.”

Esse tipo de crime, além de injusto, penaliza os empresários que cumprem a lei em um país com um dos sistemas tributários mais complexos do mundo. Ao desviar recursos que deveriam financiar serviços públicos, o esquema aprofunda desigualdades e reforça o abismo entre quem pode pagar por saúde privada e quem depende do SUS.

É simbólico que o caso envolva uma empresa cujo lema publicitário remete à confiança e à promoção da saúde. Se confirmadas as acusações, o “suplemento de honestidade” que faltou à Ultrafarma custou caro — não apenas aos cofres públicos, mas à crença coletiva de que a lei deve valer para todos, inclusive para os que vendem cápsulas com promessas de bem-estar.

Ainda preso

Sidney Oliveira passou por audiência de custódia por volta das 11h desta quarta-feira (13) em São Paulo. Após o procedimento, ele retornou ao 8º Distrito Policial, localizado no bairro do Belenzinho, na zona leste da capital paulista, onde permanece preso.

A audiência de custódia é uma etapa prevista em lei para que o juiz avalie a legalidade da prisão em até 24 horas após a detenção, garantindo que o acusado tenha direito à defesa e à análise da necessidade de manutenção da prisão temporária.

O advogado Arthur Fiedler, que defende Sidney Oliveira, afirmou que não teve acesso ainda aos autos da investigação e que não pode se manifestar, porque o caso corre em segredo de Justiça.

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